6° Prêmio Territórios Tomie Ohtake

publicado dia 02/08/2022

Automutilação e suicídio na escola: “O sofrimento tem uma dimensão sociopolítica”, diz Paulo Bueno

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O sofrimento que muitas crianças e adolescentes expressam na escola, cada um à sua maneira, pode ter relação com o contexto sociopolítico do país e com as violações de direitos a que eles e suas famílias estão submetidos.

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Apatia na sala de aula pode ser sinal de fome em um país com 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer. Rompantes de raiva, uma expressão da depressão em meio às quase 680 mil mortes por coronavírus no Brasil. Nesse sentido, saúde mental e bem-estar não são questões individuais, mas dependem do coletivo. 

“É preciso que se considere essas determinantes sociais quando pensamos de modo mais amplo a situação do aumento dos índices de tentativas de suicídio e automutilação”, diz Paulo Bueno, psicanalista, doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e docente no Instituto Gerar, em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral. 

O cenário demanda da escola ações intersetoriais que enxerguem para além do comportamento das crianças e adolescentes e possam promover desde saúde mental e bem-estar até a garantia de alimentação, aumento da renda familiar, enfrentamento ao trabalho infantil e outras violências e violações de direitos. 

O psicanalista também falou sobre como lidar com o surgimento de casos de automutilação e suicídio na escola e como cuidar também dos profissionais da Educação, normalmente os primeiros a notar mudanças de comportamento, ferimentos e outros sinais de sofrimento. Confira a entrevista na íntegra:

Centro de Referências em Educação Integral: Nesta volta às atividades presenciais nas escolas, muitos professores e professoras têm relatado casos de automutilação e tentativas de suicídio entre os estudantes. O que as crianças e adolescentes podem estar tentando comunicar com isso e quais fatores você observa que contribuem para essas expressões de sofrimento atualmente?

Paulo Bueno: Primeiramente, acho importante separarmos esses fenômenos, pois são distintos. De um lado a automutilação, de outro lado, as tentativas de suicídio. Faço essa distinção para tomarmos o cuidado de não apontar todo ato suicida como uma tentativa de comunicação com o outro. Nem sempre esse ato é uma mensagem com destinatário, muitas vezes é um puro grito de desespero sem endereçamento.

Já a automutilação é um gesto que tende a convocar o outro, principalmente quando o jovem expõe os cortes aos pais ou professores, de modo explícito ou de maneira mais discreta. O que há em comum é o fato de que ambas as situações são expressões de que o jovem passa por um sofrimento vivido como insuportável.

CR: A Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio estipula que casos suspeitos ou confirmados de suicídio e de violência autoprovocada devem ser comunicados ao Conselho Tutelar em até 24 horas. Como esse processo deve ser conduzido para garantir que ele seja respeitoso com todas as partes envolvidas?

PB: Compreendo que uma situação tão delicada não pode ser comunicada de forma meramente protocolar. Mais do que o acionamento do Conselho Tutelar, é preciso que se convoque a rede de proteção da criança e do adolescente do município. Que inclui, no mínimo, o acompanhamento psicológico, quase sempre localizado nos equipamentos de Saúde, a Assistência Social e o Conselho Tutelar.

É necessário, portanto, que se promova reuniões para discussão e tomada de decisão. Todas as informações referentes ao caso devem se manter sob sigilo, falando apenas o necessário para elaboração de estratégias de cuidado.

“O sofrimento é o modo em que cada um, utilizando-se dos recursos psíquicos dos quais dispõem, lida com a situação.”, diz Paulo Bueno

Crédito: Midjourney

CR: Muitas escolas têm promovido ações de acolhimento e bem-estar para lidar com estudantes deprimidos e ansiosos. Por que é importante considerar, junto a esse trabalho, também o enfrentamento à ampliação das violações de direitos no Brasil? Em que medida o sofrimento expresso pelas crianças e adolescentes são questões individuais e/ou sintomas dos tempos atuais?

PB: O sofrimento tem uma dimensão sociopolítica. É preciso que se considere essas determinantes sociais quando pensamos de modo mais amplo a situação do aumento dos índices de tentativas de suicídio e automutilação.

Estamos saindo de uma pandemia que, só no Brasil, deixou milhares de mortos, milhões de enlutados, pessoas com efeitos colaterais significativos, famílias devastadas (muitas dentre elas tinham como arrimo uma das vítimas do COVID), soma-se a isso um contexto econômico desesperador, com aumentos contínuos do valor da cesta básica, desemprego, aumento do trabalho precarizado. O sofrimento é o modo em que cada um, utilizando-se dos recursos psíquicos dos quais dispõem, lida com a situação.

CR: Por que também é papel da Educação zelar pela saúde mental e os demais direitos dos estudantes?

PB: Num país em que, cotidianamente, as crianças sofrem violações de direitos é necessário que se formem redes de atenção e proteção. Os cuidados com a saúde mental devem fazer parte das atribuições dessa rede que envolve Educação, Assistência Social, Saúde, Esportes, Cultura e Lazer.

Nessa perspectiva, a educação deve se envolver também com o campo da saúde mental, numa aproximação com profissionais da área, detecção de situações de risco e consequente encaminhamento para os profissionais de competência.

CR: Que tipo de ações ou atividades podem ser interessantes de promover na escola para ajudá-los a lidar com depressão, ansiedade e automutilação? E no caso de suicídio ou de tentativas de tirar a própria vida entre os estudantes, como a escola pode abordar o tema?

PB: Antes de tudo é preciso que as crianças e adolescentes tenham espaços qualificados de fala e escuta. Não podemos tomar os acontecimentos traumatizantes como eventos banais. É preciso deixar que os adolescentes falem sobre o seu sentimento acerca do que ocorreu com o colega que tentou suicídio, de modo respeitoso, sempre. Muitas vezes acompanhamos escolas que simplesmente se calam sobre um fato tão importante. O silêncio é problemático.

Quando não há um acontecimento disparador, é possível que se proponha rodas de conversa sobre automutilação, por exemplo, perguntando aos alunos as hipóteses que têm sobre a motivação de tal comportamento. Convidar profissionais da saúde para promoverem palestras sobre saúde mental também é uma estratégia interessante.

“O jovem está falando de sua experiência singular de sofrimento e deve ser respeitado. Trazer noções de certo e errado não contribuem em nada nesse momento.”, orienta o psicanalista.

Crédito: Midjourney

CR: Por outro lado, que tipo de ações ou falas prejudicam esse trabalho?

PB: Quando proponho rodas de conversa é importante salientar que o adulto não pode assumir um tom moralista na condução da atividade. O jovem está falando de sua experiência singular de sofrimento e deve ser respeitado. Trazer noções de certo e errado não contribuem em nada nesse momento.

O principal é que, ao falar de sua dor, possa reconhecer que há adultos capazes de acolher, encorajando-se a buscar ajuda de profissional da saúde, quando necessário. Que possa também constatar que há outros que passam por situação semelhante.

CR: Que suporte os professores também precisam receber para lidar com esse contexto desafiador?

PB: Se advogamos pela criação de espaços de legitimação das falas dos alunos, não podemos negligenciar a importância de que se crie espaços de circulação da palavra também para os profissionais da educação.

Seria interessante que separassem uma hora das paradas pedagógicas ou reuniões de discussões curriculares para que pudessem falar das dificuldades cotidianas em lidar com as situações de sofrimento psíquico dos alunos, além de outras situações conflitivas em sala de aula. O compartilhamento, além de permitir um apaziguamento da angústia no professor, permite a busca coletiva por estratégias de intervenção para situações futuras.

*Ilustração: Midjourney.

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