Professora alfabetiza crianças a partir de rodas de conversa e educação antirracista

Publicado dia 22/07/2021

Quando as crianças do primeiro ano do Ensino Fundamental chegam à sala de aula da professora Ana Paula Venâncio, no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (Iserj), uma escola pública da rede Faetec (Fundação de Apoio à Escola Técnica), a primeira coisa que fazem é sentar em roda e conversar. Nada de cartilhas pontilhadas, ditados e tarefas de copiar a lousa. Na prática da educadora, as crianças aprendem a ler e escrever quase como consequência de um processo maior de alfabetização.

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Nesses diálogos em roda, o estudante vai cultivando o hábito de narrar sobre o mundo, suas vidas e quem são, de escutar o outro e suas experiências. Daqui e dali surgem histórias de racismo ou falas que reproduzem essa violência, inevitavelmente, uma vez que no Brasil a questão é estrutural e permeia todos os espaços e interações, desde muito cedo. A própria professora também traz o assunto diretamente e se interessa por saber o que as crianças entendem por racismo. 

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“Estamos todos ali, negros e não-negros, em presença, escutando e aprendendo, tudo com muita afetividade e cuidado”, conta a professora

Crédito: Ana Paula Venâncio

Esses fios que despontam nas rodas de conversa, a professora puxa e amarra com outros fios narrativos, como os da valorização das histórias, culturas e identidades negras e afro-brasileiras, passadas e presentes, e os de compreender o que é o racismo e suas manifestações na escola e em outros espaços.

Essas amarrações todas parecem intrigar as crianças e despertar nelas várias curiosidades. É para perseguir o desejo de saber mais que começam a se interessar e efetivamente a ler e escrever, ainda que a alfabetização tenha começado muito antes, fazendo leituras de si próprias, das relações e do mundo. “Não se trata de escolarizar a conversa, os desejos, as curiosidades que as crianças trazem, mas de tornar isso um estudo”, diz a educadora.

Em entrevista ao Centro de Referências Em Educação Integral, a professora Ana Paula Venâncio contou sobre a trajetória que a levou a construir a prática de alfabetização na perspectiva antirracista e como ela acontece em sala de aula. Confira os principais trechos da conversa:

Centro de Referências em Educação Integral: Como foi a sua trajetória escolar e como ela impactou a construção da sua prática de alfabetização?

Ana Paula Venâncio: Sou mulher negra, nascida na periferia do Rio de Janeiro (RJ), filha de uma mulher preta, nordestina, analfabeta e mãe-solo. Meu pai infelizmente teve pouco tempo de vida. O que me move como professora alfabetizadora a trabalhar na perspectiva antirracista é, em primeiro lugar, a minha história, a partir do momento em que me conscientizo de que meu corpo preto é um corpo alvejado. Então saio em luta para acabar com o racismo, em prol de uma sociedade inclusiva. É pela ancestralidade que me beneficiou, é em função da continuidade de uma luta que é anterior à minha, que exerço esse trabalho.

Quando eu tinha a idade das crianças com que atuo, 6 anos, fui reprovada na escola, mesmo sabendo ler e escrever, que era o requisito mínimo para passar de ano. No dia em que minha mãe foi à escola perguntar o motivo, a professora falou na minha frente que era porque minha letra era um garrancho. 

A minha mãe tinha a escola como o maior bem para a minha vida e acatou aquilo que a professora disse. Mas no fundo ela sabia, assim como eu, que o problema não estava na minha letra, porque eu sabia ler e escrever. O problema era outro. Eu só não sabia dizer qual. Não sabia dizer que a escola via algo de errado em mim, não sabia que era minha cor, que era racismo. Mas sabia o que era doer no meu corpo, naquilo que mais me atravessava.

Minha trajetória escolar foi marcada por vários episódios assim, de sofrimento e dor, e cresci com isso, dizendo que seria professora, que deveria existir uma outra escola, onde as pessoas pudessem ser felizes, mesmo que eu não tivesse conhecido isso. 

CR: E como foi o período após a escola?

APV: Achei que na minha graduação encontraria um alívio, mas foi a mesma coisa da escola. Quando me formei professora, eu também morria para mim mesma, porque lá no início da minha carreira, lembrando Paulo Freire, reconheço que também pratiquei atos opressores. Quando silenciamos, quando não queremos ver, não enxergamos, enaltecemos questões que provocam desigualdades, a gente oprime. Eu conhecia aquilo que fizeram comigo, estudei aquilo que me diziam que era certo, e reconheço que o racismo fez em mim uma pessoa que também fez isso com outras. A dor me perseguia. Por que eu tinha que fazer isso com outros, com crianças negras de periferia como eu, que também viviam o mesmo dilema que eu? Isso me rasgava por dentro.

Essa inquietação me ajudou a não ficar conformada. Procurei instituições negras que acolhessem as minhas dores, professoras negras que me ouvissem, pessoas que eu pudesse sangrar, chorar e me reconstituir como pessoa e educadora em outra perspectiva de trabalho. Assim fui sendo ajudada, por muitas professoras mulheres, sobretudo. Fui transformando minha prática e há anos trabalho na perspectiva antirracista, que não é pontual, mas deve estar presente a todo momento no cotidiano da sala de aula e da prática. 

CR: Como funciona o seu trabalho de alfabetização na perspectiva da educação antirracista?

APV: Para começar, recebo as crianças em minha sala, desde o primeiro dia, no que chamo de Rodas Ubuntu de Conversas. Ubuntu é um princípio filosófico africano que estudo e tento levar para a minha prática escolar, de respeito à humanidade do outro, enquanto a roda é outro princípio importante. Meus ancestrais faziam rodas e isso ainda está presente no terreiro, na capoeira, nas cantorias. 

Saiba mais sobre o princípio filosófico africano Ubuntu

Nessa roda deixo os assuntos fluírem e não fico perguntando nada a princípio. As crianças vão falando e eu vou participando e ouvindo. Não trabalho logo de início com a lousa, pegando o caderno e escrevendo, mas começo com o nosso corpo, conhecendo e se percebendo, percebendo a sala, se percebendo dentro dela, na roda, com os colegas. 

Aos poucos vou perguntando: Como é seu nome? Você sabe qual é a origem dele? Quem é você? Como você se vê? São assuntos que vão sendo trazidos e aos poucos vão formando uma roda de pertencimento, ou seja, é um aquilombamento que se promove na roda: estamos todos ali, negros e não-negros, em presença, escutando e aprendendo, tudo com muita afetividade e cuidado. As crianças têm muito o que dizer e do que dizer sobre si. Então eu pergunto: Você sabe o que é racismo?

Crianças escrevem sobre o que é Ubuntu para elas

Crédito: Ana Paula Venâncio

Em uma das turmas que fiz essa pergunta, uma menina negra que morava em uma favela aqui no Rio disse que era a primeira vez que uma professora falava sobre isso com ela. É a primeira vez que ela encontra um lugar para falar sobre isso. E se eu não pergunto? Depois, o caderno dela foi só escrita sobre como ela era linda, como fazia balé, e falava do morro, da mãe, do pai, da avó, se assumindo negra na plenitude de sua negritude. E isso não ficou só para ela, no caderno, porque essas palavras estavam antes na nossa roda. 

Essas conversas não são coisa de um dia só, mas de todo dia. Aos poucos, as crianças vão entendendo que ali podem dizer o que estão compreendendo sobre o mundo, mesmo que essa visão seja dura, cheia de preconceitos, de racismos e discriminações, porque vai chegando uma hora que entendem como essas narrativas precisam ser compreendidas ali. Chega um momento que a criança branca, por exemplo, também se abre para se ver enquanto privilegiada em um sistema escolar onde percebe que o colega negro não tem o mesmo espaço privilegiado que ela tem. É bonito ir percebendo como as crianças são muito atentas aos sinais, inclusive os não-ditos ou ditos de outras maneiras, principalmente quando são atitudes racistas. Elas percebem como isso é lido por uns e por outros, e isso também é alfabetização. As crianças narrando e se narrando, contando os episódios que passam dentro da escola, sobretudo de racismo, é alfabetização e deveria fazer parte da vida escolar inteira. 

Nessas conversas, também trago elementos da nossa sociedade que constituem a nossa história e ancestralidade, trago literaturas e referências afro-brasileiras, especialmente as histórias infanto-juvenis negras, que são ricas, lindas, sobretudo porque enaltecem a nossa história no Brasil. Conto de Conceição Evaristo e suas escrevivências, e que elas também vão poder experimentar. Falo sobre quem é Carolina Maria de Jesus, que tem uma escrita parecida com a delas, em processo de alfabetização. Se elas levam um brinquedo, um livro de história, eu contextualizo, trago curiosidades e aspectos afro-brasileiros que se conectam ao tema. 

CR: Como essas conversas vão se tornando leitura e escrita?

APV: As escutas vão se tornando escritas daquele ponto de vista das crianças, de suas próprias histórias, de algum acontecimento de suas vidas. De repente, surge a vontade de saber mais sobre Zumbi dos Palmares, então aí aparece junto também o desejo de aprender a ler para poder acessar esse conhecimento.

Não se trata de escolarizar a conversa, os desejos, as curiosidades que as crianças trazem, mas de tornar isso um estudo. E tem questões que se desdobram apenas em conversas e tem questões que vão se tornar projetos de estudo, às vezes mais de um ao mesmo tempo. Elas próprias vão apontando o que querem aprender, então começam a ler e a escrever sobretudo aquilo que faz sentido para elas.

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Uma das práticas de escrita coletiva

Crédito: Ana Paula Venâncio

Nesse momento, começamos a fazer apontamentos sobre o que estamos estudando no caderno, elas leem palavras e trechos que eu trago, e fazem atividades de escrita. Mas é se inteirar de que escrever não é seguir uma cartilha, é um processo experienciado em outras perspectivas. O caderno delas também começa a se tornar um portfólio que vai mostrando as aprendizagens ao longo do tempo. No começo, a criança vai escrevendo e eu vou escrevendo embaixo o que ela escreveu, porque eu não consigo ler o que está ali, só ela. Mas se eu não faço isso, a criança vai esquecer e eu não vou conseguir ler quando formos retomar o assunto. 

Então esse é um pouco do processo, que precisa do comprometimento de todos os professores, não só na alfabetização, e não só da professora negra, mas de todos nós. Se não souber lidar com o tema, com alguma situação, tem que pedir ajuda, criar uma rede de compartilhamento na escola, estudar, mas não deixar que o racismo se perpetue ou seja tratado com desdém e sem a devida importância. 

Sou muito feliz com esse caminho. Fico com a mesma turma no primeiro e no segundo ano do Ensino Fundamental, e todas as crianças vão para o terceiro ano lendo e escrevendo. E vão empoderadas. Tive uma grande alegria e profunda tristeza, ainda no começo de 2020, quando uma menina que estava indo para o terceiro disse que estava triste porque não teria mais a roda de conversa e porque não falariam mais sobre racismo. Conversamos mais um pouco e no final ela disse: ‘Não vou esquecer porque eu olho para o meu corpo’. Depois fiquei pensando sobre isso e entendi. O que ela aprendeu está nela, faz parte de sua corporeidade, está ali, ninguém tira dela e nem ela vai deixar que alguém a violente sem que ela possa se defender.

Escola

Educação antirracista na prática: conheça a escola Dorcelina Gomes da Costa, em Cidade de Deus (RJ)