Gestão democrática: como ouvir jovens na escola?

Publicado dia 13/11/2018

Qual é o aluno ideal que habita seu imaginário? Essa é a pergunta que Denise Carreira, diretora da Ação Educativa, recomenda que todos façam em primeiro lugar quando a tarefa é a escuta das juventudes. Para ela, ouvir jovens permite um encontro entre a ideia que muitos professores fazem de seus alunos e famílias e a realidade, condição indispensável para estabelecer uma relação de ensino-aprendizagem e uma educação integral.

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Denise explica que a ideia de aluno ideal muitas vezes aparece como um menino ou menina brancos, e que obedecem a um padrão de comportamento específico. Mas enquadrá-los nessa perspectiva, além de violento e preconceituoso, também prejudica a oportunidade de enxergar potencialidades. “A escola precisa se abrir para esse País, essas juventudes e suas famílias”, diz.

O imaginário que a comunidade escolar carrega das juventudes pode atrapalhar a educação ao criar um muro

Conduzindo formações com professores, Geraldo Leão, membro da coordenação do Observatório da Juventude da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também percebeu que o imaginário que a comunidade escolar carrega das juventudes atrapalha a educação porque “cria um muro”.

Ele conta que nas atividades que desenvolve com os docentes, eles ao mesmo tempo dizem, por exemplo, que os jovens são revolucionários, mas que não gostam de participar. Outro ponto que aparece é o da dificuldade da escola se relacionar com os jovens porque eles não ouvem, não se dispõem a se envolver com as atividades e que, sobretudo, não respeitam o professor. “Por isso a importância de construir uma relação”, diz.

Por que ouvir jovens estudantes?

Esta relação, no entanto, não pode ser unilateral ou autoritária. Em um canto do Colégio Estadual José Leite Lopes – NAVE Oi Futuro, no Rio de Janeiro, alunos ouviam um funk com teor sexual explícito quando viram a professora Sara Nery passar. Imediatamente, desligaram o som, constrangidos. Sara poderia ter passado reto, ou feito um comentário de desaprovação. Mas parou e sentou ao lado deles para “escutar juntos”.

Os alunos recomeçaram a música, e ao final, conversaram. A professora contou que também gosta de funk, e que sabe da importância do gênero para a cultura brasileira, mas que ainda assim, alguns pontos precisavam de atenção e debate. “Que papo é esse de novinha? Isso é machismo? Eu fiz essas perguntas porque meu papel como educadora continua para fora da sala de aula. Conversar e escutar os jovens me aproxima deles”, diz.

Mas construir essa relação nem sempre é simples, tanto pelas relações de poder que estabelecem na escola, quanto pelas questões geracionais e dificuldade de enxergar o outro. Por isso, algumas mudanças são necessárias.

Sara Nery: “Os professores trabalham para os alunos, por isso, é importante ouvi-los para que a aprendizagem faça sentido. Temos que criar uma corresponsabilidade pelo que acontece em sala de aula”

“Os professores trabalham para os alunos, por isso, é importante ouvi-los para que a aprendizagem faça sentido. Temos que poder fazer isso juntos, e criar uma corresponsabilidade pelo que acontece em sala de aula”, diz Sara.

O modo de enxergar as juventudes também importa. Muitas vezes há uma tendência de olhar para a carência, mas as juventudes são muito mais do que isso. “Tem, sim, todas as desigualdades, mas também há muitas potencialidades e outros conhecimentos que ignoramos, como alunos que aprenderam a ler por meio do hip hop e do funk”, lembra Denise.

Para Geraldo, construir essa relação pressupõe se desarmar em relação às imagens estigmatizadas que se faz das juventudes. “É tentar compreender quem é esse sujeito, de onde ele vem, qual sua origem social, em qual contexto cultural vive, quais são suas expectativas de futuro, quais são seus medos, o que gosta de fazer, e com quais outros jovens se relaciona”, recomenda.

como ouvir jovens

É preciso querer compreender quais são as juventudes que circulam pela escola e o que querem.

Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Primeiro passo: gestão democrática

O primeiro passo para realizar a escuta dos jovens consiste em abrir o diálogo para estabelecer acordos com os alunos. É nesse momento que os professores e diretores podem mostrar-se abertos e decidir junto aos alunos quais serão os principais canais de diálogo e as regras.

Serão reuniões semanais com a comunidade escolar? Um grupo em uma rede social? É manter a porta da diretoria aberta? Eleger representantes de sala? Convidar um palestrante todos os meses para discutir um tema atual? O importante é que esses canais, de fato, permaneçam abertos ao longo do ano e funcionem e ofereçam algum retorno para os alunos.

Por parte da direção da escola, é preciso ainda apoiar os professores sem responsabilizá-los unicamente pelo processo de escuta dos jovens. Também é função da direção ajudar os educadores nesse processo com formações, oficinas, compartilhando metodologias e experiências de outras escolas.

“Construir esta relação com os jovens significa abrir espaço de maior horizontalidade para pensar a forma como a escola vai se organizar, dando possibilidade do sujeito participar da construção da escola”, diz Geraldo Leão.

Repense o espaço físico

Parte da tarefa de criar uma cultura de participação e escuta dos jovens envolve repensar os espaços físicos da escola. “Ter que ficar sentado o dia todo, enfileirado, sem poder conversar. Nada é mais distante da realidade de um jovem do que isso”, diz Geraldo Leão.

Por isso, as aulas em roda ou fora da sala de aula são essenciais. Discutir um tema, por exemplo, a História do Brasil no pátio de um museu ou analisar questões sociais percorrendo o bairro da escola também estimulam que os jovens participem mais e se sintam à vontade para expor suas dúvidas sobre o tema.

“A estrutura do espaço é importante para construir um ambiente onde as pessoas possam se ver mais, escutar e perceber o seu lugar e o do outro”, explica Denise Carreira.

Também vale atenção à adequação do tema em relação à composição do grupo. Determinados assuntos podem ser debatidos com a comunidade escolar inteira, outros funcionam melhor em duplas ou só com alunos de uma mesma faixa etária.

Aborde temas do cotidiano das juventudes

A maneira mais simples de saber o que os jovens têm a dizer é perguntar. Em geral, a educação em si é um tema que aparece, porque afeta os estudantes diariamente e é o espaço onde estão inseridos. 

Demais temas costumam aparecer no cotidiano, espontaneamente, seja nas conversas entre eles, no dia a dia da sala de aula, ou por meio dos canais de comunicação estabelecidos previamente. Entre eles, política, afetos, gênero, raça, sexualidade, corpo, projeto de vida, direito à cidade e ao campo, diversidade e desigualdades, cultura, questões ligadas à tecnologias digitais, interesses de estudo e mercado de trabalho.

Quando os temas não surgem com tanta facilidade, é possível trabalhar com os estudantes a partir de seus projetos de vida. Prepare uma atividade que envolva fazer escolhas e traçar caminhos para atingir os objetivos futuros dos alunos. Esse é um momento no qual podem refletir sobre de onde vieram, quem são, e para onde querem ir. Essas questões, por si só, geram dúvidas, angústias e revelam sonhos, empecilhos e potencialidades.

Experimente outras linguagens de expressão

Por vezes, a expressão dos jovens não se dá somente pelo diálogo. A escrita, a música, as pinturas e desenhos, a dança e o teatro também são formas de falar, e uma oportunidade para ouvir o que os jovens têm a dizer.

Além disso, a facilidade de comunicação trazida pelas novas tecnologias e a afinidade dos jovens com estes aparatos não podem ser ignoradas. Assim, a escola pode aproveitar as linguagens digitais para potencializar essa expressão, desde que todos os alunos tenham acesso às mesmas ferramentas.

Aproxime-se enquanto educador

É um desafio para o professor assumir um papel em que ao mesmo tempo estimula liberdade mas também impõe limites. Sara Nery conta que consegue um equilíbrio nessa equação não só dialogando, mas se colocando em uma posição menos autoritária.

Conheça a metodologia Planejamento Colaborativo, desenvolvida por Sara Nery

“Eu escolho sair de um lugar de superioridade e ficar mais ao lado deles. Quando isso acontece, todo mundo aprende, eu e eles, porque o ensino se torna significativo e potente”, conta.

Na prática, um caminho para que isso se concretize é realizar um planejamento colaborativo, como a professora Sara desenvolve na NAVE Oi Futuro.

Ela apresenta uma proposta detalhada do seu plano de aula aos alunos e explica por que é importante. Seja a matéria de uma disciplina, uma atividade extracurricular ou um debate. Depois, ouve o que os estudantes acham da proposta e faz ajustes e acordos quando necessário. No caso de recusas, planeja junto a eles alternativas. “O papel do professor também é estar aberto a ouvir críticas e sugestões e aprender com isso”, diz.

Incorpore o que é dito

Depois de ouvir os estudantes, pode ser que a escola precise tomar algumas medidas, por exemplo, se percebem que há problemas em relação ao funcionamento da instituição.

Assim, podem instaurar uma participação mais ativa dos alunos nas decisões da escola, do planejamento das aulas e atividades, e decidir com a comunidade escolar como resolver essas questões.

Em outros casos, pode significar buscar ajuda externa e intersetorial, seja da Assistência Social ou Saúde, propor palestras e debates com especialistas do território ou promover oficinas.

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