publicado dia 26/09/2014

A cultura da infância: políticas públicas e formação do professor

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Especial produzido em colaboração com o Portal Aprendiz e Promenino

Um a um, os alunos foram se sentando em círculo no pátio da EMEI Antônio Francisco Lisboa. Com exceção de um deles, que se incumbiu de pegar um lenço e andar por entre os demais, que cantavam, em coro: “Corre Cotia, na casa da tia, corre cipó, na casa da avó, lencinho na mão, caiu no chão, mocinha bonita, do meu coração“. O momento era acompanhado atentamente pelos educadores que se inscreveram para participar da mesa 3 do IV Seminário da Educação:  “Heliópolis Bairro Educador”, realizado nesta sexta (26/09).

A brincadeira ilustrou a principal questão que seria trazida pelas palestrantes Márcia Gobbi, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, e Sônia Larrubia Valverde, diretora da Divisão de Educação Infantil da Diretoria de Orientação Técnica da SME/SP: as demandas infantis devem ser atendidas a partir do entendimento da cultura da infância.

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“Além de serem produtoras de cultura infantil, as crianças trazem em si mesmas, desde pequenas, componentes desse lugar social/cultural que ocupam”, explicou Márcia. Para ela, expressões como as brincadeiras e os desenhos são artefatos culturais que deveriam ser observados e utilizados como orientadores de práticas pedagógicas e políticas públicas para o universo infantil.

O que eu aprendi com as crianças hoje?

Márcia sugeriu que os professores percebam suas práticas de uma nova perspectiva. Para a docente, o questionamento “o que eu ensinei às crianças hoje?” deve ser substituído por “o que eu aprendi com as crianças hoje?”. Em sua opinião, essa leitura faz com que, obrigatoriamente, o educador desloque seu papel de centralizador do conhecimento e entenda e valorize a criança como indivíduo capaz e dotado de repertório. “Com isso, é possível modificar a organização do tempo e espaço escolar, além de flexibilizar o currículo em nome das demandas que a própria infância traz”, observou.

Crianças como sujeitos de direitos

No campo das políticas públicas, Sônia Larrubia reconhece avanços no que diz respeito a salvaguardar os direitos da infância e compreender seus indivíduos como sujeitos de direitos. No entanto, na educação, entende que é preciso melhorar o entendimento da educação infantil como parte da educação básica. “Isso é fundamental para que a aprendizagem não seja vista de maneira compartimentada ou ainda como preparatória para egresso no ensino fundamental”, alerta.

Para ela, é preciso maior diálogo entre as metodologias para que não se sacramente o fim da infância com o término da educação infantil. “Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a fase perdura até os 12 anos, motivo pelo qual entendo que a brincadeira, o lúdico e o imaginário devem ser mantidos no processo de ensino aprendizagem.

As especialistas defendem a abordagem da pedagogia da infância como forma de valorizar as características dessa fase e orientar o desenvolvimento integral dos indivíduos, como apontam alguns princípios: considerar a criança como protagonista da ação educativa; considerá-la como centro da atenção do Plano Político Pedagógico; possibilitar à criança  acesso a bens culturais construídos pela humanidade, considerando-a como sujeito de direitos e construtora da cultura infantil; reconhecer e valorizar a diversidade cultural das crianças e de suas famílias; efetuar propostas que promovam autonomia e a multiplicidade de experiências; buscar continuidade educativa da educação infantil em direção ao ensino fundamental, entre outras diretrizes.

“Os desenhos são formas de conhecer as crianças em suas condições sociais, culturais e históricas”