Professor e estudantes descobrem repelente natural para Aedes em meio à pandemia

Publicado dia 15/10/2021

Selo Reviravolta da EscolaNo começo da pandemia no Brasil, quando o professor Carlos José de Souza Júnior abriu a sala de aula virtual e, uma vez mais, encontrou apenas 5 dos seus 40 estudantes do 1º ano, o desalento tomou conta. Mas foi também nesse momento em que lembrou das palavras do patrono da Educação brasileira: “é preciso esperançar”. Assim teve início um projeto que, em seu andamento, conteve a evasão escolar e alcançou um feito inédito para a comunidade científica, com a descoberta de um repelente e larvicida sustentável e natural contra o mosquito Aedes aegypti, causador da dengue.

Leia + Caminhos para a BNCC de Ciências Naturais: por um ensino diverso e contextualizado

“Foi importante realizar o projeto nesse momento de pandemia porque precisávamos dar uma resposta: o conhecimento e a Ciência continuam vivos. Mas também porque precisávamos trabalhar os pilares da educação integral para fortalecer os vínculos do estudante consigo mesmo, com os conhecimentos e entre escola e família. Mas não foi fácil, as dificuldades enfrentadas foram grandes e eu estou aqui representando milhares de professores que ainda estão no anonimato, mas diariamente usam estratégias pedagógicas fantásticas, de forma genuína, se desdobrando e lutando para levar algo diferente para seus estudantes e despertar um pouco de esperança neles”, diz Carlos.

A primeira etapa, como relata o professor de Matemática e Ciências da Natureza, que leciona na Escola de Referência em Ensino Médio de Ipojuca (PE), foi planejar como desenvolver o ensino de Ciências longe do laboratório da escola e com o propósito de realizar uma investigação científica sobre um problema real. 

Para tanto, o professor desenvolveu um pequeno laboratório com materiais recicláveis e instruiu os estudantes a reproduzirem os aparatos em casa. “O intuito era que eles usassem os equipamentos para resolver alguma questão do território e aqui temos um problema sério com a proliferação do Aedes aegypti, que vem aumentando desde 2018”, conta Carlos.

Mini laboratório criado por um estudante a partir de materiais recicláveis

Crédito: Acervo pessoal/Carlos José de Souza Júnior

Em parceria com os estudantes e Joanderson de Santana Lacerda, professor de Química da escola, tiveram início as pesquisas sobre como combater o mosquito por meio de ervas tradicionais.

A partir do levantamento das plantas oriundas da região, duas delas se sobressaíram nos testes: o hortelã e a canela. Sem qualquer outro elemento químico, apenas com a destilação das ervas, a turma conseguiu produzir um biorrepente, que pode substituir os inseticidas de difusores elétricos, e um larvicida natural.

“Não encontramos nos artigos científicos associações de ervas para Aedes, então o nosso projeto foi pioneiro; uma descoberta para a comunidade científica e um recado para o poder público porque existem poucos planos de contingência do mosquito em todo o Nordeste”, conta o professor.

O projeto foi um sucesso entre os estudantes. Animados com o andamento das pesquisas e testes, começaram a comentar sobre as atividades com seus pares e, assim, 90% da turma retornou às aulas remotas. Agora, com a retomada do ensino presencial no segundo semestre de 2021, o projeto iniciado no ano passado tornou-se uma disciplina eletiva da escola e os estudantes que o iniciaram e agora ensinam os demais e continuam produzindo os repelentes.

“Os estudantes têm que ser pesquisadores e protagonistas da construção de seus conhecimentos e, quando ensinam o colega, podem consolidar seu pensamento crítico, científico e criativo. E poder pesquisar também é importante para os docentes e sua contínua formação”, diz Carlos.

O projeto desenvolvido pelos professores e a turma foi um dos vencedores do Prêmio Territórios 2021, realizado pelo Instituto Tomie Ohtake.Nossa escola e os estudantes estão muito felizes e gratos pelo reconhecimento e por valorizar a educação em um momento tão difícil”, comemora o educador, destacando que todo esse trabalho não poderia ter sido realizado sem o efetivo apoio da equipe gestora, de seus pares, dos estudantes e suas famílias, que ajudaram na construção dos laboratórios e na captura de larvas e mosquitos para realizar os testes. 

“O apoio da equipe gestora foi fundamental, porque não tínhamos recursos para desenvolver esse projeto, mas o mais importante foi a vontade de transformar e a motivação e apoio que ela nos deu. O fato de que a escola trabalha com educação integral há 12 anos também foi um fator que nos ajudou a vencer os desafios impostos pela pandemia”, ressalta o educador.

E no ensejo do Dia dos Professores, Carlos deixa um recado para seus colegas de todo o país: 

“Sabemos dos desafios que nossa educação enfrenta atualmente por causa das consequências impostas pela pandemia. Embora o aspecto desse cenário seja de tristeza, o educar ressurge muitas vezes diante de quadros de angústias como esse, porque existe a esperança do verbo esperançar e não do verbo esperar, parafraseando o ilustre professor Paulo Freire. E por estarmos na esperança do verbo fazer, um educador como você pode advir do vale para levar luz às flores virtuosas do Jardim da Educação. Parabéns educadores e educadoras pela resiliência, por amar o conhecimento e por, em vez de desistir, recomeçar. Feliz Dia do Professor!”.

O que é a #Reviravolta da Escola?

Realizado pelo Centro de Referências em Educação Integral, em parceria com diversas instituições, a campanha #Reviravolta da Escola articula ações que buscam discutir as aprendizagens vividas em 2020 e 2021, assim como os caminhos possíveis para se recriar a escola necessária para o mundo pós-pandemia.

Leia os demais conteúdos no site especial da #Reviravolta da Escola.

4 práticas pedagógicas diferentes para as aulas de Ciências