publicado dia 27/10/2022

Educação integral: você tem fome de quê?

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Penildon Silva Filho é professor da Universidade Federal da Bahia e doutor em Educação. 

O artigo “Educação integral: você tem fome de quê?” foi publicado originalmente em Brasil de Fato.

A Educação Integral e a Educação de tempo integral têm mobilizado o debate político eleitoral em 2022, com a maior parte dos candidatos a presidente e governador e candidatos aos parlamentos defendendo essas bandeiras. A exceção fica por parte da candidatura do atual presidente, que insiste em focar em sua proposta de escolas militarizadas, homeschooling, desestruturação das universidades e institutos federais e na sua guerra contra o mundo acadêmico, a Ciência e a Cultura.

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Por conta desse debate, temos a oportunidade de ter agora um projeto de Educação integral vinculado a um projeto de nação soberana, com soberania tecnológica, cultural, científica e ambiental, uma nação democrática, inclusiva, com Educação de qualidade para todos e sem ter um sistema educacional das elites que as prepare para entrar nas Universidades e outro para os filhos dos trabalhadores que apenas prepare para ter um emprego pouco qualificado e remunerado, sempre sob o risco de precarização. O educador Anísio Teixeira apresentou essa concepção ampla e generosa de Educação, que permita que todos possam crescer, e que não reproduza as classes sociais, uma Educação que prepare nossas crianças e jovens para entrar na Universidade, para um mundo do trabalho onde a interdisciplinaridade será essencial, um mundo mais plural e com respeito e valorização da diversidade.

Educação Integral não é apenas de “tempo integral”, pois é possível ter escolas durante o dia todo e com uma visão autoritária e adestradora, desvinculada dos desafios contemporâneos da sociedade. Uma escola da repetição, do autoritarismo e da pobreza cultural infelizmente também pode durar o dia todo. Educação Integral pressupõe uma formação em todas as dimensões da vida humana, nas ciências humanas e nas ciências naturais, na arte e na Filosofia, na formação política e cidadã e na cultura corporal, uma formação que pode ser para o trabalho, mas nunca abra mão da formação para a vida, como são hoje os institutos federais de Educação, criados pela lei 11.892/2008 com o ensino médio integrado. São esses institutos os que têm na média as melhores notas no Enem, mais que as escolas militares e as escolas privadas, demonstrando que a nossa juventude das classes populares é capaz de ter uma formação profunda e abrangente, se sair melhor nos diversos exames. Não devemos nos contentar com uma formação reduzida, com apenas as matérias exigidas nas provas SAEB, de português e matemática, que são importantes, mas não suficientes para construir os sonhos desses jovens.

Educação Integral pressupõe uma intersetorialidade, pois a escola deve ser o lugar da promoção da Saúde, da expressão, desenvolvimento e fruição da cultura e da arte, do engajamento científico e na pesquisa pelos jovens, do esporte e da proteção psicossocial. A Escola está inserida num território social e deve junto com outras instituições tecer uma rede de proteção social, de cidades educadoras nas quais todos os lócus devem ser de formação, como museus, bibliotecas, espaços culturais e esportivos.

A Escola, como defenderam Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire, não é o espaço do adestramento e treinamento para testes de avaliação apenas, deve ser o lugar da libertação, do sonho, da vida, e a vida é ampla e diversa. A Educação Integral é essa ampliação de horizontes, pois as pessoas não querem apenas o mínimo, como disse a música do Titãs: “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só comida, A gente quer saída para qualquer parte. A gente não quer só comida. A gente quer bebida, diversão, balé. A gente não quer só comida. A gente quer a vida como a vida quer”

*Penildon Silva Filho é professor da Universidade Federal da Bahia e doutor em Educação. Artigo publicado originalmente em Brasil de Fato.

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