Na Argentina, a Escuela Cooperativa Tierra del Sol aposta na centralidade do estudante para garantir a aprendizagem

Publicado dia 03/02/2015

A construção da Escuela Cooperativa Tierra del Sol  tem como ponto de partida a preocupação de pais, professores e outras pessoas da comunidade com a aprendizagem das crianças. No pequeno povoado de Tilcara, no norte da Argentina e com pouco mais de seis mil habitantes, as duas escolas do município estavam lotadas. Isso, explicam os criadores da iniciativa, dificultava a atenção particular a cada estudante, e também não havia possibilidades de escolarização de crianças com deficiência.

O que era visto como déficits do município se tornou as potencialidades da escola. Assim, o acompanhamento individual de cada estudante, a inclusão de crianças com deficiência e a criação de práticas mais inclusivas que propiciem a integração, e não reforcem a exclusão, foram os eixos a partir dos quais se construiu o projeto político pedagógico da instituição.

Após dois anos de debates sobre qual escola se queria, é que em 2006 a Terra do Sol entrou em funcionamento, com duas salas de jardim de infância e uma de primeira série. Atualmente, a escola conta com 49 matriculados, da educação infantil até o equivalente ao 1º ciclo do ensino fundamental, abarcando a faixa etária de 3 a 12 anos.

Estudante no centro

“Co-construção e desenvolvimento de aprendizagens significativas dos estudantes que possibilitem interpretar o mundo livremente junto aos seus companheiros, docentes, família e comunidade.” É sobre essa base que se fundamenta a proposta pedagógica da escola, que valoriza o “sentir e o fazer, os ritmos individuais e grupais, e as potências e necessidades de cada criança”, como explica o blog da iniciativa.

Entre os objetivos da proposta, estão o de desenvolver o pensamento lógico e a inteligência emocional; produzir processos educativos personalizados; e priorizar o enfoque inclusivo, atendendo as necessidades educativas especial (ligadas ou não a uma deficiência). Além disso, a escola busca priorizar o enfoque intercultural na prática educativa e promover a participação ativa dos pais.

A escola, que enfrenta dificuldades na contratação de docentes alinhados a sua proposta, definiu seis pontos centrais que devem ser observados por todos os professores. O primeiro é uma educação personalizada e personalizante, ou seja, que é focada no indivíduo e que apoia a formação do mesmo. Disso deriva o respeito pelos ritmos e potencialidades de cada estudante, priorizando o desenvolvimento da inteligência de cada indivíduo por meio de oficinas e pela resolução de problemas que buscam a autonomia na aprendizagem e o desenvolvimento do potencial criativo.

Tidas como um tempo-espaço de vivência, as oficinas partem das questões das crianças e usam a metodologia de resolução de problemas, combinando os diferentes campos do conhecimento de forma interdisciplinar. Com caráter prático, as oficinas trabalham com as crianças em grupos, assumindo diferentes papeis na construção e resolução de problemas que efetivamente impactam suas vidas e as convidam às discussões acadêmicas. Para apoiá-los, a escola trabalha com aulas nos campos de linguagem, matemática, ciências sociais e ciências naturais, mas sempre refletindo as discussões das oficinas que coordenam todo processo pedagógico.

Na alfabetização, as crianças são gradativamente convidadas ao universo leitor, partindo dos signos oferecidos pela própria comunidade. A leitura e escrita se dão como construção individual de cada criança em um processo coletivo, em que os que já acessam a palavra escrita apoiam os que ainda estão se desenvolvendo. Para tanto, a escola afirma que toda a unidade se converte em um universo leitor, convidando as crianças a diariamente decifrarem e se apropriarem de códigos que até então não conhecem.

Outros pontos de atenção da escola são a interculturalidade e diversidade, a espiritualidade e a inteligência emocional.

Gestão compartilhada

A escola também acredita nos valores do cooperativismo, dado o fato de que ela é gerida e mantida por uma cooperativa integrada tanto por pais quanto por professores: ajuda mútua, democracia, igualdade, equidade e solidariedade são vistos como fundantes da gestão pedagógica e que refletem em toda administração da unidade.

Com a responsabilidade pela escola compartilhada por múltiplos indivíduos, o modelo de gestão democrática se faz presente. A cooperativa realiza reuniões de acordo com a demanda e possui uma assembleia anual ordinária. O dia a dia da gestão fica a cargo de um conselho de administração, que se reúne ao menos uma vez por mês, e é composto por nove pessoas, representantes de pais e docentes. A cooperativa é sem fins lucrativos e toda arrecadação é revertida para a instituição.

Entre as tarefas da equipe diretiva está velar que o projeto educativo seja implementado, coordenar o trabalho docente, levar debates e reflexões à comunidade escolar e promover a articulação e cooperação da escola com outras instituições da comunidade, ampliando as perspectivas de aprendizagem das crianças e fortalecer a tônica de que aprendam em diálogo com o contexto em que vivem.

Principais resultados

Em um curto período, após três anos de funcionamento, em 2009, a escola conseguiu ser reconhecida oficialmente como parte do sistema de ensino argentino, indicando que ela cumpre com os requisitos curriculares oficiais. O reconhecimento não partiu apenas do Estado, mas também da própria comunidade. Inicialmente, a escola recebia majoritariamente estudantes de famílias que migraram para a cidade, muitos da capital Buenos Aires, mas em 2011 o quadro mudou e metade dos alunos passou a ser da própria região.

Desde o início, a escola investe em processos de autoavaliação e avaliação compartilhada, traçando com os estudantes não apenas os avanços e desafios nos seus percursos individuais de aprendizagem, como uma leitura sistemática e coletiva da própria escola. Paralelamente, em uma abordagem construtivista, o educador acompanha diariamente cada criança, identificando quais necessidades apresenta e o que conseguiu alcançar no período.

 

Escola

Abertura da escola à comunidade possibilitou repensar o currículo