publicado dia 29/10/2021

Como o PPP da escola estrutura caminhos no contexto de crise?

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Selo ReviraVolta da Escola Pergunta O Projeto Político Pedagógico (PPP) é muito mais do que um calhamaço burocrático. Em suas páginas ecoam os desejos de uma comunidade escolar inteira e os pactos firmados coletivamente para alcançá-los. Em momentos de crise, quando ninguém sabe ao certo o que fazer, o PPP é também um farol que não deixa os educadores perderem de vista o que é inegociável.

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Para as escolas que encaram o documento nessa perspectiva, ele foi um dos grandes pilares que sustentou a travessia da pandemia. “Só conseguimos seguir porque antes da pandemia já tínhamos começado a ouvir a comunidade escolar, a mapear os territórios, a levantar os recursos necessários. Já tínhamos contato com as famílias pelo WhatsApp e interpretávamos a casa como um território educativo nato, então pudemos concentrar nossos esforços em planejar como torná-lo científico e conectado ao cotidiano e aos conhecimentos das famílias”, relata Tom Doratiotto, gestor da Escola Municipal Maria Antonia Benelli, em Tarumã (SP). 

Em entrevista a Natacha Costa, diretora da Associação Cidade Escola Aprendiz, Anderson Rodrigues, gestor do CIME Dra. Viviane Estrela Marques Rodella, em Manaus (AM), e Célia Calmon, secretária de Educação de Uruçuca (BA), também debateram o tema a partir de suas experiências à frente da escola e da rede. Assista à conversa na íntegra:

Confira abaixo os pontos centrais de um PPP, elencados por gestores escolares de diversos lugares do Brasil e de diferentes etapas da educação básica, para que ele seja, de fato, um documento vivo que represente os sujeitos e o território que fazem parte da escola.

O que cabe em um PPP

O PPP de uma escola inclui sua missão, metas, princípios, concepções, currículo, projetos, propostas de formação de professores, as características de seu território e a trajetória percorrida ao longo dos anos. 

“É um documento dinâmico que registra o trabalho vivo da escola, das pessoas que estão presentes jogando sementes para o futuro”, diz Diego Elias Santana Duarte.

“É um documento dinâmico que registra o trabalho vivo da escola, das pessoas que estão presentes jogando sementes para o futuro. Ele também serve para influenciar outras práticas, para contar o que aconteceu, avaliar o que deu certo ou pode melhorar e, a partir disso, criar novas e melhores ações”, explica Diego Elias Santana Duarte, coordenador-geral do CIEJA Campo Limpo, em São Paulo (SP).

Essa documentação apoia, ainda, a manutenção ou a transformação dos caminhos construídos pela escola em trocas de gestão, mudanças de concepções e políticas da Secretaria de Educação e na chegada de novos educadores e funcionários.

“O PPP serve como uma âncora porque dá firmeza para as ações que precisam ser desenvolvidas em momentos de mudanças e crises, porque já se conhece a escola, as pessoas e a comunidade, e se sabe o que é essencial e possível. A partir desse conhecimento, podemos não saber qual é a solução exata para a crise, mas ajuda a não nos perdemos em tantos caminhos, direcionando o foco. Ainda assim pode dar errado, mas as chances de sermos coerentes com o que é possível construir é mais forte”, reafirma João Paulo Araújo, gestor da EE Doutor Pompílio Guimarães, em Leopoldina (MG).

Território e PPP: aprendizagens significativas, garantia de direitos e a formação de um bairro educador

Em Tarumã, o PPP da Escola Municipal Maria Antonia Benelli prevê aprendizagens no território: os estudantes vão até a Fonte dos Sonhos, um local tradicional da cidade, para ouvir lendas antigas sobre a construção; em passeios por bosques, que são pedaços da Mata Atlântica preservados, discutem a intervenção humana e a sustentabilidade; também percorrem sítios e praças e vão conversando e observando temas como culinária e histórias da cidade, tecendo conexões entre o currículo e o território.

Isso porque as aprendizagens são mais significativas quando contextualizadas a um território e um território que pode contar com a escola é mais fortalecido, sobretudo na formação de uma rede de proteção integral, que apoia a garantia de direitos de todos e todas. 

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“A escola, se quiser educar de verdade, tem que atuar para além das suas paredes, olhando para as condições, potências e problemas do território e dos estudantes reais e concretos que têm diante de si. É aí que a gente começa a defender que o verdadeiro educador é o que busca direitos”, destaca Braz Nogueira, ex-diretor da escola municipal Campos Salles, e um dos responsáveis por transformar Heliópolis, na periferia da cidade de São Paulo, em um bairro educador.

Já no CMEI Pio Bittencourt, em Salvador (BA), a relação com as instituições do território, como postos de Saúde, Conselhos Tutelares e universidades, também apoia o centro de educação em rodas de conversa sobre racismo, saúde da mulher e do homem, paternidade responsável e oficinas de alimentação e de brinquedos.

“Ganhamos uma escola em que as pessoas se vêem pertencentes àquele espaço, que não é só para deixar o filho, mas é parte da comunidade. Então passam a se envolver mais, a proteger a instituição e valorizar as ações”, conta Consuelo Almeida, gestora do CMEI.

As pontes que vão se formando entre escola, comunidade e as instituições do território favorecem um princípio caro à educação integral: as aprendizagens acontecem o tempo todo e em qualquer lugar. “Quando todos os brasileiros puderem passar por essa educação que vai além dos seus muros, todo mundo vai ser educador e vamos criar uma sociedade justa, solidária e responsável. A escola, ficando dentro dela, não acontece isso, porque cria-se uma realidade paralela à vida, que não realiza nem o aluno e nem o professor. A educação integral é o que nós temos para romper com isso”, ressalta Braz. 

Gestão democrática e as vozes que compõem um PPP

“Aqui na escola tinha um jardim. Um dia, uma pessoa da limpeza sugeriu reformá-lo e montar ali um jardim literário, para sentar no chão e contar e ouvir histórias. É esse tipo de coisa que se ganha quando a gestão ouve a todos da escola”, diz o diretor Tom Doratiotto, que não abre mão da participação de toda a comunidade escolar nas revisões do PPP, como pede a gestão democrática.

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O jardim da EMEF Maria Antonia Benelli, em Tarumã (SP), após a reforma sugerida por uma funcionária da escola

Crédito: Tom Doratiotto

Ele explica que este é um momento para garantir que todos possam ser ouvidos sobre o que esperam e desejam da escola e para que se comprometam com a parcela de responsabilidade que cabe a cada um. Também facilita a organização das estratégias, o alinhamento de informações e o diálogo entre todos. “Isso favorece uma parceria, uma união da equipe para que um confie no trabalho do outro”, diz.

Conquistar essa participação, contudo, não é trabalho fácil. Em primeiro lugar, há a dificuldade em se encontrar horários, espaços e adesão às reuniões. Depois, há o fato de que a presença das pessoas nem sempre garante participação ativa, então é preciso paciência e persistência na construção desse espaço de diálogo.

“Precisamos lembrar e respeitar a história dessas pessoas, que muitas vezes não tiveram suas vozes ouvidas e verdadeiramente consideradas e respeitadas antes”, orienta João Paulo Araújo

Na minha primeira reunião com o colegiado, preparei uma apresentação super completa, mas as pessoas só queriam saber onde assinar. Aí a gente fica angustiado porque queria esse envolvimento, mas é um processo. Precisamos lembrar e respeitar a história dessas pessoas, que muitas vezes não tiveram suas vozes ouvidas e verdadeiramente consideradas e respeitadas antes, então é um trabalho de formiguinha”, diz João Paulo Araújo, orientando as escolas a tornarem os espaços de escuta permanentes, a garantir horários diferenciados para contemplar diferentes rotinas e, quando começarem a surgir ideias, de fato levá-las a sério e dar devolutivas sobre as ações que serão realizadas.

Todo esse processo também vale para as crianças, mesmo as pequenas, que costumam ser deixadas de lado por uma visão errônea de parte dos adultos de que elas supostamente não sabem o que querem. “Mas elas sabem. Então pode perguntar diretamente, em uma roda de conversa, por exemplo, ou pedir que elas desenhem a escola dos sonhos, bem como observar no cotidiano as demandas que elas trazem”, indica Consuelo Almeida.

Para Diego, o coordenador-geral do CIEJA Campo Limpo, também importa o espaço em que esses diálogos acontecem. “Que seja um ambiente gostoso, cheio de cores, com partilha de alimentos, mensagens positivas e ancestrais, um lugar aberto onde a natureza possa estar presente, para que seja mais do que uma reunião, mas uma vivência”.

A revisão do PPP no contexto da pandemia

Para que o documento mantenha-se vivo e com sentido para os sujeitos e o território, é preciso revisá-lo periodicamente. Os especialistas ouvidos indicam, no mínimo, definir as ações no início do ano, acompanhar como está o andamento delas no meio do calendário letivo e, ao final, avaliar os processos e já começar a delinear os próximos. 

“É cíclico: olhamos para a nossa realidade a fim de dizer no PPP o que precisa ser feito. Enquanto fazemos, precisamos olhar de volta para a realidade, avaliar se está fazendo sentido e, se necessário, redirecionar os esforços e revisar isso no PPP. É assim que podemos saber onde queremos chegar e construir os caminhos para ir até lá. Sem isso, ficamos perdidos”, diz João Paulo.

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O diretor João Paulo Araújo faz questão de ir presencialmente entregar e retirar os materiais impressos, um momento que também serve para conversar com as famílias, a fim de fortalecer vínculos e identificar demandas por direitos básicos

Crédito: João Paulo Araújo/Acervo pessoal

Agora, quase dois anos de pandemia depois, considerar o impacto e as transformações que a crise sócio-sanitária trouxe é estrutural para que a escola possa seguir. Sobretudo considerando o avanço da fome e da miséria pelo país, o primeiro norte de um PPP deve ser a atenção à garantia de direitos da comunidade escolar.

“Um dos aspectos fundamentais que a pandemia trouxe e vai ficar para nós, sendo continuamente fortalecido, é não perder essa proposta de acolhimento, escuta e confiança com as famílias, bem como as relações de parceria e intersetorialidade, porque a escola não dá conta de tudo sozinha e precisa de todos juntos para garantir direitos”, destaca Consuelo.

“Será que a escola precisa de paredes? E ficar todo mundo preso, sentado, olhando uma lousa?”, questiona Braz Nogueira

Braz, o ex-diretor da EMEF Campos Salles, propõe ainda que essa revisão do documento, a partir das vivências da pandemia, possa ser também uma oportunidade para repensar e recriar a escola. “Será que a escola precisa de paredes? E ficar todo mundo preso, sentado, olhando uma lousa? Espero que agora seja mais fácil para as escolas ousarem e se colocarem em outra base, que não seja de reprodução de informações, mas de construção dos conhecimentos a partir dos que já existem”. 

Nesse trabalho todo de revisão do PPP, Tom Doratiotto destaca que é fundamental que a Secretaria de Educação apoie os processos: “Com a pandemia aprendi a cuidar dos meus companheiros de trabalho e compreendi ainda mais a importância do fortalecimento do trabalho em rede e de toda a orientação e assessoria que a Secretaria nos oferece. São coisas das quais não abro mão”.

O que é a #Reviravolta da Escola?

Realizado pelo Centro de Referências em Educação Integral, em parceria com diversas instituições, a campanha #Reviravolta da Escola articula ações que buscam discutir as aprendizagens vividas em 2020 e 2021, assim como os caminhos possíveis para se recriar a escola necessária para o mundo pós-pandemia.

Leia os demais conteúdos no site especial da #Reviravolta da Escola.

Conheça 3 boas práticas de integração das vivências da pandemia ao trabalho pedagógico