publicado dia 22/05/2026
“Não é índio, é povos indígenas”: A lição de crianças da Educação Infantil de Adamantina (SP)
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 22/05/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
Resumo: Projeto com 180 crianças na EMEI Domingos Latine, em Adamantina (SP), mostra que ensino exitoso sobre culturas originárias na Educação Infantil depende da formação dos professores.
Quando Julia, cinco anos, corrigiu uma colega que usou a palavra “índio”, a cena resumiu meses de trabalho pedagógico na EMEI Domingos Latine, em Adamantina (SP). “Não é legal falar índio, é povos indígenas, porque eles são vários”, disse a menina.
A correção, feita em uma roda de conversa entre crianças, é um dos resultados que a equipe pedagógica buscou ao implementar a experiência “Semana dos Povos Indígenas” em 2025.
No mesmo ano, o projeto foi premiado pelo edital Experiências Inspiradoras de Gestão e Projetos Pedagógicos de Educação Integral em Tempo Integral, realizado pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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A iniciativa envolveu 180 crianças de 4 e 5 anos e partiu da necessidade de aprofundar a forma como o tema costuma ser abordado nas escolas. “Até um tempo atrás, só se falava no Dia do Índio e se fazia cocar e pesca. Quisemos mostrar que indígena não é isso. Eles têm culturas e costumes variados e estão em toda parte”, afirma Lucy Mirthes Coelho, diretora da escola.
A proposta, além de dialogar com a Lei 11.645/08, que instituiu a obrigatoriedade do ensino da história e cultura indígena na Educação Básica, também integra o Projeto Político-Pedagógico (PPP) da unidade como um trabalho permanente, ancorado na BNCC e desenvolvido durante o ano todo, não apenas em abril.
Para começar o percurso pedagógico com as crianças da Educação Infantil, a Literatura foi aliada. Cada turma fez uma leitura compartilhada do livro Jaxy Jaterê (2023), de Geni Núñez. Depois, desenharam o que entendiam sobre mitologia Guarani.
“Também mostramos várias imagens de diferentes povos indígenas, em contextos variados, como na floresta, na cidade e no Congresso Nacional”, relata o professor Edi Carlos, um dos criadores e responsáveis pelo projeto.
Em seguida, vieram as vivências concretas, com modelagem com argila inspirada na cerâmica indígena Guarani, experimentações com a tinta feita de urucum e carvão vegetal e a construção de ocas com tecidos.

“Elas gostam do concreto, de vivenciar, é assim que nunca mais esquecem”, afirma Lucy Coelho.
Crédito: EMEI Domingos Latine/Divulgação
As crianças também conheceram brinquedos, músicas e danças tradicionais, além de experimentarem alimentos típicos e conhecerem mais sobre as plantas medicinais. No final, uma exposição interativa aberta à comunidade foi realizada na unidade ao longo de uma semana.
“Também realizamos várias rodas de conversa para contar para as crianças como é a organização da vida em uma aldeia. Explicamos que todo mundo cuida das crianças e que os mais velhos são muito sábios e respeitados por todas as pessoas. Contamos que o cocar é um elemento muito importante, ligado à espiritualidade e utilizado em momentos especiais e específicos”, relata o professor.
“Elas realmente começaram a ver os indígenas de outra forma”, observa Lucy Coelho.
Para Lucy, colocar a mão na massa fez toda a diferença para a aprendizagem dos pequenos. “Elas gostam do concreto, de vivenciar, é assim que nunca mais esquecem”, diz.
Para o professor Edi, que hoje é gestor de outra unidade de Educação Infantil em uma cidade vizinha, os resultados foram imediatos. “Além desse exemplo do diálogo entre as crianças, gerou muita identificação e conversas com as famílias, que falaram para as crianças sobre seus ancestrais indígenas. Foi muito significativo, tanto que pediram para cantar as músicas indígenas que aprendemos até o final do ano”, relembra.
“Elas realmente começaram a ver os indígenas de outra forma”, acrescenta Lucy.
Para Lucy e Edi, a formação docente foi essencial para o sucesso do trabalho. Antes da realização do projeto, Edi e uma colega ficaram responsáveis por conduzir encontros formativos com as professoras.
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“Não faltava vontade de mudar a forma de trabalhar, faltava formação”, afirma Edi Carlos.
Eles pesquisaram juntos sobre a legislação, a importância e a história dos povos indígenas no Brasil, a variedade étnica e cultural existente, além de nomenclaturas adequadas e formas de abordar que fossem éticas e antirracistas.
“As professoras identificaram as próprias dificuldades. Não faltava vontade de mudar a forma de trabalhar, faltava formação e direcionamento de como fazer isso acontecer. O engajamento das professoras no projeto só aconteceu por causa da formação. E precisa de troca humana, não adianta só um curso virtual”, destaca o professor.