EMEI Gabriel Prestes entende a cidade como extensão da escola

Publicado dia 13/04/2015

“A nossa responsabilidade é devolver a cidade para as crianças“. A fala da coordenadora da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Gabriel Prestes, Naíme Silva, coloca a intenção da instituição de se firmar como elemento de um território educativo e, na mesma medida, revela os enfrentamentos ainda necessários para tanto.

Localizada em uma das principais vias urbanas da cidade de São Paulo, a Rua da Consolação, a escola tem como benefício um entorno “efervescente de possibilidades”, principalmente quando se pensa a conexão com os demais equipamentos territoriais para ampliar as possibilidades educativas das crianças, como a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, Praça Roosevelt, Parque Augusta, Sesc Consolação, Cemitério Consolação e outros espaços.

criancas_felizPor outro lado, essa localização também reforça a luta da escola pelo direito à cidade, como explica Naíme. “Estamos no palco das manifestações que, até 2013, eram desejáveis por serem uma festa da cidadania. De lá para cá, no entanto, elas se tornaram hostis e violentas, nem parece que circulam crianças por aqui”, condena a especialista. Ela conta que, ideologicamente, a escola adotou o termo “territórios das infâncias” que tem o objetivo de tornar visível aos outros essa etapa da vida. “Saímos pras ruas com cantos, gritos de guerra. A ideia é que nos vejam”, reforça.

Uma diretiva política

Longe de ser uma ação isolada, a presença das crianças no território faz parte do projeto político pedagógico da instituição chamado “Percursos das Infâncias da EMEI Gabriel Prestes, Diálogos no Território e o Olhar da Criança sob a Cidade Educadora”. Embora tenha chegado à escola em 2009 como professora, Naíme conta que essa organização começou já em 2004, sob a gestão de Arlete Persoli.

Naquele momento já se tinha proposto alterações no plano político pedagógico da instituição, pensadas ainda à revelia do corpo docente. “Na época, ela pensou as salas ambientes para as crianças – brinquedoteca, de matemática, linguagens e artes. Com o tempo, os professores puderam observar e pontuar [junto à própria Arlete] que ainda assim estavam fragmentando o conhecimento aos alunos”, relembra Naíme. Esse repensar das práticas acabou tomando mais corpo na gestão seguinte, com a atual diretora Mônica Galib, já que em 2009 Arlete deixou a instituição para coordenar o Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis.

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A partir de um esforço coletivo foi proposto um redesenho das práticas pedagógicas. Os gestores entendem que o principal mote é o brincar e a valorização das culturas e saberes infantis. Essa diretiva caminha ao lado do desejo da escola de colocar as culturas infantis na cidade e de, ao mesmo tempo, abrir-se para o arranjo territorial.

O diálogo como base estruturante

roda_conversa_gabrilprestesA principal ferramenta educativa da escola é a roda de conversa, estendida para diversos contextos, nas relações entre professores, deles com seus estudantes, entre as crianças e no diálogo da escola com as famílias. O diálogo, como reforça Naíme, é utilizado na perspectiva da escuta, observação, registro e avaliação de tudo que acontece como desdobramento da política escolar.

Essa perspectiva é fundamental para que os professores, por exemplo, entendam as demandas das crianças e as respeitem enquanto produtoras da cultura infantil. “Precisamos apender a olhar e reconhecer as produções da infância sem a ‘interveção professoral’ a que estamos acostumados”, defende Naíme. As crianças também têm o espaço de, em conjunto com a equipe pedagógica, construir as atividades diárias. Os familiares, por sua vez, têm entrada garantida na escola com uma proposta de participação ativa.

Chamados de “Cafés com Poesia”, esses momentos acontecem uma vez por mês. A escola já realizou três desses encontros, e além de permitirem um diálogo entre escola e familiares, convida-os a aproveitar a instituição enquanto espaço produtor de cultura. No último realizado, houve parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, e a presença de um repentista e coralista.

Formação e currículo

Todas as ações têm amparo na formação continuada dos professores (ao total, são 15 na instituição) que, frequentemente, são convidados a aprender com os equipamentos da cidade. Para além disso, eles também são incentivados a olhar para suas práticas continuamente e discutir entre si. Também participam do Projeto Especial de Ação (PEA) que ocorre bimestralmente e tem o objetivo de avaliar se as práticas pedagógicas estão sendo conduzidas de maneira que as crianças tornem-se autônomas e empoderadas.

Isso se reflete também na construção curricular que, além dos momentos brincantes, considera outras ações que reforçam o aprender na cidade e com a cidade.

Cirandando a Ocupância

O projeto nasceu em 2010 a partir do diálogo estabelecido entre a escola e outros atores que já pensavam interações possíveis com o território na perspectiva educadora, como o Movimento Entusiamo, Cenários Pedagógicos e a Universidade de São Paulo, representada na figura da docente Marcia Aparecida Gobbi. Seu desenho fortaleceu o pensar a escola como elemento de uma cidade educadora e impulsionou mais incursões pelo território.

Para amparar a aprendizagem das crianças no território, o projeto trouxe novas possibilidades ao currículo sempre tendo em vista a construção identitária de cada uma delas, a autonomia e a participação nos processos educacionais. Agora, são comuns as assembleias em que as crianças participam da construção das diretivas escolares e os festivais das estações do ano – no lugar das datas comemorativas.

Também se tornou prática, em 2013, a Cozinha Experimental, em que as crianças são convidadas a irem à cozinha sob orientação do corpo pedagógico ou dos próprios familiares. A iniciativa foi considerada uma boa prática pelo Mais Educação São Paulo.

Principais resultados

Para a coordenadora Naíme Silva, a principal contribuição da escola é gerar o empoderamento de sua comunidade, professores, alunos e familiares. O processo pedagógico dialógico permite maior envolvimento dos atores e uma possibilidade real de participação. No caso especial das famílias, isso foi reforçado com o acolhimento promovido pela escola, à base de escuta e observação.

“A escola tem que baixar seus muros para não ser um simulacro da vida real”