publicado dia 10/08/2018

Partidos se posicionam sobre educação nas eleições de 2018

por

Representantes de candidatos à presidência apresentaram os projetos e prioridades de seus partidos para a educação nas eleições de 2018. O debate ocorreu durante o 2º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, que ocorreu em 6 e 7 de agosto, na cidade de São Paulo.

Leia + A escola brasileira como projeto de país

Embora todos tenham sido convidados, apenas três candidatos enviaram representantes: Daniel Cara por Guilherme Boulos (PSOL), Eduardo Pádua por Geraldo Alckmin (PSDB) e Nelson Marconi por Ciro Gomes (PDT).

Confira os principais trechos do debate:

Um panorama do projeto de educação do partido

Daniel Cara: A educação é tratada no nosso programa como uma linha de comunicação com ciência, tecnologia e inovação. Temos compromisso com a revogação da Emenda Constitucional 95, que se não revogada, não permite avançar em nenhuma área de desenvolvimento do País. A prática tem sido de fazer com que o trabalho do governo federal não converse com estados e municípios. É preciso mudar a distribuição dos recursos de cada ente federativo. Além disso, é preciso aprovar o Novo Fundeb. A educação no Brasil tem que ser inclusiva, não discriminatória, atrativa, deve representar os estudantes e ser construída por gestão democrática. É preciso implementar o CAQi, que vai garantir que todas as escolas públicas sejam dignas. A Educação tem que ser o centro do Orçamento público.

Eduardo Pádua: A Educação Infantil terá foco nas famílias mais pobres, em oferecer oportunidades iguais, a partir da integração dos serviços de Saúde, Assistência Social e Educação. Cada criança terá um prontuário reunindo as informações das três pastas, e terá um plano de desenvolvimento individual de acordo com suas necessidades. O segundo pilar é a juventude, aproveitando a Reforma do Ensino Médio para tornar a escola mais atrativa, com habilidades socioemocionais e maior integração ao mundo do trabalho. O jovem será preparado para empreender, ingressar no mundo do trabalho ou ir para a universidade. O terceiro pilar são os professores, que precisamos valorizar e ouvir para redesenhar a carreira, a formação inicial e aumentar os salários, também atrelando sua progressão na carreira ao desempenho dos alunos.

Nelson Marconi: Primeira Infância é prioridade, e vamos associar Educação com Assistência Social e Saúde, fortalecendo as creches e as atividades que ela desenvolve com as crianças. Também vamos ampliar oferta de creches, e queremos em tempo integral, para as famílias terem condição de trabalhar e reduzir a evasão no Ensino Médio. Em relação ao Fundamental, temos mais problemas de qualidade do que de acesso. A partir de experiências muito exitosas no Ceará, como em Sobral, vamos estimular a replicação, na medida do possível, em outros estados e municípios. Para isso, criaremos incentivos financeiros para os estados e municípios que aplicarem um pacote de medidas similar ao do Ceará no Fundamental. No Ensino Médio, temos evasão grande e qualidade ruim, portanto, temos que torná-lo mais atrativo para o aluno.

O debate sobre gênero, orientação sexual e diversidade deve acontecer na escola? Como levá-lo para as salas de aula?

Daniel Cara: A questão de gênero e orientação sexual é parte da cidadania. Não existe educação se ela não for inclusiva. Quem defende o Escola Sem Partido quer a sociedade brasileira como ela é: racista, homofóbica, sexista, classista, que não respeita as pessoas com deficiência. Mas a educação tem que ser um caminho para transformá-la. O debate tem que acontecer nas escolas, como tem que acontecer todos os debates que transformem a nossa sociedade em uma sociedade mais justa. Essa é uma questão central, também porque os alunos têm dificuldade de aprender inclusive porque sofrem discriminação. É preciso rever a BNCC, e colocar essa questão no currículo, na formação dos professores, e ter coragem. A Constituição Federal é muito clara, e essa tem que ser a linha de todos os governantes: todos e todas devem ser respeitados perante a lei. O papel do governante é cumprir isso e enfrentar quando o senso comum caminha no sentido que é contrário à defesa da cidadania de todos. Se não for para ser assim, não precisa ser governante. A minha experiência, trabalhando em escola, mostra que é preciso conversar respeitando o outro, inclusive o pai e a mãe ultraconservadores, para desenvolver projetos que de fato façam diferença no cotidiano das escolas.

Eduardo Pádua: Esse debate está sendo discutido amplamente e deve fazer parte junto à sociedade, junto à BNCC. Não temos uma posição contra ou a favor, o debate existe e precisa ser incluído nas escolas de uma maneira democrática, de forma a atender todos os anseios da sociedade. Esse debate tem que acontecer nas escolas. Mas o foco principal é que hoje, ao final da Educação Básica, apenas 59% dos jovens concluem o Ensino Médio e, destes, 27,5% sabem o adequado de Português, e 7% de Matemática. O foco do governo deveria ser melhorar o aprendizado dos alunos respeitando seus direitos individuais. A sociedade está se desenvolvendo, os costumes se transformam, esse debate vai ser incorporado e ao longo do tempo isso vai se estabilizar, mas o foco não é esse.

Nelson Marconi: É fundamental ter espaço para esse debate. Falar de Escola Sem Partido, de kit gay, são aberrações. O próprio Ciro tem falado que Escola Sem Partido nunca [deve ser instituído]. A orientação programática é que o Governo Federal tem que passar para as escolas respeitando o pacto federativo. Então faz parte de uma estrutura de incentivos, de colocar de volta na BNCC, e incentivar as escolas a fazerem isso. É óbvio que desenvolver a cidadania das pessoas é tão importante quanto formação técnica e específica de um determinado assunto. Políticas afirmativas, direitos da mulher, dos jovens, orientação sexual, acesso, deficiência, cor, tem que ser trazidos para o âmbito da escola. Parte da sociedade tem repulsa a esses temas por causa da forma como eles são vendidos para os pais, é como se fossem levar as crianças a ter um certo comportamento. O que as escolas têm que fazer é mostrar que você não está induzindo o comportamento de ninguém, mas aumentando a cidadania. Nessa questão dos costumes, você tem que discutir com a sociedade, ver o que eles estão mais dispostos. O governo federal pode sugerir e induzir mais políticas de incentivos para que esses temas sejam discutidos, mas em última instância quem decide isso é a sociedade.

Professores e a valorização da carreira

Daniel Cara: A agenda precisa ser orçamentária, para o governo participar da melhoria do salário, condições de trabalho, porque não dá para dar aula de ciências sem laboratório, sem internet banda larga ou acessibilidade. O principal custo da qualidade da educação é o incentivo e respeito financeiro aos professores. Na formação docente, temos que fazer com os que estão na ativa, respeitando o trabalho deles e fazer com que a universidade pública assuma responsabilidade de ajudar a educação a melhorar. Construir redes de interlocução entre os professores, compartilhar boas experiências. Temos que manter os professores em uma mesma escola, para constituírem relações, é isso que altera a qualidade da educação.

Eduardo Pádua: Valorizar o professor é respeitá-lo e ouvi-lo na hora de desenhar a nova formação, carreira e salários. Também recuperar o papel social do professor, a valorização perante a sociedade. Rever a relação entre os educadores e as secretarias de Educação. A formação inicial tem que incluir habilidades socioemocionais e para o século 21, e materiais para trabalhar com essa nova linguagem. Ter a formação continuada, garantir trocas de experiências entre professores, e incluir na carga horário o tempo para preparar aula e estudar. Garantir uma progressão equânime e justa, atrelada ao desempenho dos alunos. O salário é fundamental para aumentar atratividade dos jovens que desejam ser professores.

Nelson Marconi: Temos que pensar na atratividade da carreira e a formação dos professores. Rediscutir o processo de formação dos professores. Quem vai se dedicar à carreira não escolhe a docência como primeira opção e não são as pessoas que têm desempenho melhor nos vestibulares. Estamos pensando em estruturar as carreiras dos professores em tempo integral, com outra remuneração e progressão adequada. Instituir um processo de seleção dos professores, com parâmetro mínimo, implementando o exame nacional que o INEP tem, e os estados e municípios aderem de maneira voluntária. Desenvolver uma mentoria dos professores, que acompanhem a formação dos docentes, principalmente os mais jovens.

Os desafios do próximo ministro da Educação, segundo Rossieli Soares