publicado dia 07/08/2019

Para além dos estereótipos: a nova biografia de Paulo Freire

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A editora o define como "um livro sóbrio que mostra Paulo Freire para além dos estereótipos".

A editora o define como “um livro sóbrio que mostra Paulo Freire para além dos estereótipos”.

Crédito: Editora Todavia

Paulo Freire nunca foi comunista. Ainda é mais lido nas universidades do exterior do que nas brasileiras. Nunca pregou uma educação partidária nas escolas. Estes são apenas alguns dos aspectos sobre os quais a nova biografia do pedagogo joga luz. 

Escrita por Sérgio Haddad, doutor em história e filosofia da educação pela Universidade de São Paulo (USP), e um dos fundadores da Ação Educativa, a obra O Educador: um perfil de Paulo Freire, estará disponível nas livrarias a partir de 9 de agosto. O lançamento oficial, com a presença do autor, ocorrerá em São Paulo, no Dia Internacional da Alfabetização, celebrado em 8 de setembro.

“A minha missão era informar quem é Paulo Freire, porque o debate é muito ideologizado e percebo que as pessoas não conhecem nem o Paulo e nem sua obra”, diz o autor sobre a publicação da obra em um momento de polarização no país.

Com uma escrita literária, baseada em fatos, Sérgio Haddad reconstrói a trajetória de Freire e esclarece aspectos pouco conhecidos de sua vida. Voltado principalmente para quem quer começar a entrar em contato com as obras do pedagogo, o livro une história pessoal ao contexto histórico e político em que Freire produziu suas obras. Assim, é possível compreendê-las a partir desse prisma duplo.

Confira a entrevista de Sérgio Haddad ao Centro de Referências em Educação Integral

Centro de Referências em Educação Integral: Como surgiu a ideia de construir essa biografia de Paulo Freire?

Sérgio Haddad: A editora Todavia me convidou para escrever um livro que contasse a história de vida do Paulo, de maneira mais literária do que documental, e que mostrasse como suas obras são um produto do que ele estudava em confronto com a realidade que vivia. 

Isso foi no começo de 2017, e ainda não estava dado o clima da conjuntura atual. Na medida que fui escrevendo, o contexto foi se acirrando. Entendi então que minha missão era informar quem é Paulo Freire. O debate é muito ideologizado e percebo que as pessoas não conhecem nem o Paulo e nem sua obra, apesar de ser muito conhecido internacionalmente. 

CR: E, em resumo, quem foi Paulo Freire e o que ele defendia?

SH: O Paulo tem uma perspectiva humanista, que valoriza a educação como pertencente ao ser humano, e dá uma conotação política à educação. Ele argumenta que é impossível a educação ser neutra. Isso porque ela é parte da sociedade e, portanto, tem um objetivo que é estabelecido ao longo da história.

Freire também mostra que, por meio da educação, as pessoas podem ajudar a melhorar a sociedade. E por que melhorar? Porque poderia também piorar. Mas é aí que entra seu caráter humanista, da amorosidade, da beleza no processo educativo, e de valores éticos. 

O livro traz ainda a posição de Paulo em relação ao marxismo. Ele se utiliza desse método para analisar a realidade. Mas o fato de utilizá-lo como ferramenta não quer dizer que tenha uma relação com o comunismo, do qual foi muito crítico. 

Um dos capítulos chama “Minhas reuniões com Marx nunca me sugeriram que eu parasse de ter reuniões com Cristo”, que é uma fala dele. Freire nunca foi comunista. Nunca foi filiado a uma teoria. Mas, ao mesmo tempo, não se negava a utilizar as diversas teorias a que tinha acesso para compreender a realidade em que vivia. Essa relação entre teoria e prática era muito forte, nunca havia uma distância.

CR: Como este livro dialoga com o cenário político e educacional de hoje? 

SH: Paulo Freire defende o respeito aos indivíduos, a responsabilidade com o outro ser humano e com a natureza, e o estímulo ao pensamento crítico. 

Isso confronta o período em que vivemos, permeado por um discurso de ódio e de estímulo à violência. De apoio à militarização e à destruição ambiental. E também se coloca contra a visão que reduz a educação a uma questão técnica.

Livro resgata cartas trocadas entre Paulo Freire e sua prima quando criança