publicado dia 21/08/2020

Para planejar: Educação Integral pode auxiliar o trabalho pedagógico na reabertura escolar

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Enquanto as redes de Educação e escolasSelo Reviravolta da Escola aguardam uma definição do poder público e   condições sanitárias seguras para todos retornarem às aulas presenciais, os educadores precisam elaborar seus planejamentos para definir como o trabalho pedagógico será conduzido e a Educação Integral pode ajudar.

Leia + O papel da Educação Integral em tempos de crise, por Natacha Costa

“A gestão democrática, a centralidade do sujeito, o respeito às singularidades e à diversidade, a atenção aos aspectos emocionais, tudo isso tem a ver com esse momento da pandemia e ajudará na volta às aulas”, explica Lúcia Cristina Cortez de Barros Santos, diretora da EMEF Professor Waldir Garcia, em Manaus (AM), que foi convidada pela Secretaria de Educação a oferecer formações para gestores escolares sobre como unir o planejamento da reabertura escolar aos princípios da Educação Integral.

E como base para que esse planejamento possa ser construído, Fernando Mendes, gestor do Centro de Referências em Educação Integral (CR), aponta que é necessário, em primeiro lugar, garantir a participação e a escuta de todos os envolvidos, considerando como eles se sentem, quais são suas expectativas, como podem contribuir com o planejamento e, sobretudo, quais são suas demandas mais urgentes. “O objetivo é assegurar o papel da escola como indutor de políticas de redução de vulnerabilidade.”

Como alguns dos princípios da Educação Integral podem ajudar

Gestão democrática: Garantir a participação da comunidade, famílias, estudantes, professores e demais colaboradores no processo de tomada de decisão da gestão escolar. 

Na EMEF Professor Waldir Garcia, todas as famílias, bem como as crianças a partir do 4º ano do Ensino Fundamental, foram ouvidas a respeito do que achavam do retorno, se achavam que deveriam ou não voltar, quais dificuldades enfrentavam e se tinham sugestões a fazer. “Fizemos reuniões virtuais com todas as famílias para ouvi-las, e depois a Secretaria ouviu cada escola. Não tem como planejar essa volta sem ouvir a todos”, diz a diretora escolar Lúcia. 

Integralidade dos sujeitos: Reconhecer e validar o estudante em todas as suas dimensões: física, intelectual, social, emocional e simbólica.

Parte fundamental da reabertura escolar consiste em acolher a todos antes de dar início às aulas presenciais propriamente ditas, porque os estudantes e professores foram emocionalmente impactados pelas consequências da pandemia e da quarentena, podem ter perdido parentes e amigos, e o processo de voltar às atividades pode gerar angústia e ansiedade.

“Esse processo árduo da pandemia acabou despertando a importância das relações humanas no processo de ensino e aprendizagem, que não pensa só no campo cognitivo, mas também no campo afetivo, social, cultural, político todos aspectos que precisam ser tratados na escola”, explica Ana Paula Pietri, formadora do CR.

Múltiplas interações: Promover o convívio entre alunos de diferentes perfis, habilidades e interesses.

Muitas redes vão priorizar a volta às aulas dos últimos anos do Ensino Fundamental e Médio, considerando a importância dessa fase de transição, e essa pode ser uma oportunidade de promover diferentes agrupamentos etários na escola.

“O olhar de uma criança é diferente de um pré-adolescente ou adolescente a respeito desse processo que estamos vivendo. Então podemos trazer a questão emocional e trabalhá-la misturando esses olhares e experiências diversas que cada um teve durante a pandemia”, destaca Ana Paula Pietri.

Inclusão: Assegurar que todas as crianças e adolescentes tenham direito à educação pública de qualidade, e que suas demandas educacionais específicas sejam atendidas. 

Com o início da quarentena em março, as redes de Educação e as escolas se viram diante do imenso desafio de garantir que todos os estudantes tivessem condições de manter algum contato com a escola, os professores, a turma e a aprendizagem a partir de suas casas. Durante esse processo ficou evidente a necessidade de combater as desigualdades que assolam o país, como as dificuldades de acesso à internet e a equipamentos eletrônicos, e em relação ao atendimento às crianças e adolescentes com deficiência na perspectiva da educação inclusiva

Para lidar com esse problema, a escola Waldir Garcia promoveu uma campanha on-line para arrecadação de telefones celulares, computadores, televisões e dinheiro para pagar o acesso à internet. “Se queremos qualidade e equidade, precisamos proporcionar condições iguais a todos”, afirma a diretora Lúcia. 

Uso de diferentes espaços: Outros espaços para além da sala de aula, dentro e fora da escola, desempenham importante papel educativo no desenvolvimento integral dos estudantes.

Leia a publicação do programa Criança e Natureza sobre a importância dos espaços ao ar livre na volta às aulas: Planejando a reabertura das escolas – A contribuição das pesquisas sobre os benefícios da natureza na educação escolar.

Além de ser um direito das crianças e adolescentes, ocupar espaços da cidade, como parques e praças, pode ser uma maneira de diminuir as chances de contaminação por Covid-19, uma vez que o vírus se espalha menos em ambientes abertos. O mesmo pode ser pensado dentro da escola, buscando áreas mais amplas do que as salas de aula para desenvolver as atividades com os alunos.

“É importante por questões de saúde, mas também porque esses outros espaços são geradores de aprendizagem, e podem ser repensados se tivermos coragem para descobrir como ocupá-los de outras maneiras”, diz Ana Paula Pietri.

A aprendizagem centrada no sujeito: Trata-se de colocar o professor como mediador de aprendizagens, e dar espaço para o protagonismo dos estudantes na construção de seus conhecimentos. 

Após tantos meses distantes da escola, voltar a frequentá-la precisa ser um momento prazeroso e significativo para os estudantes, de forma a evitar a evasão escolar. Para tanto, é necessário promover o ensino e a aprendizagem de conteúdos curriculares atrelando ao território e ao contexto atual, por meio de metodologias ativas, como projetos, roteiros de estudo, investigações e jogos. Este recurso será útil também para as escolas que adotarem o sistema híbrido e rodízio dos estudantes para diminuir a quantidade de alunos por turma.

 “As metodologias ativas despertam o interesse dos estudantes, mantêm um vínculo com as experiências que os alunos têm na vida deles e ainda permite que eles tenham mais autonomia para estudar”, observa Lúcia Santos. 

Para além disso, Ana Paula Pietri explica que a escola não pode retomar as atividades de onde pararam em março o mundo, a escola, os professores e os estudantes sofreram grandes transformações, difíceis de serem ignoradas.

 “Nosso mundo não pode estar fora da escola, e os conteúdos curriculares precisam estar integrados à realidade. Isso significa, por exemplo, discutir a questão racial e a ecologia, assuntos que também fazem parte da pandemia”, reforça a especialista.

Avaliação e diagnóstico: A avaliação deve ir além de verificar a aprendizagem e estar a serviço da formação do educando, como uma oportunidade para desenvolver habilidades e competências para a vida e garantir o desenvolvimento integral. O resultado das avaliações, por sua vez, só tem sentido se servir para orientar os próximos passos do planejamento.

Com as crianças e adolescentes estudando em casa, contando com menos auxílio dos professores e nem sempre nas condições ideais, será necessário fazer uma avaliação das aprendizagens na volta às aulas para planejar a continuidade dos estudos da turma. 

“Nós vamos promover uma avaliação formativa para entender o que os alunos aprenderam remotamente e quais são as dificuldades, e não com o intuito de dar nota, inclusive porque não vamos reprovar ninguém. Esse diagnóstico será útil para podermos elaborar roteiros de estudo personalizados e individualizados, de forma a respeitar o ritmo e as necessidades de cada criança”, explica a gestora Lúcia.

O que significa promover o acolhimento na reabertura das escolas