Publicado dia 27/03/2026
Como Lagedo do Tabocal (BA) criou sua política de Educação Integral em Tempo Integral
Autoria: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
Publicado dia 27/03/2026
Autoria: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒 Resumo: Conheça o processo de elaboração da política municipal de Educação Integral em Tempo Integral de Lagedo do Tabocal (BA). Considerada inspiradora pelo Ministério Educação (MEC), a experiência contou com forte participação da comunidade, além de apoio técnico e político para virar lei e chegar a todas as escolas da rede.
Em 2021, Lagedo do Tabocal (BA) começou a investir em um sonho coletivo: oferecer tempo integral em todas as escolas da cidade, orientando a ampliação da jornada a partir da concepção da Educação Integral.
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O trabalho da rede de ensino, orientado pelo desenvolvimento de uma política de Educação Integral em Tempo Integral, foi reconhecido como inspirador pelo Ministério da Educação (MEC) em 2025, destacado na seleção do edital Experiências Inspiradoras de Gestão e de Projetos Pedagógicos de Educação Integral em Tempo Integral. Além disso, a experiência foi uma das 25 selecionadas para o Caderno de Narrativas, destacando-se no eixo “Políticas de Educação Integral, Gestão e Intersetorialidade”.
O edital é iniciativa do MEC em parceria com a Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), representada pelo grupo TEIA – Territórios, Educação Integral e Cidadania (TEIA/FaE/UFMG).

Atividades artísticas e culturais fazem parte do dia a dia das crianças.
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Lagedo do Tabocal/Divulgação
“Esta experiência prova que uma proposta alinhada com uma sociedade comprometida com equidade, emancipação, participação popular e fortalecimento da escola pública como espaço de transformação social avança na implementação, no monitoramento e na avaliação da Política de Educação Integral em Tempo Integral da rede”, diz a descrição do município no Mapa de Experiências do edital.
A seguir, saiba como o município implementou o Tempo Integral na perspectiva da Educação Integral nas escolas.
🔎 Acesse também materiais orientadores e o projeto de lei que consolidou a política de Educação Integral:
➡️ Documento Complementar ao Referencial Curricular de Lagedo do Tabocal
➡️ Projeto de Lei que instituiu a Educação Integral no município
Atualmente, cerca de 1200 estudantes e 500 professores fazem a Educação Integral em Tempo Integral acontecer em 11 escolas municipais, com a ampliação da jornada escolar para 8 horas diárias de aulas ou atividades no território, da Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio.
“A Educação não se faz sozinha e nem de cima para baixo, como costuma ser. Quando construída a muitas mãos, ela se torna muito mais sólida”, diz Telma Nascimento.
Além da força do território de 8 mil habitantes e da mobilização coletiva, a experiência do Mais Educação (2007-2016) e o atual Programa Escola em Tempo Integral impulsionaram a adesão à jornada ampliada na perspectiva da Educação Integral no município.
O Mais Educação, que vigorou entre 2007 e 2016, foi a principal ação indutora para a agenda de Educação Integral no país, chegando a 51.440 escolas em todo o Brasil.
Já o Programa Escola em Tempo Integral, lançado pelo governo federal em 2023, impulsionou as matrículas em tempo integral no país. Atualmente, 25,8% dos estudantes estão em escolas públicas com jornada ampliada, totalizando 10 milhões de matrículas.
A rede dedicou o primeiro ano de implementação (2021) ao planejamento e formação da equipe técnica da Secretaria de Educação e das equipes escolares em Educação Integral.
“Conversamos sobre o que é a Educação Integral e por que ela faria sentido para nós”, lembra a atual Secretária de Educação do município, Telma Nascimento.
“Também estudamos como se deu a estruturação da Educação ao longo da história do Brasil e o que significa pensar a Educação como direito do povo brasileiro e do povo de Lagedo”, reflete a gestora pública.
Além disso, a rede realizou pequenas reformas nas escolas e fez contratações necessárias para a ampliação da jornada.
A Secretaria de Educação decidiu levar a Educação Integral primeiro para três escolas situadas em regiões vulnerabilizadas da cidade, que estavam prestes a fechar por falta de matrículas.

Estudantes participam de aula de Capoeira na praça da cidade.
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Lagedo do Tabocal/Divulgação
“A comunidade não acreditava mais no trabalho dessas escolas, então sabíamos que era ali que precisávamos investir”, conta Ivonete Sena, Coordenadora Geral na Secretaria Municipal de Educação e diretora do Departamento Pedagógico.
A transformação das escolas para o novo modelo aconteceu por meio de decreto. Na transição, o foco foi na adaptação da comunidade escolar e na articulação do currículo.
Após um ano, um questionário elaborado pela Secretaria de Educação pediu para que estudantes, famílias, professores e profissionais da escola avaliassem diferentes aspectos da política de Educação Integral.
O objetivo era coletar subsídios para o planejamento, além de alinhar a condução da política com os desejos e necessidades da comunidade e do território.
Após avaliação positiva da primeira leva de escolas, a política de tempo integral foi expandida para outras três escolas.
O município realizou pequenas audiências públicas em todas as escolas para consultar a comunidade escolar e ouviu pedidos por mais vagas em tempo integral. As informações coletadas foram objeto de consulta pública em maior escala, realizada no ginásio de esportes do município.
Além de professores e familiares, participaram das decisões sobre a política de Educação Integral promovidas pela gestão municipal um público amplo, incluindo lideranças religiosas do território, representantes do Conselho Municipal de Educação, do Conselho Tutelar, vereadores, o prefeito, entre outros.
No pleito realizado no ginásio, cada um dos presentes recebeu papel verde, amarelo e vermelho, representando seu voto na continuidade da política, reavaliação ou sua interrupção. Para expressar sua decisão, deveriam colar o papel escolhido em uma árvore.

Comunidade participa de votação simbólica para pedir a transformação em lei da Educação Integral em tempo integral no município.
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Lagedo do Tabocal/Divulgação
“Ela ficou toda verde”, rememora Ivonete, coordenadora Geral na Secretaria Municipal de Educação e diretora do Departamento Pedagógico. “Depois, encaminhamos o Projeto de Lei nº 458/24 para os vereadores consolidarem esse movimento coletivo”, conta.
Com o respaldo coletivo, a gestão municipal encaminhou à Câmara de Vereadores o Projeto de Lei nº 458/24, que codifica em lei municipal a política de Educação Integral em Tempo Integral.
A lei considera que a Educação Integral em Tempo Integral visa a qualificação da Educação “a partir da ampliação de tempos, espaços e oportunidades educativas para todos os estudantes da rede pública de ensino”. Entre os princípios orientadores citados, a lei destaca a formação integral e a articulação entre escolas e comunidade.
“A Educação não se faz sozinha e nem de cima para baixo, como costuma ser. Quando construída a muitas mãos, ela se torna muito mais sólida, porque as pessoas se apropriam dela. Isso, junto com a força da lei, ajuda a dar continuidade à política”, defende a secretária de Educação, Telma Nascimento.
Mesmo com a Educação Integral em Tempo Integral acontecendo nas 11 escolas da rede, foi necessário revisar e atualizar a política para deixá-la alinhada às Diretrizes Operacionais Nacionais para a Educação Integral em Tempo Integral na Educação Básica.

Viveiro da EM Antonio Carlos Magalhães. Todas as hortaliças cultivadas vão para a merenda desta escola.
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Lagedo do Tabocal/Divulgação
No processo, o município contou com assessoria técnica de Cláudia Santos, que faz parte da coordenação do Comitê Territorial Baiano de Educação Integral e do Observatório Nacional de Educação Integral. A especialista também acompanhou a implementação da política de Educação Integral em Lagedo do Tabocal.
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“Temos nos reunido com a professora Cláudia para discutir as Diretrizes e olhar para o nosso trabalho aqui. Depois dessa formação com a equipe da Secretaria, vamos dialogar com a gestão das escolas. Em seguida, com os professores e, por fim, com as famílias”, conta Telma Nascimento.
Os insumos coletados em todas essas conversas vão subsidiar a revisão da política municipal de Educação Integral, que será feita pela Secretaria de Educação.
Com despesa mensal superior a 100 mil reais, sustentar financeiramente o trabalho das escolas é o principal desafio que o município enfrenta hoje. De acordo com Ivonete, a política seria inviável sem a priorização dos investimentos municipais em Educação.
A promoção da intersetorialidade também é apontada como desafio pela gestão municipal, exigindo apoio de outras áreas para além da Educação, como a Assistência Social, Saúde e Transportes. Ainda assim, o uso de espaços educativos do território como o ginásio esportivo, a feira livre e a barragem de água estão sendo mais acessados pelas comunidades escolares.

Apresentação do Karatê na Mostra Pedagógica
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Lagedo do Tabocal/Divulgação
Outro ponto de atenção é a adaptação do trabalho pedagógico nas escolas, já que muitos educadores estavam acostumados ao modelo tradicional de aulas expositivas e pouco uso do território. “Fazemos formação continuada para todas as pessoas da escola, desde o porteiro até o motorista”, afirma Ivonete.
A comunidade escolar aposta na formação, estudando desde autores clássicos, como Anísio Teixeira (1900-1971) e Paulo Freire (1921-1997), até contemporâneos, como o professor da Faculdade de Educação da Unicamp, César Nunes. De acordo com a Secretaria de Educação, todos os anos os docentes recebem livros para fortalecer a formação.
Além disso, os educadores já visitaram outros espaços de referência como a Escola Parque em Salvador (BA). O objetivo é também formar professores pesquisadores, capazes de contribuir para a construção do currículo das escolas onde atuam.
Após quatro anos do início do trabalho da rede com a Educação Integral em Tempo Integral, os resultados já são reconhecidos como importantes para o território.
Entre as conquistas, Ivonete inclui a lista crescente de estudantes de Lagedo do Tabocal que acessam o Ensino Superior, além de melhora nos indicadores de Saúde – como zerar a desnutrição infantil no município – e na avaliação da Educação.
“Todo esse trabalho refletiu numa elevação nos nossos índices em avaliações. No índice de fluência leitora, ficamos em 3° lugar na Bahia entre 417 municípios”, comemora Ivonete.

Em aula de campo, professores e estudantes realizam um projeto de revitalização do rio Jiquiriçá
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Lagedo do Tabocal/Divulgação
Já as três escolas pioneiras, onde o Tempo Integral começou, recuperaram a confiança da comunidade e têm muita procura por vagas.
Para Cláudia Santos, especialista que acompanha desde o início o trabalho do município com a Educação Integral, o êxito se deve à decisão política de definir a Educação Integral como estruturante para todo o trabalho da rede. Ao fazer isso, é preciso repensar a organização, incluindo aspectos como investimento, formação, alimentação, infraestrutura, currículo e trabalho pedagógico.
“Outro ponto forte é a articulação com o território e a participação popular. O diálogo com o território é muito mais efetivo do que a mera sistematização da política, que, em muitos casos, resulta em documentos legais frios e estáticos”, avalia Cláudia.
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