No Vale do Ribeira, escola quilombola une conhecimentos tradicionais aos científicos

Publicado dia 21/01/2019

Em 2005, erguia-se a escola quilombola Maria Antonia Chules Princesa na cidade de Eldorado, a primeira da região do Vale do Ribeira, em São Paulo. Atendendo alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, sua concretização, por si só, foi uma vitória para a comunidade. Antes, as crianças e jovens tinham que viajar mais de 40 quilômetros para continuar os estudos. Sua fundação, no entanto, permitiu que se deslocassem cerca de 16 km, com transporte fornecido pela prefeitura.

Sua mera existência, porém, não bastava. Para que de fato praticasse uma educação quilombola, era necessário que seus conteúdos curriculares olhassem para a cultura e os saberes do território.

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Em outras palavras, que as crianças ali educadas aprendessem a língua dos pais, a história de seus ancestrais, a geografia da região, e a biologia dos alimentos e remédios naturais, dentre outros conhecimentos tradicionais.

“Nós temos muito a aprender com outras culturas, mas também temos muito a ensinar. E essa troca só é possível quando nenhum conhecimento é posto como melhor do que o outro”, explica Luiz Ketu, líder comunitário e professor da escola.

Mudanças na concepção de educação quilombola

Alunos visitam a comunidade quilombola São Pedro

Crédito: Luiz Ketu

Nos primeiros 6 anos de funcionamento da escola, professores e gestores tiveram a percepção de que as crianças não estavam motivadas a frequentar as aulas. A constatação levou o corpo docente a amadurecer e aplicar o entendimento de educação integral voltada para uma educação quilombola.

Assim, promoveram a inserção de alguns jogos africanos nas aulas de Matemática, e as danças típicas da região para as aulas de Educação Física. Como resultado, viram não somente o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) subir da nota 3 para 5, mas principalmente alunos mais interessados e participativos.

“O intuito foi unir o conhecimento tradicional com o científico, e a este último atribuir sentido em sala de aula, mostrando a necessidade de ambos serem entendidos como fontes convergentes”, explica o professor Ketu, que leciona Inglês e Português. “Nas minhas aulas, por exemplo, procuro deixar clara a importância de saberem utilizar a Norma Padrão tanto quanto a forma coloquial, usada na comunidade cotidianamente”.

No Vale do Ribeira, em São Paulo, uma mulher fazia barulho: era Maria Antonia Chules Princesa, benzedeira e parteira responsável pelo que foi considerado a primeira cesariana da região. Dela, dizem que era das mais destemidas, uma heroína.

Dentre outros projetos, foi também feita a compilação de histórias e relatos tradicionais das sete comunidades atendidas pela escola. Os alunos também leram livros de poemas de autores negros e produziram seus próprios livros de contos.

Outra iniciativa foi a pesquisa sobre outras comunidades quilombolas do Brasil e suas especificidades. Os alunos visitaram comunidades vizinhas e, nessas vivências, aprenderam sobre o processamento da mandioca para fazer farinha e o de socar arroz no pilão. Ouviram dos mais velhos as lendas e histórias da formação do quilombo e como funcionava a organização socioeconômica dessa comunidade. Ações como estas possibilitaram que a escola transformasse, em 2012, seu Projeto Político Pedagógico

Desafios

A escola, porém, ainda enfrenta desafios. Foi só em 2018 que chegou o primeiro telefone da escola. Além disso, a Secretaria de Educação não tem processo diferenciado que priorize a contratação de docentes e gestores das comunidades, e falta promover a formação de professores recém-chegados.

O transporte também é uma questão. Quando chove, a estrada fica interditada e os ônibus quebram com frequência. “Os alunos ficaram quase 20 dias sem ônibus no ano passado. E também preocupa a alimentação escolar. Alguns dias não tinha merenda, era só chá com bolacha”, conta o professor.

Mas dentre outras preocupações, Ketu nomeia uma que se sobressai: “A nossa luta permanente é pela garantia do nosso território, porque isso significa garantir a nossa existência.”

A escola brasileira e as desigualdades conforme o território