publicado dia 17/10/2018

Como a cultura da violência impacta o desenvolvimento das crianças?

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Em meio à crescente onda de violência que se apodera do País, seja na forma dos territórios conflagrados ou dos discursos de ódio, faz-se necessário olhar para o impacto causado nas crianças.

Segundo o Unicef, “crescer em um ambiente com incidentes frequentes de violência armada pode levar as crianças a entenderem a violência como uma forma normal de resolver conflitos.” A organização acrescenta ainda que tal cultura traz “um impacto psicossocial devastador em crianças, com muitas delas sofrendo de síndromes de estresse, como pesadelos e ansiedade.”

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Para a psicóloga e coordenadora do Laboratório da Família da Universidade de São Paulo (USP), Belinda Mandelbaum, os danos gerados por um ambiente que endossa a violência podem perdurar por toda a vida e afetam desde o desempenho escolar até a capacidade de relacionar-se com o outro e com o mundo. Confira a entrevista completa dada ao Centro de Referências em Educação Integral:

Centro de Referências: Como a senhora definiria violência?

Belinda Mandelbaum: A violência é toda e qualquer ação que invade de maneira danosa o outro. Pode ser algo físico, que no limite é a própria morte, mas também é violência uma invasão ao espaço mental do outro, que causa danos psíquicos, por meio de ofensas e maus tratos de toda ordem. Assim, a violência é todo ato que subjuga o outro, que domina e exerce um ato de força sobre o outro.

CR: A violência física costuma ser mais clara, mas outros tipos de violência podem ser mais sutis. Em que momento, por exemplo, um discurso de ódio se torna violento para o outro? Quais os impactos disso para as crianças?

BM: O discurso é violento toda vez que se impõe, que subjuga, humilha, desqualifica e retira do outro a sua subjetividade. E as crianças aprendem muito com os padrões de linguagem dos adultos que as cercam.

Se o que está em volta delas são formas violentas de lidar com os afetos, isso é um padrão de discurso que a criança tende a absorver e reproduzir se ela não tiver espaços para exercitar essas capacidades discursivas e aprender outras maneiras de lidar com a expressão das emoções.

CR: Quais são algumas formas de manifestação das violências no ambiente escolar?

BM: A escola é uma caixa de ressonâncias da vida social. Tudo que passa por um, também passa pelo outro, incluindo preconceitos, desrespeito à dignidade do outro, a violência.

O discurso é violento toda vez que se impõe, que subjuga, humilha, desqualifica e retira do outro a sua subjetividade

E isso se manifesta de maneiras variadas, podendo ser uma situação de violência física entre os alunos, quando há submissão do corpo do outro. Mas também pode ser a violência do bullying, que contém elementos de humilhação e opressão.

A violência também pode vir dos professores e da direção na forma de preconceitos mais ou menos sutis, acusações, falta de escuta e compreensão, estigmatizando certas famílias e crianças. Aparece ainda nas formas de ensino, quando desqualificam a realidade dos alunos ou reforçam uma culpabilização das crianças. Vale lembrar que os professores também são violentados pela estrutura do ensino, pelas más condições de trabalho, baixos salários e desrespeito dos alunos.

CR: E como essas violências podem se manifestar na família e na sociedade?

BM: A família tem uma dupla face: deveria ser o espaço de proteção, cuidado, segurança, mas por vezes se torna o lugar onde as crianças têm sua estabilidade e segurança ameaçadas, onde veem sentimentos destrutivos aflorar.

Especialmente porque as crianças são muito vulneráveis e dependentes deste núcleo. Elas não podem simplesmente ir embora. E essa combinação de ser dependente e, ao mesmo tempo, objeto de violência dos adultos que ela ama gera muita angústia.

É muito comum que crianças vítimas de violência tendam a repetir esse padrão na vida adulta, e se tornem perpetuadores dessas agressões

Isso acontece, por exemplo, quando elas assistem às violências entre os adultos são pessoas que ama sendo ameaçadas e feridas, e isso por si só já é violento. Em situações mais extremas, é o abuso sexual e a violência física contra elas. Também acontece quando são vítimas de uma autoridade e rigor excessivos, que não permite liberdade para se expressar livremente ou fazer escolhas.

As crianças são muito vulneráveis também às questões sociais. Então, por exemplo, o grande número de feminicídios no Brasil também impacta os pequenos que viram suas mães ser mortas pelo pai ou outro homem próximo.

CR: Como todo esse conjunto de violências, em diferentes ambientes, impacta o desenvolvimento integral das crianças?

BM: Experiências violentas deixam traumas, que essas crianças vão carregar pelo resto da vida. Algumas vão conseguir elaborar esse sofrimento e, de alguma forma, lidar com isso, especialmente quando têm um espaço para escuta e acolhimento dessa dor. Outras, não. É muito comum que crianças vítimas de violência tendam a repetir esse padrão na vida adulta, e se tornem perpetuadores dessas agressões.

Toda situação violenta impacta a forma como essas crianças se relacionam com os colegas, com o mundo, seu estado emocional e seu desenvolvimento

Uma criança que é vítima de violência pode desenvolver sintomas emocionais, como depressão, isolamento, se sentir sozinha, entristecida. E a criança mostra esses sinais. Por isso, na escola, é muito importante que os adultos possam perceber uma criança que demonstra retração, isolamento, tristeza.

É uma oportunidade para perceber que algo de ruim está acontecendo e que aquela criança precisa ser escutada, amparada, protegida, e ter confiança de que não será vítima de mais violência.

Toda situação violenta impacta a forma como essas crianças se relacionam com os colegas, com o mundo, seu estado emocional e seu desenvolvimento. Uma criança traumatizada ou angustiada, não está com a mente disponível, aberta para focar em uma aula, ou em um processo de aprendizagem.

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