publicado dia 30/01/2026
Educação Integral: como elaborar planos de aula e promover a justiça curricular
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 30/01/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒 Resumo: Criar um plano de aula na Educação Integral depende de conhecer quem são os estudantes e suas famílias, bem como suas percepções e vivências na comunidade e no território. Esse diagnóstico inicial permite planejar aulas mais contextualizadas e promover a Justiça Curricular. Confira orientações para elaborar planos de aula mais significativos e alinhados à Educação Integral.
No começo do ano, a equipe docente já sabe os conhecimentos que precisa trabalhar. Mas quem dá vida a tudo isso são os estudantes, sempre diferentes com suas identidades, histórias e vivências. É nessa diversidade que o professor encontra matéria-prima para criar planos de aula mais significativos e personalizados.
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“Esse é um trabalho essencial da Educação Integral porque dialoga com a equidade, já que será possível criar um plano de aula em que todos tenham condições de aprender e que apresente os conteúdos escolares de forma mais significativa para a turma”, explica Ana Paula de Pietri, formadora no Centro de Referências em Educação Integral.
O diagnóstico de quem são e da bagagem de conhecimentos que cada um traz nunca pode estar a serviço de dividir ou classificar os estudantes, já que na Educação Integral é a diversidade que potencializa o desenvolvimento.
O objetivo é reconhecer o que cada um já sabe, o que instiga a vontade de conhecer mais, quais conhecimentos podem ajudar a superar os desafios de sua vida, bem como as melhores formas de aprender e expressar conhecimentos.
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Em sua atuação como professora na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo (SP), Ana Paula conta que os estudantes costumam relatar violências racistas, misóginas e etaristas. “Então preciso que no meu plano de aula esses temas sejam abordados”, afirma.
Essa é a proposta da justiça curricular. De acordo com as Diretrizes de Educação Integral Antirracista, trata-se de um currículo “comprometido com a justiça social, por meio de reflexão crítica da realidade, e com conhecimentos e práticas avaliativas referenciados na diversidade de povos, culturas e saberes existentes nos territórios de atuação”.
“Um plano de aula ancorado na justiça curricular é antirracista e anticapacitista, porque permite que todas as pessoas aprendam. Também engaja mais os estudantes na aprendizagem ao verem os saberes das famílias, da comunidade e do território representados na escola”, observa Ana Paula.
Em live, especialistas debatem matriz curricular:
Conhecer melhor a turma é uma das etapas de criar uma plano de aula na Educação Integral, mas existem outros, como definir a intencionalidade e as perguntas essenciais, organizar conteúdos e metodologias e planejar o registro ao longo do processo.
Nesta reportagem, especialistas explicam detalhadamente como elaborar um plano de aula alinhado à Educação Integral.
A seguir, confira orientações para realizar um diagnóstico inicial, criar um plano de aula e promover a Justiça Curricular:
Proponha uma roda de conversas com os recém-chegados. Em um primeiro momento, peça que eles contem livremente sobre si, a partir do que sentirem vontade de compartilhar.
Para incentivar que eles comecem, é possível dar exemplos de assuntos, como algum jogo, filme, HQ, livro ou série que gostam muito, o que fazem no tempo livre, uma história da família ou uma memória de infância marcante, assuntos que mais interessam e até um sonho ou desejo para seu futuro.
Em um segundo momento, peça produções escritas para que eles expressem como se veem e tragam suas inquietações. A combinação dos dois momentos traz insumos sobre a individualidade de cada um, temas que engajam, e suas habilidades orais e textuais.
Já do ponto de vista acadêmico, na hora de introduzir um tema de estudo, vale retomar a roda de conversa. “Se o tema do período for Direitos Humanos, comece perguntando o que eles sabem sobre isso e quais vivências têm. Deixe que eles respondam e não invalide nenhuma resposta. Isso vai servir para montar um plano de aula e começar um trabalho investigativo sobre o tema, a partir do que eles já sabem, o que desejam aprender e como avançar”, orienta Ana Paula.
No final dos trabalhos, retome a pergunta inicial em roda e conversem sobre o que mudou de lá para cá e o que os estudantes pensam agora. “Durante todas as etapas, é importante pensar como registrar tudo o que os estudantes trazem, porque ajuda na hora de montar o plano de aula e fazer avaliações”, afirma a educadora.
Os conhecimentos, práticas e culturas da família e da comunidade são essenciais para um plano de aula na Educação Integral. São eles que permitem refletir a identidade dos estudantes na escola, valorizar a ancestralidade e que trazem diversidade e significado para o currículo escolar, que muitas vezes prioriza a cultura branca, europeia e cristã em detrimento de outras.
Leia o artigo Educação Integral, escola e o universo de saberes das comunidades, de Tereza Perez, diretora-presidente na Roda Educativa.
“Os alunos se sentem muito valorizados quando veem alguém da família ensinando um artesanato, uma prática na escola”, relata Ana Paula.
Nas experiências que já acompanhou, relembra a do Ateliê Escola Acaia, que convida familiares para dar oficinas para os estudantes sobre um assunto ou fazer.
Em outra escola pública de São Paulo (SP), com muitos migrantes bolivianos, o preconceito começou a ser enfrentado a partir de festas culturais com comidas, músicas e outras artes típicas da Bolívia e oficinas de mães bolivianas que ensinavam a costurar as saias coloridas de seu país. “Fazer festas culturais, encontros entre as famílias para troca de experiências e debate sobre um tema aproxima muito esses saberes da escola”, diz Ana Paula.
O geógrafo Milton Santos (1926-2001) conceituou território como “chão e identidade”, um espaço que não é de prédios, mas feito de pessoas.
Saiba mais sobre quem foi Milton Santos e como ele humanizou a geografia.
Para conhecer mais sobre ele, Ana Paula recomenda realizar caminhadas e registros das impressões. Primeiro, só os professores. Depois, junto com crianças, adolescentes e as famílias. A proposta é observar as estruturas, espaços, potencialidades e problemas e, principalmente, conversar com as pessoas e as lideranças comunitárias sobre o local.
Em diálogo com os estudantes, faça perguntas direcionadas sobre o território: há quanto tempo moram ali, o que gostam sobre o bairro, quais são os problemas que identificam e que contem histórias e vivências que tiveram na comunidade.
Todo esse material coletado serve tanto para dar vida ao plano de aula, quanto para identificar oportunidades de projetos que possam ser realizados pelos estudantes para intervir nesse território.
Busque complementar sua formação e acessar referências sobre Justiça Curricular. Como ponto de partida, a especialista indica os artigos abaixo:
A Justiça Curricular nas Diretrizes de Educação Integral Antirracista.
Saiba mais sobre Currículo Decolonial.
Especial Currículo na Educação Integral: Material gratuito apoia a construção de currículos alinhados à Educação Integral.
Em busca da Justiça Curricular: As possibilidades do currículo escolar na construção da justiça social (2019). Por Branca Jurema Ponce e Carlinda Leite.
A Justiça Curricular em tempos de implementação da BNCC e de desprezo pelo PNE (2019). Por Branca Jurema Ponce e Wesley Araújo.
O Tempo no Mundo Contemporâneo: o tempo escolar e a justiça curricular (2016). Por Branca Jurema Ponce.