publicado dia 22/05/2019

3 olhares para a escola pública brasileira

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A escola chega a nós por diferentes caminhos: sendo estudantes, pela variedade de temas e realidades que permeiam nossa vida escolar, acompanhando a educação de outras crianças ou pelos professores que tivemos e conhecemos. Olhar para a escola requer, portanto, diferentes linguagens e perspectivas para dar conta de sua complexidade.

O encontro faz parte do ciclo de debates Olhares para Educação Pública, que vai até 4 de junho.

Por isso, o Museu da Imagem e do Som (MIS) e o Instituto Unibanco convidaram atores, escritores, jornalistas, arquitetos e psicanalistas para debater a educação pública no Brasil, além de sediar a exposição fotográfica Ser Diretor – Uma viagem por 30 escolas públicas brasileiras”.

Nesta terça-feira, 21 de maio, a escritora Ana Maria Gonçalves, a líder ambiental e indígena Sônia Guajajara e o jornalista Leonardo Sakamoto foram convidados a compartilhar suas experiências e visões sobre a escola pública no Brasil, cada um à sua maneira.

Mesa do ciclo de debates Olhares Para a Educação Pública, no MIS

Mesa do ciclo de debates Olhares Para a Educação Pública, no MIS

O racismo na escola

“Qualquer tentativa de melhorar a educação brasileira deve partir da eliminação de todos os resquícios, e são muitos, da eugenia e do racismo dentro do sistema escolar. Eu lembro de uma moça me contando sobre o trauma que foi ler Monteiro Lobato na escola por causa das consequências que isso tinha no comportamento dos outros alunos, mas que continuava aguentando ir à escola porque era o único lugar em que fazia uma refeição completa por dia.

A escola é muito violenta, e os professores, coordenadores, e diretores que deveriam proteger essas crianças são muitas vezes aqueles que perpetuam o racismo. Por isso, é crucial que haja uma formação obrigatória [antirracista] para toda e qualquer pessoa que  se relacione na escola com crianças, porque todos nós somos racistas. Precisamos levar isso a sério. Não dá para continuar abrindo mão de gerações de crianças perdidas nesse sistema, que foi criado para tirá-las de lá. Olhemos por nossas crianças que estão sendo, desde sempre, maltratadas dentro do sistema de ensino básico brasileiro”. 

Ana Maria Gonçalves

Os povos indígenas e a escola

“A primeira dificuldade quando um indígena entra na escola, é que geralmente ela não é na aldeia e, portanto, não reconhece que dentro das aldeias já temos nossa educação e saberes. Depois, é obrigado a falar uma língua que não é a materna, porque apesar das 5 mil línguas indígenas o Brasil adotou uma língua estrangeira.

Na sequência, os livros insistem em nos tratar como povos do passado: viviam em tal lugar, eram, moravam, caçavam, pescavam. Insistem em nos colocar no passado, e não como os 305 povos indígenas que estão aqui agora e lutam todo dia para provar a nossa existência, e que vão dormir e não sabem se vão acordar vivos. Insistem em nos tratar como aqueles seres exóticos da Amazônia, e não de todos os lugares, em todos os estados brasileiros, com culturas, tradições e línguas diferentes. Esse racismo institucionalizado existe e continua expulsando indígenas da escola e das universidades. E agora ao invés de avançar, estamos lutando pela permanência das disciplinas de Filosofia e Sociologia, e não voltar educação moral e cívica. O governo quer derrubar essas disciplina críticas porque se não derrubar, a educação derruba o governo.”

Sônia Guajajara

O pensamento crítico e as novas gerações

“A escola pública deve compreender que a educação não serve para decorar coisas, mas que todas essas informações devem se encaixar na realidade e servir para que os estudantes interpretem o mundo à sua volta, construam o seu caminho, e possam se libertar das correntes que lhe oprimem.

Sobre as novas gerações de alunos, como professor universitário há 19 anos, percebo que esses estudantes podem até não ler tanto, mas operam em rede, não escrevem tão bem, mas têm inteligência coletiva e de programação que a gente não tem. Então, a pergunta é menos se eles estão preparados para lidar com o mundo, e mais se nós estamos prontos para lidar com essa mudança geracional e a reinvenção constante no ensinar, porque nunca tivemos um salto tão grande entre as gerações. E se, por um lado esses alunos chegam sabendo programar, metade das escolas públicas não está conectada à rede de esgoto. Isso quando tem água e internet. A nossa mentalidade está no século XXI, mas a estrutura fornecida ainda está no século XVI. E nesse momento em que mais precisamos de professores bem capacitados para lidar com essa reinvenção da escola, querem retirar recursos do ensino superior, querem retirar bolsas das universidades, e eu reafirmo que meus alunos mais dedicados são os do ProUni”.

Leonardo Sakamoto

A escola brasileira como projeto de país