publicado dia 13/04/2018

Educação Infantil e gestão integral: das escolas às políticas públicas

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“Fazer educação é fazer política”, advertiu Maria Thereza Marcílio, da Avante, durante o Seminário Gestão Integral e Integralidade da Infância: caminhos para a Educação Infantil, realizado pela organização em parceria com Instituto Arcor, Instituto C&A, Juntos pela Educação e Oficina Municipal, nesta quinta-feira (12).

Leia + Brincadeiras que dialogam com diferentes aspectos da educação integral

“Os educadores precisam ter consciência de que há disputa de poder, de valores e de concepções dentro da Educação”, continuou a educadora, “e nessa disputa, os professores têm um papel importantíssimo de conduzir e construir os caminhos da sociedade, porque ele é um cidadão ativo que forma outros cidadãos“.

Isso posto, Maria Thereza Marcílio delineou os princípios básicos que devem nortear a elaboração de políticas públicas e de práticas pedagógicas para uma Educação Infantil integral.

“Em primeiro lugar, as crianças têm direito de ser membro ativo da comunidade, um influenciador da vida de outros e vice-versa. Precisam ser escutadas e respeitadas”, disse a educadora.

Brincar é aprender

“As crianças têm direito de ser membro ativo da comunidade, um influenciador da vida de outros. Precisam ser escutadas e respeitadas”, disse Maria Thereza Marcílio

Ela também ressaltou a importância de permitir a livre expressão corporal dos pequenos. “Educar o corpo é deixar que as crianças corram de pé descalço, que se sujem na terra e na grama, que dancem. Sem isso, não há educação integral”.

Tampouco haveria um desenvolvimento pleno dos estudantes sem as brincadeiras, que são mais do que uma linguagem, segundo Maria Thereza. “É por meio do brincar que a criança compreende o mundo e constrói conhecimento. E brincar na escola não é só intervalo ou quando dá. Brincar tem que estar em tudo”.

Maria Thereza reforçou, ainda, que educação não se faz sem uma parceria com a família, e que o papel do professor é seguir as crianças e não o contrário. “Nós esperamos que as crianças se ajustem a um modelo que é um só para todo mundo. Por isso, é preciso seguir a criança, a pedagogia da participação, da escuta e da sensibilidade, e não só os planos e metas”.

Educação Infantil não é depósito de criança

Janine Schultz, do Instituto C&A, também chamou atenção para o fato de que, por vezes, a Educação Infantil é concebida a partir de uma visão assistencialista, o que priva as crianças de seu direito à Educação.

“A creche não é só um lugar para ficar enquanto a família trabalha, como um depósito de criança. Ela é um espaço de direito, que está muito além de só acessar esse lugar. É preciso que as crianças tenham seu desenvolvimento integral garantido”, disse Janine.

“Nós somos de onde nós brincávamos quando éramos pequenos. Foi nesse espaço que construímos nossa identidade”, afirmou Javier Rodriguez

“A Educação Infantil é a primeira etapa da formação das crianças, é a base de tudo, mas os cursos de formação não dão a devida importância a ela”, lamentou Janine. Ela explicou que como a sociedade brasileira entende a educação infantil tão somente como cuidado, e um cuidado desconectado do educar, ela acaba, muitas vezes, ocupando um lugar menor na Educação, o que leva a uma desatenção à formação inicial e continuada dos professores desta etapa de ensino.

Educação contextualizada

Javier Alberto Rodriguez, da Instituto Arcor, lembrou ainda que a educação integral pressupõe uma relação íntima entre escola e território. “Nós somos de onde nós brincávamos quando éramos pequenos. Foi nesse espaço que construímos nossa identidade e nossa estrutura social”, disse.

Apesar disso, as lógicas do sistema educacional elaboradas pelo ministério, estados e municípios, por vezes, imperam sobre as lógicas do espaço territorial. “A realidade local tem muita dificuldade em permear as escolas. O ensino deveria estar atento à vida cotidiana das crianças, porque é de onde se extrai a matéria prima da educação: as experiências e cultura dos pequenos. O desafio é elaborar políticas públicas que comecem nas escolas, cheguem na comunidade e, por último, nas esferas de poder para se transformarem em políticas”, sugeriu Javier.

Gestão integral na prática: a experiência de Camaragibe

Em 2016, a secretaria municipal de Educação de Camaragibe, na região metropolitana de Recife (PE), iniciou uma reformulação do seu projeto político pedagógico (PPP) de Educação Infantil, em um movimento como o recomendado por Javier Rodriguez: de baixo para cima.

A diretora de ensino do município, Edilma Luz, que conduziu o processo e esteve no seminário, contou como foi o trabalho feito com 27 unidades de Educação Infantil do município.

“Ao longo de 2016, nós fizemos um processo de escuta da comunidade, dos professores, das famílias, de diretores, de documentos oficiais de educação infantil e, sobretudo, das crianças, para só depois começar a reformular o PPP”, disse Edilma.

Na revisão do PPP, o município de Camaragibe (PE) incorporou o entendimento da criança como sujeito de direito, aproximando alunos da gestão

O processo de ouvir as crianças foi mediado por professores que promoveram conversas e atividades lúdicas como desenhos e outras brincadeiras para que elas expressassem suas vontades. Os docentes registravam as falas e levavam para as reuniões de discussão do PPP.

A etapa seguinte foi convocar cada uma das 27 escolas para ler o documento elaborado em conjunto. “Fazíamos leituras reflexivas tanto para discutir o significado e a implementação do PPP como para estabelecer um canal de diálogo com cada uma das escolas e dividir responsabilidades”, contou Edilma.

Dentre as mudanças em Camaragibe, a diretora de ensino destaca a entrega de um pequeno acervo de livros para cada criança, a compra de brinquedos e a criação de espaços para brincar, e também o investimento na formação de professores.

“Durante as discussões do PPP, percebemos interesses dos professores em fazer algumas formações continuadas. Uma delas era sobre a transição da Educação Infantil para o Fundamental, então convidamos especialistas para trabalhar essa questão com eles, de como fazer essa mudança sem uma quebra”, explicou Edilma.

Este ano, as ações estão voltadas para avaliar e revisar a implementação do PPP. “E nessa mudança de valores e do nosso entendimento da criança como sujeito de direito, nós mudamos o ambiente da gestão, e aproximamos os desenhos e atividades das crianças do nosso cotidiano, com murais e exposições, isto é, aproximamos as crianças da Secretaria de Educação”, disse Edilma.

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