publicado dia 11/06/2026
Instituto Tukán: A universidade indígena que nasce no território
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Larissa Alves
publicado dia 11/06/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Larissa Alves
🗒 Resumo: No final de maio, o presidente Lula sancionou a criação da Universidade Federal Indígena (Unind), a primeira de alcance nacional. Pelo Brasil, iniciativas nascidas nos próprios territórios, como o Instituto Tukán, já ampliam o acesso de indígenas ao Ensino Superior e contribuem para a qualidade da Educação nas escolas indígenas.
Até os seis anos, Fabiana Guajajara vivia em sua aldeia, na Terra Indígena Araribóia, em Amarante (MA), de frente para a da avó, ao lado da tia, cercada pelos primos, com o rio logo adiante e a floresta como quintal. Era, nas palavras dela, “o paraíso”.
Quando chegavam as festas culturais, outras aldeias vinham visitar e a comunidade enchia. O avô, mestre da cultura, recebia quem buscava aprender, e Fabiana ficava ali perto, sentada, escutando as histórias dele. Das falas das mulheres, aprendeu o modo como os problemas se resolviam no coletivo.
A virada veio com uma notícia: ela iria morar na cidade. Aos seis anos, partiu atrás do estudo formal que o Estado não garantiu ao território. “Foi a maior frustração da minha vida”, conta.
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Na cidade, enfrentou o estranhamento de viver entre outra cultura e outro povo, diante de quem não entendia por que ela pintava o corpo ou falava outro idioma, e do preconceito de quem via diferença como inferioridade. Uma trajetória que outras tantas pessoas indígenas já haviam percorrido antes dela.

Fabiana Guajajara, diretora geral do Instituto Tukán
Crédito: Fabiana Guajajara/Acervo pessoal
É contra essa repetição que Fabiana trabalha hoje. No território Araribóia, ela é uma das idealizadoras do Instituto Tukán, uma universidade indígena nascida de uma longa escuta das comunidades, para que ninguém mais precise sair de casa para estudar.
A história de Fabiana se inscreve em um movimento maior e recente. Em 2022, cerca de 70 mil estudantes indígenas estavam matriculados no Ensino Superior brasileiro, contra 11,4 mil em 2009, segundo o Censo da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC).
A maior parte está na rede privada, que concentra 71% das matrículas, ante 29% na rede pública. As áreas que mais atraem esses estudantes são Educação e Saúde, que juntas respondem por 52,7% das matrículas de indígenas no Ensino Superior. O avanço é expressivo, mas parte de uma base pequena: em 2021, o contingente de estudantes indígenas equivalia a 0,5% do total de alunos do Ensino Superior no país.
Para ampliar esse acesso, o presidente Lula sancionou, no fim de maio, o Projeto de Lei 6.132/2025, que cria a Universidade Federal Indígena (Unind), a primeira instituição federal de Ensino Superior do país voltada especificamente à formação de indígenas, na graduação e na pós-graduação.
“Investir no Ensino Superior Indígena é fundamental para garantir uma formação acadêmica conectada às suas realidades, territórios, culturas e projetos de vida”, afirma o Ministério dos Povos Indígenas.
Vinculada ao MEC e construída em parceria com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), a universidade nasce de uma demanda histórica capitaneada pelo Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI) e é tratada como reparação histórica: a proposta é que os próprios povos originários ocupem e conduzam a instituição, valorizando saberes ancestrais, línguas e culturas em diálogo com o conhecimento acadêmico não indígena, sem hierarquia entre as duas tradições.
Para o MPI, trata-se de um investimento estruturante. “Investir no Ensino Superior Indígena é fundamental para garantir uma formação acadêmica conectada às suas realidades, territórios, culturas e projetos de vida”, afirmou o Ministério ao Centro de Referências em Educação Integral.
A pasta vê na Unind um caminho para “formar profissionais especializados em Educação intercultural, fortalecer a autonomia dos povos indígenas e garantir a preservação das línguas faladas pelos povos indígenas do Brasil”.
A gestão é um dos pilares mais inovadores. Os cargos de reitor e vice-reitor deverão ser ocupados, obrigatoriamente, por docentes indígenas, e a instituição poderá adotar processos seletivos próprios, com critérios de ingresso que considerem as diversidades linguísticas e culturais de cada povo.
A sede será em Brasília, mas a estrutura é multicêntrica, com campi previstos em várias regiões do país para respeitar as especificidades de cada território. A proposta passou por um amplo processo de escuta: foram 20 seminários estaduais e encontros nos seis biomas brasileiros, em 2024, com a participação de cerca de 3.500 pessoas, representando 236 povos indígenas de 26 estados.
Para o início das atividades, previsto para 2027, a estrutura projetada é de 366 docentes, 383 técnicos e 2.800 estudantes, com a oferta inicial de 10 cursos de graduação nas áreas de formação de professores, gestão educacional, saúde coletiva indígena e gestão territorial e ambiental.
O MEC apresentou ainda dados de apoio à permanência: segundo o ministro da Educação, Leonardo Barchini, o número de bolsas de permanência para estudantes indígenas dobrou, de 4.300 para 9.917, e as matrículas indígenas nas universidades federais cresceram 20%, chegando a 12 mil estudantes. Leonardo afirmou que pretende garantir bolsa de permanência para todos os estudantes indígenas até o fim do ano.
A aposta no Ensino Superior tem um destino concreto: a escola da Educação Básica. O Brasil tem 3.572 escolas indígenas, mas apenas 554 delas ofertam Ensino Médio, o equivalente a 15,5%, e somente 11,64% dos estudantes estão matriculados nessa etapa, segundo o Censo da Educação Básica. Das 185.506 matrículas no Ensino Fundamental, 75.905 estão nos Anos Finais.
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O próprio MEC associa parte desse gargalo à formação docente, apontando a baixa escolaridade dos professores indígenas e uma oferta insuficiente de formação inicial e continuada, específica e intercultural, para esses profissionais.
Para o MPI, é nesse elo que reside a importância da etapa: “A Educação Básica Indígena é essencial para assegurar o direito a uma Educação específica, intercultural, bilíngue e comunitária”, afirma o ministério.
No território Araribóia, em Amarante (MA), Fabiana atua como coordenadora escolar no município e uma das idealizadoras do Instituto Tukán, que nasceu da própria experiência de organização do território.
“Queremos mostrar que o nosso território tem uma terra produtiva, uma potência de identidade, história, economia, capaz de sustentar quem quiser ficar”, diz Fabiana Guajajara.
Foi durante a pandemia que o grupo decidiu institucionalizar uma organização de base. O instituto, presidido pelo cacique Silvio da Silva, marido de Fabiana e um dos idealizadores da organização do território, foi registrado em 2020. Foi nesse trabalho de escuta que uma demanda apareceu de forma recorrente: a Educação, da Infantil ao nível Superior.
O nome carrega o sentido do projeto. O tukán, explica Fabiana, é um semeador: “Ele viaja por vários lugares do território levando sementes e disseminando. A semente, aqui, é a da Educação”.

A escuta da comunidade foi o ponto de partida para a constituição da universidade.
Crédito: Instituto Tukán
A proposta da universidade, contudo, enfrentou resistência dentro do território. “Nos questionavam muito, porque a Educação Básica é precária, então por que investir no Ensino Superior?”, conta Fabiana.
Ao longo das conversas com toda a comunidade que possui cerca de 10 mil habitantes, pelos 400 mil hectares da Terra Indígena, Fabiana e outras lideranças do Instituto se dedicaram a explicar que sem formar professores dentro do território, a partir da própria cultura, seria difícil desenvolver escolas de qualidade e culturalmente apropriadas. “Não existe o nível superior para nós, então precisamos trazer isso para dentro do território”, resume.
O método do Tukán começa pela escuta. “Nenhum empreendimento poderia ser feito antes de ouvir todas as comunidades e segmentos para entender quais cursos interessam e podem contribuir para nossa vida sociocultural”, explica Fabiana.
Em 2024, quando o instituto firmou um termo de cooperação com a FAPEMA, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Maranhão, conseguiu recursos para realizar reuniões por todo o território, com acompanhamento do Estado e de universidades estaduais e federais. O processo foi finalizado em 2025 e resultou em um Plano de Desenvolvimento Institucional.
Hoje, o campus, que fica no meio do caminho entre as comunidades de origem de Fabiana e do marido, está em construção e terá o formato de um cocar. Enquanto isso, realizam atividades em salas cedidas pelo governo do Estado.

O projeto do campus, que aguarda financiamento para começar a ser construído.
Crédito: Instituto Tukán
“Toda formação que realizamos tem a ver com promoção de renda dentro da comunidade”, diz Fabiana. Em 2025, começaram os cursos técnicos de curto prazo. O primeiro foi de meliponicultura, a criação de abelhas sem ferrão, ligado à autossustentabilidade e à geração de renda, e associado à festa do mel, uma das principais do povo.
“Quando o professor nasce no contexto da comunidade, tem uma acolhida diferente pelos alunos. Nós somos capazes, a gente já faz a nossa Educação indígena”, diz Fabiana Guajajara.
A condução uniu o conhecimento científico contemporâneo, na parte teórica, à metodologia de um professor indígena, que explicou a importância do mel no contexto sociocultural, espiritual e ambiental da comunidade.
A aposta nos professores indígenas é central. Eles são, ao mesmo tempo, mestres na cultura e licenciados em universidades federais, formados em diferentes áreas.
Para Fabiana, isso muda a sala de aula: “Quando o professor nasce no contexto da comunidade, tem uma acolhida diferente pelos alunos. Nós somos capazes, a gente já faz a nossa Educação indígena”.
Desde 2025, o Instituto também realiza formação de professores na língua indígena e produção de material didático culturalmente adequado para os Anos Iniciais. Mais de cem professores das redes municipal e estadual participam e, desses, 95% são indígenas.
“São pessoas que já vivem no contexto comunitário e detêm o conhecimento e a cultura. Só recorremos a docentes de fora quando não há professor local”, afirma Fabiana.
O horizonte imediato é dar segurança jurídica e financeira ao projeto. Segundo Fabiana, está em trâmite um decreto estadual que deve viabilizar a construção do campus e a criação de um fundo para financiar e garantir a continuidade da iniciativa.
O território, de difícil acesso, chegou a não ter estrada para receber uma obra dessa escala, o que exigiu negociar com o governo as condições mínimas de transporte e logística, inclusive para a própria mobilização e escuta. O projeto ainda não tem orçamento fixo, e a busca por parceiros já levou o Instituto para fora do país.
Além disso, o governo do Maranhão estudou a iniciativa Tukán para criar condições para que outras universidades indígenas possam ser criadas no Estado, por meio de um decreto.
“Queremos mostrar que o nosso território tem uma terra produtiva, uma potência de identidade, história, economia, capaz de sustentar quem quiser ficar. O que nasce no coração de um povo se torna um programa de Estado e vai ser espelho para que outros povos também pensem sua universidade e sua forma de autonomia”, diz Fabiana.