publicado dia 19/08/2015

Especialistas apontam saídas para superar desafios do ensino médio

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Os desafios para pensar um ensino médio que eduque para o desenvolvimento integral são inúmeros, sobretudo em um contexto como o de hoje, no qual as condições das escolas ainda são muito desiguais, onde o jovem está cada mais conectado à internet, atento às novas tecnologias e, não menos importante, já necessitando buscar emprego.

Como pensar políticas públicas que garantam um ensino de qualidade e atrativo para esses adolescentes? Para a diretora da Fundação SM, Maria Pilar Lacerda, o primeiro passo é pensar em uma educação que não esteja voltada só para a preparação para os exames vestibulares, como costuma ocorrer.

Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM

Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM

Para ela, a avaliação é uma parte essencial de todo o processo educacional, mas não é a escola que tem que se adaptar a ela, mas esta é que deve ser pensada diante da realidade da escola.

“O ensino médio não pode ser pensado só como uma preparação para o vestibular ou para o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Toda avaliação precisa ser pensada de acordo com o conteúdo que é ensinado no colégio e não o contrário”, afirma Pilar.

Ela acrescenta que é durante a juventude que vivemos momentos importantes, nos quais começamos a definir projetos de vida, o que cria muita expectativa e dúvida. Para a educadora é necessário pensar em formas curriculares que tenham a preocupação de apoiar o aluno nesse momento.

Um modo de trabalhar esse momento de vida é concretizar espaços onde os estudantes possam discutir seus anseios. Alguns colégios trabalham com a figura de um orientador, para que o jovem consiga expressar suas angústias e desejos e, de forma conjunta com esse profissional, desenvolver o que quer para sua vida.

“O currículo precisa fazer sentido para o estudante e precisa dialogar com as angústias dos jovens, com que estão pensando e que pretendem ser no futuro. É preciso apoiá-los nesse momento”, opina Pilar.

Para a presidente do Conselho Nacional de Juventude e Secretária Adjunta da Secretaria Nacional de Juventude, Ângela Guimarães, parte dos jovens que estuda no ensino privado já tem acesso a esse acompanhamento cotidiano e é preciso pensar em políticas que tragam essa realidade para o contexto das escolas públicas.

“Uma das prioridades para melhorar o ensino médio é garantir que os jovens tenham apoio, uma monitoria para pensar seu projeto de vida. As escolas privadas que oferecem esse tipo de suporte conseguem êxito”, propõe. Para ela, esse apoio tem que ser pensando em uma perspectiva interdisciplinar e com atenção para os outros ambientes que o aluno frequenta no bairro.

“Um passo importante seria garantir uma monitoria para que os adolescentes escolham suas profissões, traçando projetos sempre de acordo com aquilo que ele já vivencia. Não adianta discutir o que o jovem quer da vida desvinculado daquilo que ele já faz”, esclarece.

Trabalho

A doutoranda da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Raquel Souza, aponta que apesar da queda nos últimos anos, o número de estudantes que trabalham e estudam ainda é alta.

Dados de 2003 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) apontam que 54,8% dos jovens se dedicavam aos estudos exclusivamente; em 2013, esse número saltou para 63,9%. Apesar da alta de quase dez pontos percentuais, o número de adolescentes que precisa estudar e trabalhar ainda é considerado grande.

Ela defende que uma maneira de aproximar esse jovem da escola é trazer para a sala de aula o mundo do trabalho, abordando questões como a divisão sexual e as condições laborais a que está submetido.

“O trabalho pode ser uma temática muito presente, com o professor pensando esse mundo não só pelo viés da inserção do jovem, mas também discutindo as formas históricas sobre as quais o trabalho se desenvolveu e como reflete na vida concreta desses alunos”, sugere.

Outra maneira de lidar com o tema é manter certa flexibilidade com os estudantes que também são trabalhadores. Segundo Raquel, é comum que esses adolescentes sejam barrados na entrada do colégio porque chegam atrasados devido a compromissos laborais.

Nesse sentido, a pesquisadora pontua, ainda, a necessidade do horário noturno como política de combate à evasão escolar no ensino médio. “Pensar na condição do trabalho significa, por exemplo, garantir o acesso ao ensino noturno, pois existem muitos estudantes que trabalham e só conseguem frequentar a escola nesse horário”.

Para Pilar Lacerda, o olhar para os jovens trabalhadores tem que ser diferenciado, já que, além da dinâmica do trabalho, esse estudante tem preocupações extras e um tempo menor para se dedicar aos estudos.

“É preciso conhecer bem a realidade do aluno que trabalha porque ele tem outras preocupações na cabeça com as quais a escola tem que dialogar constantemente”, analisa a diretora da Fundação SM.

Território

O território onde está localizado a escola também é chave para o desenvolvimento integral do jovem. Para Ângela Guimarães, muitos estudantes exercem atividades fora da escola, no bairro, que não são levadas em consideração.

“O jovem está inserido em algum lugar, ele não é um ET que cai no colégio. Tem trajetória, tem influência familiar e comunitária e um saber. O adolescente, em situações onde o entorno é violento, por exemplo, pode estar faltando porque existe toque de recolher, o que torna a sua ida até a escola um momento inseguro”.

Ela afirma que, em muitos casos, estudantes que têm um desempenho considerado fraco no colégio desenvolvem atividades de liderança política, artísticas dentro do contexto de sua comunidade.

Ela lembra também que o colégio pode ser um articulador de políticas públicas porque é um espaço onde algumas demandas do entorno da escola podem aparecer. “Os equipamentos públicos e da sociedade civil dentro de uma região precisam estar articulados entre si. Às vezes existe um problema familiar que pode ser percebido pela escola, que pode encaminhar essa demanda para os órgãos responsáveis da própria região”, afirma.

Condições de ensino

Para Raquel Souza, também é essencial discutir as condições de acesso e de infraestrutura dos colégios, que ainda são muitos desiguais no Brasil. Existem escolas de excelência muito bem equipadas e outras cujas condições são precárias. Dessa forma, não adianta discutir concepções de educação, currículo e projetos inovadores se as condições físicas básicas de ensino são ruins.

“Existem escolas públicas no Brasil com uma infraestrutura de dar inveja a qualquer país de primeiro mundo e existem escolas que não têm condições mínimas. Essas condições de desigualdade marcam o sistema educacional brasileiro e esse é um ponto chave que precisa ser resolvido”, avalia Raquel.

Ela relata que uma das principais reclamações dos jovens, em suas pesquisas, é justamente sobre a infraestrutura do colégio, tais como a falta de laboratórios de Física e Química, a falta de manutenção nos computadores da escola e dificuldades de acesso à biblioteca.

“Existem estudantes que se interessam pelo estudo de Química e Física, mas acabam por não desenvolver esse lado pela ausência de laboratórios ou pela dificuldade de acesso a ele”, relata.

Ela também fala sobre as condições de trabalho dos professores que também são desiguais. Em alguns estados existem planos de carreira que permitem que o professor tenha dedicação a um único colégio, enquanto em outros, os baixos salários obrigam os docentes a lecionarem em várias escolas como forma de complementar renda.

“Nos últimos anos, no debate sobre a escola de ensino médio, tem ganhado muita relevância discutir o currículo, a Base Nacional Curricular Comum. Essa discussão é muito importante, no entanto, se ela ficar desconectada sobre as condições de financiamento, o debate se torna inócuo”.

Nesse sentido, se torna muito importante a discussão sobre o Custo Aluno Qualidade (CAQi) que é uma previsão do Plano Nacional de Educação (PNE) e que deve ser implementado a partir de 2016. A partir dessa estimativa de custo, o governo federal complementaria o orçamento de estados e municípios para garantir que as metas do PNE sejam cumpridas.

 

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