publicado dia 04/03/2026
Como a convivência escolar pode apoiar a busca pela paz nas escolas
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 04/03/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒 Resumo: O enfrentamento à violência extrema contra escolas – explicitada em ataques e massacres registrados nos últimos anos – precisa ir além de ações reativas ou focadas exclusivamente na questão da segurança. Para especialistas, é fundamental combater discursos de ódio, atuar contra a radicalização juvenil e fortalecer coletivamente a convivência escolar. Saiba mais na reportagem.
Como enfrentar a violência extrema nas escolas? O que fazer diante da radicalização juvenil e do extremismo digital? O que é preciso para cultivar uma convivência escolar saudável?
Coordenado pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO Brasil), o estudo “Para lembrar e reagir : desenhando futuros possíveis a partir da ressignificação dos ataques de violência extrema contra escolas no Brasil” joga luz nos casos recentes para repensar e encontrar soluções coletivas para o enfrentamento do quadro.
Entre 2002 e 2025, o Brasil registrou 42 ataques a escolas, afetando comunidades escolares de Norte a Sul do país. Esses episódios de violência resultaram em 182 vítimas, com 53 mortes e 129 feridos, contabilizou o estudo.
Para especialistas, o crescimento expressivo de ataques às escolas é multifatorial, catalisado pelo crescimento da extrema-direita e pela disseminação de discursos de ódio no ambiente virtual acessado pelas juventudes. Além disso, as violências no espaço escolar são sintomas de problemas estruturais, que persistem diante da ausência de políticas públicas eficazes e de um olhar integrado sobre segurança, saúde mental e Educação.
“A escola não está dissociada do seu entorno. Ela absorve tensões culturais, econômicas e simbólicas —desigualdade, discriminação, conflitos identitários, frustração de expectativas e polarização. Também reflete mudanças rápidas na forma como vínculos e pertencimentos são construídos. Por isso, pode ser, ao mesmo tempo, lugar de cuidado e aprendizagem e espaço em que conflitos de fora se expressam e se intensificam”, escreveu a coordenadora do Programa de Estudos e Políticas sobre Juventudes, Educação e Gênero: violências e resistências na Flacso Brasil, Miriam Abramovay, no artigo “Combate à radicalização juvenil impõe fortalecer a convivência escolar”, publicado na Folha de S.Paulo.
Embora não seja capaz de resolver todos os problemas sozinha, o papel da escola é insubstituível, defende Miriam. “É um dos poucos espaços em que a convivência democrática pode ser aprendida no cotidiano, com regras compartilhadas, reconhecimento de direitos e experiências concretas de inclusão”, destaca a especialista no artigo divulgado em fevereiro de 2026.
Entre 2021 e 2025, cresceu 360% o número de publicações nas redes sociais com ameaças diretas a estudantes, professores e diretores. Se antes o total era pouco acima de 43.8 mil postagens, em 2024 chegou a mais de 105 mil. Até maio de 2025, já somavam mais de 88 mil ameaças nos ambientes digitais. Os principais autores são meninos brancos.
Os dados são do estudo “Aspectos da violência nas escolas analisados a partir do mundo digital“, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), realizado em parceria com a empresa de monitoramento Timelens e publicado em junho de 2025.
O quadro preocupa porque parte dos ataques às escolas dos últimos anos foram arquitetados nessas comunidades digitais que propagam discursos de ódio. De acordo com o relatório “Ataque às escolas no Brasil”, do Ministério da Educação (MEC), as plataformas mais utilizadas foram Telegram, WhatsApp, TikTok, Instagram e Discord, além de fóruns da chamada “manosfera”, comunidades online que reúnem “assuntos masculinos e anti-feministas”.
“Tem a ver com o crescimento da extrema direita, exclusivamente. E os alvos são os inimigos desse neofascismo: negros, mulheres, gays, trabalhadores e imigrantes, principalmente”, explica Lola Aronovich, professora na Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em feminismo, política e mídia.
Soma-se a isso o anonimato que a internet proporciona e o viés de confirmação dos algoritmos, que mostra mais conteúdos iguais aos que o usuário assiste ou interage, formando uma bolha que dá a ilusão de realidade total sobre o assunto.
“Quando [os meninos] perdem e se frustram, quando não são mais o centro do universo como na infância, ficam revoltados e encontram respostas nesse tipo de conteúdo, que diz para eles que o problema está nas mulheres, nas cotas”, explica Lola Aronovich.
Além disso, os jovens acessam as redes por mais tempo e cada vez mais cedo. Na adolescência, que tem por característica a busca por pertencimento, se tornam mais vulneráveis a serem radicalizados. Essa é uma das principais características que possibilita que adultos apresentem e engajem jovens em discursos de ódio na internet, fazendo com que eles se radicalizem e se aliciem.
“Os meninos têm privilégios na nossa sociedade e certamente crescem sabendo disso. Mas quando encontram a realidade, percebem que não é tão fácil quanto achavam que seria. Nesses fóruns, falam muito em minha vaga na universidade, meu emprego, e inclusive falam assim sobre as mulheres. É como se achassem que de saída tudo isso estaria reservado a eles. Quando perdem e se frustram, quando não são mais o centro do universo como na infância, ficam revoltados e encontram respostas nesse tipo de conteúdo, que diz para eles que o problema está nas mulheres, nas cotas”, diz Lola.
Em junho de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para endurecer a regulação das redes sociais em relação a conteúdos ilegais publicados por usuários no Marco Civil da Internet. A responsabilização das plataformas digitais por crimes cometidos no ambiente virtual inclui discurso de ódio, apologia ao extremismo, violência contra crianças e adolescentes e atentados à democracia.
“Essas empresas lucram com ódio na internet porque dá engajamento. Há anúncios na maior parte dos canais masculinistas. Então elas precisam ser responsabilizadas. Mais do que excluir e banir esses conteúdos e fóruns, há muito tempo pedimos para que elas fomentem conteúdos de direitos humanos”, aponta Lola.
A especialista também explica que campanhas na televisão e no rádio sobre os perigos das plataformas digitais, desse tipo de conteúdo e em favor dos Direitos Humanos, também podem ajudar. “É responsabilidade de toda a sociedade combater os discursos de ódio”, reforça.

Fortalecer a convivência escolar e enfrentar discursos de ódio são chave para confrontar a violência extrema e a radicalização juvenil, cujo enfrentamento exige soluções complexas e políticas integradas.
Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil
As crianças e adolescentes passam boa parte de seu dia na escola. Lá, os adultos têm a oportunidade de notar sinais de que algo não vai bem. É importante ter cuidado com estereótipos: não é só porque um menino usa preto e é calado, por exemplo, que ele será violento.
Mas mudanças bruscas de comportamento, agressividade e sobretudo desenhos, textos e falas que expressem apologia ao nazismo, às armas e ódio generalizado a mulheres, negros e outros grupos historicamente oprimidos merecem atenção especial.
“A misoginia é uma das falas que mais aparecem por ainda ser uma das mais aceitas na sociedade. Então é preciso que as famílias e a escola trabalhem juntas para estarem atentas ao vocabulário e aos conteúdos que as crianças e adolescentes acessam na internet”, afirma Lola.
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Reuniões com as famílias para apresentar o problema dos discursos de ódio na internet e como eles se propagam também pode ajudar a dar mais ferramentas para que eles estejam atentos. Assim como realizar conversas coletivas com os estudantes para saber o que eles pensam sobre o tema e como utilizam as redes sociais.
“É na escola que as crianças e jovens precisam aprender a conviver com a diversidade, de forma humana e solidária”, diz Miriam Abramovay.
Caso a hipótese seja levantada, é fundamental conversar com o estudante e acionar a família. “É ver o que está se passando, entender de onde estão vindo essas ideias e se frequenta esses fóruns na internet. Se já estiver dentro de um grupo masculinista, tem que ter acompanhamento psicológico, porque é difícil sair disso sozinho. Ter grupos de diálogos entre jovens, mediado por um adulto, também pode ser uma forma interessante de fazê-los perceber que esse ódio não vai levá-los a lugar nenhum”, orienta Lola.
Em casos de ameaça explícita, é necessário acionar as autoridades imediatamente. Além do protocolo estabelecido pela Secretaria de Educação própria, há o canal de denúncias Escola Segura, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e o número de WhatsApp (61) 99611-0100 e o Disque 100, iniciativas do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
Para contribuir com o combate ao discurso de ódio, também é fundamental que as crianças e adolescentes tenham conhecimentos sobre Direitos Humanos, vivam eles na prática, sejam ensinados a respeitar as diversidades e percebam o valor de uma convivência escolar saudável.
“É na escola que as crianças e jovens precisam aprender a conviver com a diversidade, de forma humana e solidária. Mas há uma violência no cotidiano escolar que os educadores têm muita dificuldade de responder porque falta tempo, formação e condições para que eles trabalhem normas, valores, comunicação interpessoal, justiça e clima escolar. Os profissionais da Educação estão muito sobrecarregados”, explica Miriam Abramovay, que também é professora visitante no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP).
Para começar, Miriam recomenda que a escola faça um diagnóstico da questão da violência nas escolas, ouvindo professores, funcionários, estudantes e famílias. Como eles se sentem na escola? Se sentem protegidos e seguros? Quais são os problemas que percebem na relação entre todos?
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Depois, reuniões coletivas podem ajudar a propor soluções e pactuar compromissos para melhorar a convivência. “A gestão democrática é essencial, inclusive porque as escolas em geral tem regras e não são conhecidas. Pactuá-las entre toda a comunidade escolar é fundamental para a mudança do clima escolar”, reforça Miriam.
“Precisamos de uma Pedagogia humanizadora, da ética do cuidado, que é a Educação Integral”, afirma Miriam.
Em relação ao trabalho pedagógico, a especialista reforça a importância de discutir, cotidianamente e em todas as áreas do conhecimento, os Direitos Humanos. Isso envolve questões relativas à misoginia, racismo e fascismo, bem como as redes sociais e as fake news.
“O problema é que para algumas escolas e comunidades não se pode falar nada além das disciplinas acadêmicas, ainda que esse seja um direito assegurado pela legislação. Temos que falar sobre visões de mundo”, explica Miriam.
Fortalecer grêmios estudantis, garantir espaço para que os estudantes se expressem e conversem entre si, e formação para professores são outros pilares da construção de uma boa convivência escolar.
“Precisamos de uma Pedagogia humanizadora, da ética do cuidado, que é a Educação Integral. É aprender a manter relações positivas, tomar decisões individuais e coletivas de forma responsável e exercer a gestão democrática. É isso que cultiva sonhos e laços”, diz Miriam.
Confira documentos com orientações para proteger as comunidades escolares e experiências de quem faz na prática:
Especial Escola Segura: Cultivando a Cultura de Paz
Cartilha do MEC traz recomendações para proteger as escolas
Ataques às escolas: UNICEF lança estratégia Educação que Protege
Escola livre de ódio: Porvir lança especial sobre o combate ao extremismo
O Ministério da Justiça e Segurança Pública, em parceria com a SaferNet Brasil, criou o canal de denúncias Escola Segura, exclusivo para receber informações sobre ameaças e ataques contra as escolas.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania decidiu ampliar a iniciativa, disponibilizando um número exclusivo de WhatsApp (61) 99611-0100 para denúncias de ataques ou ameaças a escolas, além do Disque 100.
O canal pode ser acessado por meio de mensagens de texto, áudios, fotos e vídeos. As informações são encaminhadas com prioridade às autoridades de segurança para uma ação imediata.
Em todos os canais, as denúncias são anônimas e as informações enviadas serão mantidas sob sigilo.