publicado dia 01/04/2025
6 dicas para trabalhar a Educação Integral Antirracista nas escolas
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
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Reportagenspublicado dia 01/04/2025
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒 Resumo: Autoras das Diretrizes de Educação Integral Antirracista para o Ensino Fundamental explicam como colocar em prática o combate ao racismo em diferentes aspectos da escola, da gestão ao currículo e na relação com o território e a comunidade.
Reconhecer e diagnosticar as formas de manifestação do racismo no ambiente escolar, observar e agir sobre as relações entre todas as pessoas da escola e transformar o currículo são alguns dos passos fundamentais para combater o racismo na Educação.
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A publicação gratuita Diretrizes de Educação Integral Antirracista explica estas e outras etapas necessárias para construir coletivamente escolas mais equitativas. Além de um percurso teórico sobre o assunto, o documento também traz listas de práticas associadas aos conceitos que norteiam as Diretrizes, a fim de apoiar a efetivação do combate ao racismo na prática.
Desenvolvida com o apoio estratégico da Porticus pela Cidade Escola Aprendiz, a Roda Educativa e a Ação Educativa, em co-autoria com 25 organizações e movimentos sociais, as Diretrizes de Educação Integral Antirracista para o Ensino Fundamental: uma contribuição da sociedade civil fazem convergir conceitos e ações da Educação Integral e da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) e é voltada para gestores de Secretarias e escolas, bem como docentes.
“É fundamental propor a ERER como eixo transversal do currículo, de toda a organização do trabalho pedagógico e das ações no ambiente escolar, rechaçando as abordagens que se filiam ao currículo festivo e a pedagogia de eventos, e a liberdade aos profissionais da Educação de poderem trabalhar com essas temáticas sem sentirem ameaçados”, afirma Silvane Silva, assessora de projetos de Relações Étnico-Raciais da Ação Educativa.
A seguir, as autoras das Diretrizes de Educação Integral Antirracista sintetizam alguns dos pontos fundamentais de serem colocados em prática para promover uma Educação democrática, emancipatória, contextualizada e significativa. Confira:
O primeiro passo para combater o racismo é compreender que ele permeia toda a estrutura do país e nenhuma escola está livre dele. Mas é preciso identificar de quais maneiras ele se manifesta dentro do espaço escolar e tornar seu combate permanente, o que torna indispensável a corresponsabilização entre toda a comunidade escolar.
Ferramenta de diagnóstico da Ação Educativa ajuda a identificar o racismo nas instituições escolares.
“O antirracismo vem nesse chamamento das pessoas brancas para entrarem no debate, mas não simplesmente ficarem no diálogo, e também se engajarem nas ações”, convoca Silvane.
Uma das dimensões do racismo se expressa nas relações que se estabelecem entre as pessoas, desde silenciamentos e discriminações mais veladas, até violências que são expressas como brincadeiras, xingamentos e ataques físicos.
“Temos que nos reeducar para corrigir esses problemas que derivam da hierarquização das diferenças”, orienta Jaqueline Lima Santos, professora e consultora nas áreas de equidade, raça e gênero.
Outro ponto relevante é que para a concepção da Educação Integral todas as pessoas ensinam as crianças e adolescentes e também aprendem com eles. Então é preciso observar a relação entre todas as pessoas da escola e levar em conta quem são as pessoas que ocupam os cargos de poder da escola e tomam as decisões.
“A gestão democrática precisa estimular a participação e fazer valer a escuta ativa de todas as pessoas da escola, que não fique só no escutar, mas verdadeiramente considerar. Para além disso, como essa escola faz para chegar em um consenso entre as opiniões diferentes de forma democrática?”, questiona Míghian Danae, professora na Universidade da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).
Para além das pessoas que trabalham na escola, é essencial ouvir as lideranças comunitárias, que conhecem o contexto, os desafios e potencialidades daquele território e de sua cultura, e qual o sentido da escola para essa comunidade. “Especialmente nos contextos em que há comunidades quilombolas e indígenas”, frisa Silvane.
Os currículos e materiais didáticos em geral costumam contar as mesmas narrativas a partir do mesmo ponto de vista, com predominância dos conhecimentos científicos e culturais produzidos pela Europa. Que outras contribuições existem?
“O currículo escolar tem importância fundamental nesse processo de reconhecimento que todos os povos produzem cultura, e que devem ser consideradas como conteúdo escolar, pensando em todas as intersecções, como raça, classe, sexualidade, território, entre outras”, diz Silvane.
Renata Grinfeld destaca que esse processo precisa permear todo o currículo da escola, de forma interdisciplinar, e o ano todo. “A diversidade cultural precisa estar na centralidade do debate, das práticas pedagógicas e das relações humanas, e não no lugar folclórico e exótico”, orienta Renata Grinfeld, formadora e coordenadora pedagógica na Roda Educativa.
Para conhecer mais sobre a turma e aproximar o conteúdo curricular de suas realidades e interesses, a fim de que essa Educação faça sentido para os estudantes e eles se vejam representados nos conteúdos e processos, é essencial pesquisar o que as crianças e adolescentes trazem de bagagem científica e cultural, bem como os saberes e fazeres do território em que a escola está.
“Quais são as práticas de medicina tradicional, as festas e rituais e as palavras africanas e indígenas que estão na nossa língua? Não estamos falando de uma cultura do outro e distante, mas de práticas culturais diversas que formam nossos hábitos e formas de cuidar e fazer ciência no nosso cotidiano”, destaca Jaqueline.
Além de valorizá-las, os estudantes precisam compreender as violências de que essas manifestações culturais são alvo em decorrência do racismo. “Precisamos de justiça curricular para celebrar e problematizar as diferenças […] ampliar o repertório de conhecimentos para que os estudantes possam agir sobre o mundo e potencializar sua participação ativa, além de valorizar os conhecimentos que trazem de suas comunidades”, disse Renata.
Uma das principais formas de atuação do racismo é hierarquizar os fenótipos, atacando traços das corporeidades negras, para perpetuar o sistema de privilégios brancos. Dessa forma, o racismo não acontece porque as pessoas são diferentes, mas o próprio racismo estabelece uma hierarquia entre as diferenças.
Por isso é central que as escolas façam frente a isso reconhecendo e valorizando as belezas e as estéticas negras. “O racismo também aparece quando o estudante negro não se vê no material didático, nas pinturas feitas na escola, na história que é contada sobre seus antepassados, não se identifica com aquele espaço e tem seu corpo corpo desumanizado. É preciso valorizá-lo e reconhecê-lo, a partir da noção de que a diferença está em todos nós”, afirma Jaqueline.
O racismo traz impactos para todas as dimensões de quem é sua vítima – social, cognitiva, física, cultural e emocional. Em relação a esta última, é essencial que a escola também possa acompanhá-la.
“O emocional desse aluno depende de ter o racismo e seus problemas reconhecidos, de mudanças no currículo, de colocar os sujeitos negros como protagonistas da história do Brasil, valorizar seus aspectos estéticos, socioculturais e de humanizar as relações”, afirma Jaqueline.
Para Míghian, esse posicionamento direciona a Educação para um compromisso com a solidariedade: “A Educação só acontece quando eu reconheço, valorizo e respeito as diferenças, quando não negligencio práticas racistas, homofóbicas. Educação não coabita com racismo”.
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