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Adolescentes criam projeto de busca ativa para amigos voltarem a estudar

Publicado dia 10/05/2022

Uma colega que não aparece mais nas aulas. Um amigo que deixa a escola por não aguentar mais sofrer bullying. Outro que está trabalhando e por isso não estuda mais. Foram histórias como essas que motivaram três estudantes do 9º ano e um professor da Escola Municipal Maria Dias Trindade, em Paripiranga, no interior da Bahia, a criarem o projeto Raízes do Meu Sertão, que visa combater a exclusão escolar.

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A iniciativa, premiada pela 6ª edição do Desafio Criativos da Escola, teve início no segundo semestre de 2020. “Víamos muitos colegas deixando a escola e era realmente um problema”, afirma Alice Suelen Santana, uma das idealizadoras do projeto.

Orientadas pelo professor de Língua Portuguesa José Souza dos Santos, as adolescentes receberam uma lista da coordenação da escola com o nome e os contatos dos estudantes evadidos, muitos deles seus amigos próximos. “A gente convive com eles, sabemos os motivos, e pela proximidade de idade a conversa é melhor. A gente se entende”, diz Emilly Bárbara Gonçalves, que também ajudou a criar o projeto.

Usando diversos recursos, como ligações telefônicas, redes sociais e mensagens, as jovens começaram a conversar com os adolescentes para saber como estavam e o que seria necessário para que voltassem a estudar.

Nos diálogos, descobriram contextos de vulnerabilidade social, trabalho infantil, gravidez na adolescência, falta de recursos para acessar as aulas online e bullying. “Um colega meu desistiu de estudar por ter 16 anos e estar no 5º ano do Ensino Fundamental e sofrer bullying. Fiquei muito triste por ele e incentivei que ele tentasse conversar com essas pessoas que machucavam ele. Eu também fiz o mesmo, com uma palestra e conversas com as turmas”, relata Mariana Menezes, outra coautora do Raízes do Meu Sertão. 

A estudante pediu apoio dos professores e da gestão para enfrentar a situação que também afetava outros adolescentes. Hoje o garoto voltou para a escola e está no 7º ano.

Além de conversar sobre a importância da escola, também ajudavam a pensar em estratégias para garantir o acesso à aprendizagem e organizar uma rotina de estudos de acordo com os desafios do contexto. “Que tal pegar um livro na biblioteca? Por que não fazemos um podcast para os nossos amigos ouvirem a aula que perderam no dia? E isso ajudou muito, os alunos passaram a fazer coisas como essas e se empolgam”, diz Mariana. 

Além das conversas para entender o que estava acontecendo e encaminhar os casos necessários para a escola oferecer apoio e condições para que os jovens sigam estudando, as adolescentes também criaram o perfil no Instagram Vamos Conversar para incentivar o retorno à escola e conscientizar as famílias e toda a sociedade sobre a importância dos estudos.

Por meio da plataforma, fizeram uma série de lives falando sobre a importância da escola e uma campanha envolvendo estudantes de várias escolas do município. “Esse não é um problema só da nossa escola, então convidamos nossos amigos de outras escolas para participar”, conta Alice.

Os vídeos têm se espalhado e agora o projeto já recebe material gravado por estudantes de outros municípios e estados motivando os colegas a voltar para a escola, e já planejam entrevistar também membros da Secretaria Municipal de Educação de Paripiranga, que tem divulgado o projeto e convidou as integrantes para uma entrevista na rádio a fim de ampliar seu alcance. 

“Elas já mudaram de escola, nem sou mais professor delas, mas continuamos tocando juntos esse projeto, porque o engajamento delas realmente tem motivado outros alunos e, para elas, também é importante para o exercício da cidadania e do pensamento crítico”, afirma José Souza, mentor do projeto.

É muito gratificante ver os estudantes voltando para a escola. É uma experiência que levarei para o resto da minha vida”, celebra Mariana.

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