Em Tarragona, na Espanha, as histórias dos pescadores viram patrimônio educativo

Publicado dia 03/04/2014

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Porto de Tarragona. Créditos: Reprodução

O pequeno bairro de El Serrallo, localizado na cidade de Tarragona (patrimônio da humanidade pela Unesco) é um local típico de pescadores. Por lá, as dinâmicas de trabalho e familiares acontecem muito próximas do mar e do porto pesqueiro e comercial, principais pólos de cultura da região.

No entanto, até o ano de 2008, nunca havia se pensado em registrar as memórias do território, que poderiam ser ameaçadas pela idade avançada de grande parte da população. Por este motivo, o Museu do Porto de Tarragona se uniu à Biblioteca Pública de Tarragona com um objetivo bastante significativo para a população: resgatar o patrimônio do território, registrá-lo e devolvê-lo à comunidade em diferentes formatos, como uma oportunidade cultural. Em 2011, iniciaram o projeto El Serrallo, um lugar de conto: a memória dos pescadores (El Serrallo, un lugar de cuento: la memoria de los pescadores).

Metodologia

O projeto se estruturou em fases. A primeira delas se voltou para as experiências dos pescadores, uma maneira de valorizar a cultural oral, da história contada. Os participantes passaram por entrevistas que tinham como objetivo colher informações da estrutura familiar, dos hábitos e predileções, do cotidiano de cada um. O material, posteriormente transcrito, foi complementado por dados históricos, e registros gráficos (fotografias, postais e outros documentos).

Tarragona

A cidade está localizada ao sul da Cataluña. Tem população de 133.954 habitantes (dados de 2012) e densidade populacional de 4.420 hab/km2. Sua localização próxima ao mar Meditterâneo, sua história e patrimônio artístico fazem da cidade uma grande atração turística, com destaque à herança arqueológica da época romana e à grande orla, com o porto em que convivem atividades pesqueiras e desportivas.

Na segunda fase, foi criado um conto que abordou elementos que apoiavam a retomada da história do bairro. No terceiro momento, em novembro de 2011, o conto foi apresentado aos moradores e aos pescadores que participaram da construção dos relatos. Quando os proponentes terminaram que contar a história, os moradores puderam direcionar perguntas aos pescadores, o que gerou reconhecimento de ambos os lados.

Na quarta etapa, o projeto cuidou de editar, publicar e distribuir para a comunidade o conto com o título “Pedro, o Vermelho, se faz no mar. Como ser capitão de um barco em El Serrallo” (“Pere el Vermell, se hace a la mar. Como patronear una barca en el Serrallo”). A iniciativa, do Porto de Tarragona, buscou reconhecer a comunidade de pescadores. A publicação contou com ilustrações e a reunião de desenhos e textos pesquisados nas fases anteriores.

Por fim, os organizadores compartilharam o material digitalizado com o Museu do Pescador e a Biblioteca Pública de Terragona, organizando canais de pesquisa virtuais para que os moradores pudessem ter acesso à história da comunidade.

Resultados

O projeto El Serrallo, um lugar de conto: a memória dos pescadores contribuiu com a construção de um novo patrimônio local, intangível: a memória dos pescadores. Essas histórias tornaram-se públicas e o projeto cuidou de proporcionar meios de traduzí-las em diferentes linguagens e ferramentas de comunicação.

Ao entregar os materiais para a comunidade, o projeto incentiva a leitura e possibilita a criação e a manutenção dessa identidade coletiva, da qual todos os moradores de El Serrallo fazem parte. Além disso, a população se aproximou das atividades culturais no território, o que reforça os espaços de aprendizagem informal que podem complementar o trabalho realizado pelas escolas. As crianças, inclusive, foram envolvidas nas devolutivas, e puderam, a partir do material, aprender mais sobre as histórias de suas famílias e comunidade.

Hoje, o bairro conta com um acervo próprio da história dos pescadores, disponíveis nos centros educativos e bibliotecas locais.

E, segundo texto publicado na Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE), o projeto não para nas memórias dos pescadores. Ainda tendo esses personagens como foco central, já que representam a principal atividade econômica da região, os pescadores seriam novamente fonte de pesquisa sobre a culinária local. O projeto quer fazer um contraponto entre a pesca local e o valor agregado a esse produto pelos principais restaurantes e, com isso, entrevistar pescadores e chefs locais, criando mais repertório sobre cada uma dessas funções para a comunidade.

Apresentação do conto “Pedro, o Vermelho, se faz no mar. Como ser capitão de um barco em El Serrallo” no Museu de Tarragona

Com informações da AICE e da prefeitura de Tarragona

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