publicado dia 11/05/2026

“Ser cozinheira escolar é uma alegria e uma tristeza ao mesmo tempo”

Reportagem: | Edição: Tory Helena

🗒 Resumo: A cozinheira escolar aposentada e pesquisadora Clécia Maria Vieira da Silva, analisa os desafios da profissão que movimenta a alimentação na escola. 

Cozinheira escolar aposentada, Clécia Maria Vieira da Silva, 63 anos, lembra do dia em que sua filha, então com 9 anos, passou pela fila da merenda para se alimentar enquanto a mãe trabalhava. A menina comeu, voltou às aulas e, à noite, contou para a mãe: “Eu almocei e lanchei com você, mas você não me viu”, cita. De fato, Clécia não tinha notado a presença da menina em meio a correria. 

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Naquele dia, duas das quatro cozinheiras escolares haviam faltado ao trabalho. Com o imprevisto, ela e a colega trabalharam sem parar para suprir a alimentação das crianças: além de preparar o café da manhã, o almoço e o lanche da tarde, era preciso ainda adiantar o serviço do dia seguinte, além de limpar toda a cozinha.  

O episódio retrata bem a sobrecarga de muitas das 272 mil trabalhadoras das cozinhas escolares no Brasil. “É uma correria, mesmo quando está todo mundo. Às vezes, a gente não consegue dar conta do recado”, constata Clécia, que hoje atua no Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (SEPE/RJ). 

Nascida em Dário Meira (BA), Clécia se mudou para o Rio de Janeiro (RJ) aos 16 anos. A entrada na cozinha escolar aconteceu nos anos 2000. “Eu era empregada doméstica, fazia comida e faxina. Apesar do salário de cozinheira ser menor, tinha estabilidade, que era importante”, lembra ela, que dedicou 23 anos à alimentar escolas. 

A invisibilidade que recobre o cotidiano e as condições de trabalho da profissão, tornou-se objeto de pesquisa na conclusão da graduação em Serviço Social, cursada após a aposentadoria e concluída este ano. 

“Ser cozinheira escolar é uma alegria e uma tristeza ao mesmo tempo”, sintetiza. 

A alegria de ser cozinheira escolar 

Para a Educação Integral, as cozinheiras têm papel educador e contribuem diretamente para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes.

As cozinheiras escolares também são engrenagem fundamental do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que oferece 50 milhões de refeições diariamente para 40 milhões de estudantes nas escolas públicas de Educação Básica. A alimentação escolar gratuita e com parâmetros de qualidade nutricional é central no combate à fome e à desnutrição no país. 

Para Clécia, alimentar as crianças é a maior alegria do trabalho, compartilhado por 272 mil profissionais das cozinhas escolares no Brasil. “Muitas só têm essa refeição na escola. A gente sabe a importância da refeição escolar, porque vemos a fome todo dia”, afirma a educadora. 

A maioria das trabalhadoras é mulher, negra e com idade acima dos 35 anos. São profissionais experientes, com 10 anos na função, que convivem com altos índices de acidentes e lesões, além de condições de trabalho desafiadoras. 

Os dados são da publicação “Levanta Dados Cozinheiras: o que relatam sobre a realidade do trabalho nas cozinhas escolares”, de 2025. A pesquisa, realizada pelo 

Observatório da Alimentação Escolar (ÓAÊ), ouviu 1.270 cozinheiras do PNAE para traçar um panorama da ocupação. 

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“A gente fica feliz da vida quando passa uma criança e diz que a comida estava uma delícia. É uma alegria servir uma boa refeição para quem não tem em casa e fazer parte de um projeto que tira milhares de crianças da desnutrição e da fome”, afirma Clécia.

A tristeza e o trabalho pesado das cozinheiras escolares 

A pesquisa do Observatório da Alimentação Escolar também chama atenção para os perigos da profissão. De acordo com o levantamento, 26% das cozinheiras já precisaram se afastar do trabalho por acidente ou lesão nos últimos cinco anos: 60,2% sofreram queimaduras, 55,6% lesões musculares e 39,5% cortes e lacerações. 

“Aqui no Rio de Janeiro, chega a fazer 44ºC dentro de uma cozinha”, relata Clécia da Silva.

Somam-se a isso a falta de ergonomia, de parâmetros nacionais de segurança no trabalho e de condições adequadas de trabalho.

De acordo com o levantamento, o espaço da cozinha é regular, ruim ou péssimo para 71% das cozinheiras ouvidas e a temperatura é avaliada desagradável e sem oferecer conforto térmico para 80%. A insuficiência de espaço e de utensílios e materiais de trabalho também é apontada como problema por 45% e 56% das respondentes. 

O quadro é agravado pela crise climática, em especial, pelas ondas de calor mais intensas e frequentes. “Aqui no Rio de Janeiro, chega a fazer 44ºC dentro de uma cozinha. São oito panelas ligadas e cinco cozinheiras trabalhando”, observa Clécia.

Cozinheiras escolares convivem com desvalorização 

Para a cozinheira escolar aposentada, além de melhores condições de trabalho, falta reconhecimento e remuneração para as profissionais das escolas. “Ainda tem a [questão da] insalubridade, alguns pagam o adicional, outros não”, critica Clécia da Silva. 

“Se eu trabalhar 10 anos como merendeira, mesmo cozinhando como cozinheira, ao sair da escola, qual é a minha profissão? Qual empresa ou restaurante me contrataria como cozinheira?”, questiona Clécia da Silva.

O piso salarial nacional para funcionários da Educação Básica pública é foco de projeto de lei (PL 2531/2021) atualmente na Câmara dos Deputados. A proposta, apoiada pelo sindicato onde Clécia atua, equipara o salário de outros profissionais, como as cozinheiras escolares, a 75% do valor pago aos professores. 

Outra questão é a nomenclatura dada a quem alimenta a escola, que varia em diferentes contextos entre merendeira, auxiliar de cozinha ou cozinheira escolar. Para a educadora, a disputa evidencia a desvalorização. 

“Se eu trabalhar 10 anos como merendeira, mesmo cozinhando como cozinheira, ao sair da escola, qual é a minha profissão? Qual empresa ou restaurante me contrataria como cozinheira?”, questiona Clécia, que reivindica mais direitos para a categoria, incluindo o reconhecimento da nomenclatura “cozinheira escolar” como a mais adequada. 

“A falta de organização do trabalho [da cozinheira escolar] nos adoece e nos entristece. É um trabalho bem pesado. Então, nós tentamos sempre rir, brincar e lembrar que alimentar bem as crianças é o mais importante”, afirma.

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