Como pensar a construção de uma educação antirracista

Publicado dia 11/06/2019

Uma das formas mais comuns de manifestação de racismo é por meio de ofensas e xingamentos. Se isso acontece em uma escola que enfrenta o racismo, ela vai tentar estabelecer algum diálogo entre os pares para tentar resolver a situação. Embora essa medida represente um avanço em relação às décadas anteriores, deve-se ir muito além para promover uma educação antirracista.

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“As escolas trazem o racismo como uma questão entre duas pessoas, confundindo com bullying. Não o enxergam como um sistema que se retroalimenta e se reinventa”, explica Ednéia Gonçalves, diretora executiva adjunta da Ação Educativa.

Pensar uma educação antirracista, assim, envolve tratar da relação entre duas pessoas, mas também de permitir que todos tenham sua identidade e história acolhidos no espaço escolar.

Combater o racismo é lei. E o papel das escolas nesta tarefa está prevista em diversos documentos, como na Constituição, na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e no Plano Nacional de Educação (PNE).

E o processo de acolhimento e de reconhecimento das identidades requer que a escola repense todas as suas dimensões: curricular, formativa, de atendimento, avaliação. Material didático, arquitetura e rotina. Também depende de ciência, pesquisa, cumprimento da Legislação, e de uma atenção cotidiana construída dentro de cada escola. “A educação antirracista exige pensar nas manifestações racistas, e o que as sustentam, em todas as dimensões de uma escola”, alerta Ednéia.

Para Lucimar Dias, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), combater o racismo também passa por reavaliar o que é qualidade educacional.

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“Não adianta existir uma sociedade em que todos tiram nota 10, mas ninguém sabe conviver com a diferença. Por isso, a qualidade da educação tem que medir quanto o clima educacional garante o acolhimento a todos, para que se cumpra o direito à educação. Mas se existe racismo, não está cumprindo”, diz.

“Na minha escola não tem racismo”. Será?

Para promover uma educação antirracista é preciso reconhecer que o racismo existe também na escola. Isso porque ela não é um espaço imune e segmentado da sociedade — ela é constituída e construída pelas mesmas pessoas que circulam fora daquele espaço.

Ednéia conta que, ao conversar com gestores e professores, é comum ouvir que existe racismo no bairro, mas não em suas escolas. Entretanto, quando estão envolvidos na conversa demais funcionários, famílias e alunos, eles apontam violências de cunho racista naquele espaço.

“Isso acontece, às vezes, porque a gestão e professores querem acreditar que está tudo bem. Mas isso só mostra que a autocrítica não está boa”, diz Ednéia.

E quando já há atenção ao currículo, às relações interpessoais, e aos espaços e linguagens, Ednéia provoca as escolas para irem além: “E como anda a autodeclaração? É aí que aparece, porque as pessoas demoram para ter orgulho da sua identidade negra. Se a escola não tiver um trabalho constante, sério e intencional de autoestima, autocuidado, de valorização dessa cultura, vai ser muito difícil as pessoas se identificarem como negras. As escolas estão avançando, mas o racismo aparece muito nas dobras. Quando você esgarça, ele pula.”

A gestão democrática

A base das transformações em uma escola depende da gestão democrática. Sem isso, as mudanças correm o risco de serem inócuas ou de ampliarem ainda mais as violências. Assim, é preciso que gestores e professores pensem e dialoguem em conjunto com a famílias, a comunidade, a sociedade civil, os estudantes, e todos os profissionais da escola para compreender quais são os desafios, como o racismo se manifesta naquele ambiente, e para criar coletivamente um plano de ação para superá-lo.

“A gestão tem a função de, em conjunto com todos, promover articulações intersetoriais, construir protocolos de prevenção, processos de formação continuada, e pensar procedimentos de encaminhamento. Também deve observar a Legislação, levantar Marcos Legais e colocá-los acessíveis a todos”, explica Ednéia.

O currículo 

É no mês de novembro, sobretudo em torno do dia 20, que as escolas se costumam se mobilizar para debater o racismo, a escravidão, e mostrar fragmentos da cultura africana e afrobrasileira. Segundo Ednéia, essa data não deve ser só comemorada, mas construída.

Isso envolve olhar para além da folclorização da produção de conhecimento da população negra, restrita a comidas, samba e capoeira. “Para uma atuação coerente, a escola deve intervir na atitude racista, e também mostrar as contribuições dos negros para a química, o português, a matemática. Trazer as inovações científicas e tecnológicas que promovem. É por meio dessa valorização que uma criança deixa de olhar para a outra como inferior”, diz Lucimar.

A história brasileira contada a partir da perspectiva da população que foi escravizada, da resistência e reexistência, é uma narrativa que não está nos livros didáticos ainda. 

E quando isso não acontece, as consequências são perversas. As crianças deixam de querer ir à escola, o que pode levar à evasão. Ou quando continuam a frequentá-la, seguem submetidas a sucessivas violências e, portanto, têm mais dificuldades para aprender.

“Nenhum sujeito quer olhar para o material e ver sua história apresentada apenas por uma perspectiva, de derrota, sem mostrar a resistência. Aí não querem ir para a aula quando tem discussão sobre escravidão porque só mostra o negro apanhando. Então ao invés de estar na escola tentando entender o mundo, ficam preocupadas com seu pertencimento por causa do racismo que vivem”, defende Lucimar.

Repensar a história contada pela maioria dos livros didáticos, construídos a partir do ponto de vista eurocêntrico é, portanto, uma forma de fortalecer a identidade dos estudantes.

“É preciso começar a pensar a escola como produtora de conhecimentos mais igualitários, e como pesquisadora da história africana e de afrobrasileira. Isso pode ser feito por meio de um olhar real para a comunidade e os estudantes. A escola tem que se perguntar  e questionar os seus alunos: ‘o que ele sabe?’ não tem que perguntar o que não sabe, mas o que ele sabe e, a partir disso, construir novos conhecimentos”, diz Ednéia.

O território

Parte do que as crianças e adolescentes sabem vem do território. Deve-se olhar para os espaços e personagens que sustentam essa história do povo negro próximos. Quais são as primeiras famílias negras desse território? Quais são os espaços de culto ao sagrado desse lugar? Onde a gente encontra os espaços de lazer? Onde estão os bailes black, um sarau, um slam? Todos esses conhecimentos podem ser articulados com as disciplinas curriculares.

“Temos que trazer a presença negra nos territórios, e dialogar com organizações antirracistas, do movimento negro do seu entorno”, explica Ednéia.

O corpo docente

Olhar para quem a escola contrata e quem ocupa os espaços de gestão também faz parte de promover uma educação antirracista. “É muito diferente ler essas questões no livro, mas só contratar professores brancos. Se a presença de pessoas negras está só entre estudantes ou auxiliares de limpeza. Professores e gestores negros servem de exemplo de que é possível aprender e produzir conhecimento”, afirma Lucimar.

Parte da responsabilidade dos educadores também está em rever a expectativa que se cria em torno de determinados alunos. “Se começar a achar que criança preta sabe menos do que criança branca, aí é que ela realmente vai aprender menos”, observa Ednéia.

Os espaços da escola

Para o pedagogo Loris Malaguzzi, idealizador de Reggio Emília, o espaço escolar também educa. Nessa perspectiva, ele tem peso no combate ao racismo.

Deve-se olhar, por exemplo, para as imagens e referências que ocupam as paredes da escola, as referências religiosas, e se a oração do Pai Nosso ainda é feita como se fosse universal.

“Das paredes até os recados priorizam o grupo branco como referência. Há muitas referências cristãs pelas escolas, isso é uma linguagem, é uma composição de espaço, é uma referência de uma cultura em detrimento de outra”, pontua Lucimar.

“É preciso considerar as opressões estruturais, como o racismo, para discutir currículo”