publicado dia 26/06/2026
Entre a inovação e a burocracia: artigo reflete sobre experiência de escola com Educação Integral
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 26/06/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒️Resumo: O que acontece quando há um descompasso entre o cumprimento da lei pelas escolas e a burocracia do sistema educacional? Esta é a questão central do artigo Políticas de Educação Integral e a experiência de uma escola: Quando os órgãos gestores transgridem (Horizontes, 2026), de Elie Ghanem (USP) e e Natacha Costa (presidenta do Conselho da Cidade Escola Aprendiz), a partir de um estudo de caso.
Quando uma política educacional não sai do papel, a explicação mais comum costuma recair sobre o professor, a diretora e a escola que não teriam cumprido o que foi planejado. O artigo Políticas de Educação Integral e a experiência de uma escola: Quando os órgãos gestores transgridem mostra obstáculos que vêm de outro lugar.
Leia mais
Publicado na revista Horizontes, da Universidade São Francisco (USF), em junho de 2026, o artigo foi elaborado por Elie Ghanem, professor na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), e Natacha Costa, presidenta do Conselho da Cidade Escola Aprendiz.
“Na implementação, os burocratas dos escalões superiores não aderiam à política de educação integral formulada, agindo a partir de interesses políticos de grupo, comprometendo a eficácia da política educacional que seus subordinados procuravam alcançar. Criavam obstáculos às operações eficientes e ao desenvolvimento adaptativo da unidade escolar, desencorajando a iniciativa local para gerar resultados orientados para os objetivos da organização”, descreve o artigo.
“O artigo se alinha com o enfoque que vê os chamados burocratas de nível de rua. No caso da Educação, as pessoas que trabalham diretamente nas escolas, não apenas como executores, mas também como formuladores de políticas na sua prática de contato direto e diário com a população à qual se voltam seus serviços”, explica Elie.
A partir do estudo de caso de uma escola municipal de Educação Integral, reconhecida nacionalmente e que chegou a ter o Ideb mais alto de sua rede, os autores descrevem uma equipe empenhada em cumprir a Educação Integral prevista em lei e no Projeto Político-Pedagógico (PPP) aprovado pelo Conselho Municipal de Educação.
O desafio, porém, vinha dos níveis intermediário e superior da Secretaria Municipal de Educação, que passaram a usar a burocracia, como exigências de informação, prazos incertos, atrasos no fornecimento de materiais, ameaças de exoneração, para tolher a autonomia dos profissionais e contrariar a política que diziam implementar.
“A escola busca realizar uma política prescrita pelo Conselho Municipal de Educação, mas se encontra tolhida pelos órgãos gestores, cujas ordenações e exigências obrigam as educadoras a duplicar esforços para cumprir a política de Educação Integral”, afirma o professor da USP.
Para os autores do artigo, o caso retrata um padrão do Brasil, em que as políticas educacionais costumam ser unilaterais, formuladas dos órgãos gestores para as escolas, sem a participação das comunidades escolares, e não vêm entregando resultado.
Leia Mais
Eles recorrem a dados do Unicef para sustentar o argumento: mais de 2,8 milhões de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estavam fora da escola em 2015, e cerca de 6,5 milhões de estudantes da Educação Básica apresentavam distorção idade-série em 2018, dos quais 5 milhões no Ensino Fundamental.
É contra esse pano de fundo de políticas verticais e ineficazes que a experiência da escola, construída de baixo para cima, com famílias e educadores, ganha relevo.
O texto mostra ainda como práticas clientelistas e patrimonialistas, como direção escolar por indicação política, metas e bonificações atreladas a avaliações externas, tentativas de associar a proposta ao modelo cívico-militar, se sobrepõem à racionalidade administrativa e à própria Constituição.
Para além de relatar um conflito local, o artigo discute o que esse jogo de forças revela sobre a relação entre escolas, Secretarias e o direito à Educação no Brasil.
“Os órgãos gestores é que devem estar a serviço das atividades e dos profissionais das unidades escolares, e o que tem predominado é exatamente o inverso”, observa Elie.
🔎Leia o artigo Políticas de Educação Integral e a experiência de uma escola: Quando os órgãos gestores transgridem na íntegra.