Escola José Urbina Lopez transforma índices ao investir em autonomia e colaboração

Publicado dia 30/07/2014

Iniciativa: Escola Primária José Urbina Lopez
Pública ou privada: Pública

Era uma vez um burro e seu dono. Um dia, enquanto andava, o burro caiu num poço. Apesar de não ter se machucado, não conseguia sair. Seu dono avaliou que o animal já estava velho e não valia o esforço de ser retirado, então decidiu enterrar o burro e já tapar o buraco. Ele começou a encher o poço de terra e assim foi continuando, apesar dos gritos do animal. Em algum momento, o burro se calou e o homem presumiu que ele havia morrido. No entanto, aos poucos, o animal foi sacudindo a terra que, ao cair, ia se acumulando, servindo de apoio para a sua saída.

Descrição: A fábula foi contada por um professor de matemática aos seus alunos no México. A Escola Primária José Urbina Lopez fica ao lado de um depósito de lixo, na cidade de Matamoros na fronteira com os Estados Unidos. Com quase meio milhão de habitantes, o município sofre com a intensa violência decorrente do tráfico de drogas. “Nós somos como este burro. Tudo que é jogado em nós é uma oportunidade para sair do poço em que estamos”, afirmou o educador, convidando seus estudantes ao debate.

escola

 

 

Naquele dia mesmo, o professor Sergio Juárez Correa havia se deparado com mais um episódio da vulnerabilidade que seus alunos convivem. Para contar a fábula, o professor havia selecionado um vídeo, mas ao tentar exibi-lo, percebeu que haviam roubado o cabo elétrico do projeto, provavelmente para vender o cobre.
O panorama de pobreza, carência e vulnerabilidade pode levar a crer que nada de positivo pode vir de um lugar como este. No entanto, a imagem não poderia estar mais errada. Foi exatamente na Escola Primária José Urbina Lopez que garotas e garotos surpreenderam o país.

Metodologia

Assim como seus alunos, Correa cresceu ao lado de um depósito de lixo e decidiu ser professor para ajudar as crianças a aprenderem o suficiente para que fizessem algo de suas vidas. Ao longo de cinco anos, o professor deu o mesmo tipo de aula para seus alunos, seguindo o modelo e o currículo determinados pelo governo: o resultado era que as aulas eram desestimulantes para ambas as partes.

Em agosto de 2011, Correa resolveu tentar algo novo. Diante da realidade brutal das crianças, que convivem com o lixo e a violência e com a ausência de até luz elétrica regular, Correa se apegou a algo que toda criança tem e que não pode ser subtraído: o potencial. De forma intuitiva,  o educador pesquisou na Internet, em vídeos e textos, outras formas de ensinar e aprender. A mudança começou pela disposição da sala – cadeiras e mesas foram unidas em pequenos grupos, onde se sentaram os alunos e o professor. “O que querem aprender?”, questionou o Correa.

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As aulas passaram a ser conduzidas a partir de perguntas. Correa trazia a exposição de um problema e abria o debate entre os grupos em busca de uma solução coletiva. De maneira descentralizada, os alunos passaram a refletir e chegar à resposta por seu próprio caminho, em um processo efetivo de construção do conhecimento.

Início e duração: de 2011 até os dias atuais.
Local: Matamoros, no nordeste do México.
Responsáveis: Escola Primária José Urbina Lopez

Principais resultados: Apesar de há anos dar aulas na mesma escola, Correa começou a se surpreender com os debates que via e as respostas encontradas. Vários alunos chamaram a atenção do professor pela rapidez ou pelos meios pelos quais chegaram às soluções. No entanto, uma garota se destacou entre os colegas. Era Paloma Noyola Bueno, de apenas 12 doze anos e caçula de uma família de oito irmãos. Com uma rapidez impressionante, Paloma chegava sozinha às respostas dos problemas. Correa passou a desafiá-la e ela seguiu tendo êxito. Surpreso, o professor questionou porque ela nunca havia demonstrado interesse em matemática. “Porque ninguém a havia tornado tão interessante”, respondeu Paloma.

As melhorias presenciadas pelo professor não tardaram a se manifestar em avaliações. Em setembro de 2012, a aula de Correa foi interrompida bruscamente pelo diretor assistente que trazia em mãos os resultados do exame nacional realizado em junho, menos de um ano após a virada efetuada por Correa. Ainda que a maioria das turmas tivesse melhorado ligeiramente, a classe da Paloma teve um salto enorme. No exame anterior, 45% foram reprovados na prova de matemática e 31% na de espanhol. Na atual prova, os índices foram de 7% e 3.5%, respectivamente. Anteriormente, nenhum estava na faixa de pontuação excelente do exame de matemática e no resultado mais recente 63% estavam nesta categoria.

Grupo de alunos que obtiveram notas elevadas (Foto: Escola Primária José Urbina Lopez)

Grupo de alunos que obtiveram notas elevadas (Foto: Escola Primária José Urbina Lopez)

As notas da classe referentes ao ensino de gramática e redação também estavam muito altas; mesmo as mais baixas estavam acima da média nacional. Contudo, o que mais chamou a atenção do diretor assistente foi a nota mais alta de matemática da escola: 921. Ela era também a nota mais alta do estado e do país inteiro. Era a pequena Paloma, que atraiu a atenção de toda a mídia tanto do país como internacional. A escola passou a ser conhecida como uma fonte de gênios, em contraste com a realidade de vulnerabilidade.

Apesar da festa da comunidade escolar, o professor Correa tinha sentimentos contraditórios com os resultados. “Estes exames são como limitadores para os professores. Eles testam o que você sabe e não o que você pode fazer”, explica. “Eu estou mais interessado no que meus alunos podem realizar”, indicando que o papel da escola é o de estimular que todas as crianças possam traçar seus próprios percursos de aprendizagem.

Acesse um vídeo, em espanhol, sobre a experiência:

Contato:
Facebook: Escola Primária José Urbina Lopez

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