publicado dia 18/11/2019

4 práticas pedagógicas diferentes para as aulas de Ciências

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Os conteúdos curriculares de Ciências Naturais podem ser ótimas oportunidades para abordar temas que promovam o desenvolvimento integral dos estudantes e sua conexão com o território. 

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“As discussões sobre sustentabilidade na escola têm se alargado, passando do foco na preservação das plantas e animais e das questões relacionadas ao consumo e à produção de lixo, para as relações humanas e os contextos sociais”, explica Ana Paula Pietri, formada em ciências biológicas e especialista do Centro de Referências em Educação Integral

Para auxiliar os professores a trilharem esse caminho, quatro especialistas explicam conceitos-chave e práticas pedagógicas que podem ser adaptadas de acordo com o contexto e realidade das escolas.

Biologia e cultura

Os biomas brasileiros eram o tema de estudo dos alunos do Instituto Sylvio Passarelli. Durante dois meses, eles aprenderam sobre a diversidade da fauna e da flora de várias regiões do país.

Mas, para a professora Kelly Bernardo, não era suficiente. Ela aproveitou o tema para falar também sobre os diversos povos indígenas que fazem desses territórios. “Eu percebia que tinha muito preconceito e estereótipo em relação a quem são os indígenas brasileiros.”

Durante as aulas, os alunos conheceram os tipos de vegetação e de solo e debateram ecologia e sustentabilidade. Aprenderam ainda sobre produtos naturais, a língua Tupi, o contexto histórico dos indígenas, bem como sua alimentação, mitos e o uso da astronomia própria para controle agrícola e de pesca.

A educadora abordou, ainda, as queimadas e os desmatamentos nas diferentes regiões, o efeito estufa, poluição, perda de diversidade, e o impacto das questões ambientais para todos os seres humanos. “Conseguimos perceber que tudo está conectado, entre nós e com o ambiente inteiro.”

Os insetos e o pensamento científico

“As crianças costumam ter uma opinião muito visceral sobre insetos: ou acham bonito e amam, ou acham feio e odeiam”, diz José Roberto Pujol, professor na Universidade de Brasília (UnB) e especialista em entomologia – a ciência que se dedica a estudar estes pequenos artrópodes.

Por isso, para o especialista, o primeiro passo é tentar desfazer essa noção de bom e mau que circunda os insetos. Assim, quando for ensinar que baratas e mosquitos podem transmitir doenças, é importante dizer que existem vários tipos de baratas inofensivas, e apenas algumas dezenas das mais de 180 mil espécies de moscas e mosquitos são nocivas.

“Na Biologia não podemos determinar bom e mau, temos que mostrar para os alunos os vários caminhos de interpretar o nocivo e o benéfico por meio do pensamento científico, mostrando a rede que se forma entre todos os seres vivos, e ir tirando o antropocentrismo, lembrando que nós não somos os mais evoluídos, mas apenas os mais organizados.”

E a prática que o professor sugere é simples: levar as crianças para observar atentamente os insetos que estão em um parque, uma praça ou na horta da escola, e analisar sua anatomia e comportamento. “Parece trivial, mas funciona”, diz. E não só porque é uma atividade ao ar livre, que desperta a curiosidade nos alunos, mas também porque essa é uma maneira de aprender o método científico na prática, quase sem perceber que “está sendo cientista.”

Outra possibilidade é usar microscópios para observar os insetos de perto ou imprimir imagens bem ampliadas para observar os detalhes.Tem que estimular o estudante, ciência é curiosidade, estímulo audiovisual para fazer perguntas para o cérebro, não adianta entender o método científico se não sabe ver e ouvir”, diz.

Trabalhar com insetos que, em geral, são pequenos e frágeis e costumam ser alvo de inseticidas, também é uma oportunidade para refletir sobre o respeito pelo outro e pelas diferentes formas de vida.

“Não tem problema matar uma abelha se você é alérgico. Nem é preciso ficar em dúvida se o mosquito que está te picando é inofensivo ou não. A questão é compreender o ambiente em que vivemos e nosso papel de maneira global, entendendo que tudo está relacionado e é interdependente. Se a criança compreende esse processo, ela deixa de matar um bicho não por pena, mas por conhecimento.”

Sair da escola para aprender

A professora Arlete Borba da Silva, coordenadora dos projetos de sustentabilidade da EMEF Teófilo Benedito Ottoni (SP), fez de uma praça atrás da escola o palco de suas aulas, e pode inspirar outros educadores a olharem para o potencial educativo do território que circunda suas escolas.

A praça era tomada por uma grama que atingia 2 metros de altura e servia como depósito de entulho, com sofás velhos, televisões quebradas e lixo por toda parte. Movida pelo objetivo de ensinar as crianças sobre a importância de preservar o meio ambiente e mostrar que eles também têm responsabilidade nessa luta, a professora convidou os alunos, famílias, a comunidade e uma escola vizinha para revitalizar a área.

O projeto teve início em 2017 e foi nomeado pelos alunos como “A praça é nossa”. A primeira atividade das crianças foi observar o local, anotar os problemas que identificavam e dizer como gostariam que o espaço fosse.  

De volta à escola, começaram a pensar juntos. Era preciso que a grama fosse podada com mais frequência, que tivessem lixeiras pela rua e que esses entulhos fossem removidos. “Eu questionava os alunos de quem poderia resolver a questão, apresentava a eles os órgãos responsáveis e como acioná-los”, conta Arlete.

Quando tudo foi feito, as crianças plantaram árvores e, sentadas no gramado, ouviram histórias sobre indígenas e a preservação das florestas. Hoje o espaço é utilizado para observação das espécies de plantas e de bichos, realização de gincanas e apresentações de teatro. Os moradores ajudam na manutenção da poda e os alunos mensalmente fazem um mutirão para recolher o lixo que, eventualmente, ainda jogam por lá.

Agora, o grupo de alunos planeja pintar os muros que cercam um dos lados da praça com desenhos e frases, e fazer uma horta comunitária. “Essas atividades tem a finalidade de mostrar que a escola está protegendo esse espaço que é de todos.”

O nosso lugar no tempo e na evolução

“A vida cresce como uma árvore. O tronco principal representa a vida microbiana, que depois se ramifica em milhões e talvez bilhões de ramos, que são as linhas que a vida produziu ao longo dos anos.” É assim que o paleontólogo Luiz Eduardo Anelli, professor na Universidade de São Paulo (USP), descreve a evolução da vida na Terra, e que costuma facilitar a visualização deste conceito pelos alunos.  

Mas há um jeito de destacar alguns aspectos nessa árvore da vida que podem servir para mostrar que estamos todos conectados. Partindo do ancestral comum entre seres humanos e chimpanzés, é possível encontrar no ramo da árvore uma lesma, há 600 milhões de anos. Um homo sapiens e um girassol se encontram a 1,5 bilhões de anos, quando seu ancestral comum se separou.

“Não há vida que escape dessa árvore, a questão é só a distância. Aprendemos que se começarmos a cortar os galhos dessa árvore, alguma coisa vai acontecer com os demais. Temos que respeitar todas as formas de vida, inclusive as que escolhemos para viver. A diversidade enriquece o mundo. E fica mais fácil entender a diversidade humana quando entendemos as razões para ela existir.”

Outra atividade que o professor sugere é a construção de uma linha do tempo do universo, que pode ser impressa e colada nas paredes da sala ou de um corredor para facilitar a visualização.

Nela, cada metro equivale a um bilhão de anos, e cada milímetro a um milhão de anos. O primeiro dos 14 metros representa o Big Bang, e em 13 metros está a formação da Via Láctea. Em 4,6 metros está o surgimento do sistema solar, e em 3,5 metros está o início da vida na Terra. O último milímetro deve ser dividido em 5. Este último quinta representa o surgimento do homo sapiens

Outra possibilidade é colocar todos esses eventos em um calendário, como sugerido pelo astrônomo Carl Sagan. Nesse esquema, os 14 bilhões de anos do universo cabem em 12 meses, e os seres humanos ocupam somente os últimos 5 minutos deste ano cósmico.

No primeiro segundo do dia 1º de janeiro ocorre o Big Bang, e em 31 de janeiro a formação da Via Láctea. Em 1º de agosto surge o sistema solar e em 15 de setembro a vida na Terra. Em dezembro, no dia 18, nascem as primeiras plantas, no dia 24 os dinossauros, em 25 os primeiros ancestrais dos mamíferos e em 28 de dezembro os grandes répteis são extintos. 

Já em 31 de dezembro se concentram uma série de eventos. Às 10h15 aparecem os primeiros macacos, às 21h24min surge o primeiro ancestral do homem a andar ereto, às 23h54min é formado o primeiro homem anatomicamente moderno. Em 23h59min45seg foi inventada a escrita, e em 23h59min50seg são construídas as pirâmides do Egito. Faltando 1 segundo para a meia-noite, Cristóvão Colombo descobre a América.

“É sempre bom relativizar as coisas, e saber que os continentes, a atmosfera que nos acolhe e que torna esse mundo habitável e respirável, são fruto de um processo histórico. Tudo está dentro desse contexto e hoje somos parte e sobrevivemos por causa disso. Não somos o centro, somos um piscar de olhos acelerado nessa história.”

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