RJ: modelos de educação integral tentam abarcar a diversidade da juventude

Publicado dia 17/07/2015

RJ
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O desafio de educar no Ensino Médio se ancora na diversidade das juventudes que contemplam dimensões socioculturais, econômicas e socioemocionais bastante heterogêneas. Às escolas, portanto, recai a necessidade de tornarem-se atrativas, a partir de um modelo que dialogue com as práticas de um mundo cada vez mais globalizado.

Para a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) do Rio de Janeiro, atender a essas demandas só seria possível com a consolidação de um currículo menos fragmentado e conteudista e mais conectado com a realidade. E esse foi o eixo condutor de toda a experiência de reformulação da educação, iniciada em 2007.

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Estudantes do Colégio Estadual Erich Walter Heine. Créditos: Marcia Costa / Seeduc-RJ

A consolidação da nova matriz curricular se ancorou em um entendimento de que a diversidade da juventude não seria contemplada em um único modelo educacional, sob o risco de engessar o processo. Tendo como foco central o sujeito autônomo, cidadão, transformador de sua realidade, a rede passou a oferecer alguns modelos educacionais pautados pela educação integral que contempla a formação plena e a aquisição de habilidades e competências para um amplo desenvolvimento.

“Ao final dos três anos do Ensino Médio, esse jovem pode tomar algumas decisões de vida, que pode ser a universidade, o mundo do trabalho, alguma formação de caráter mais técnico e nós precisávamos dialogar com isso”, coloca a subsecretária de Gestão de Ensino da Secretaria de Estado de Educação, Patrícia Tinoco.

O início do percurso

O Programa Ensino Médio Integrado à Educação Profissional foi o primeiro modelo a ser praticado pela rede, em 2007, no Centro Interescolar Estadual Miecimo da Silva, localizado no município de Campo Grande. O objetivo da proposta era justamente desconstruir as antigas práticas fragmentadas e integrá-las do ponto de vista do conhecimento. Os alunos da instituição, que podiam cursar técnico em administração ou edificações, passaram a ter os conhecimentos específicos das áreas em diálogo com aqueles determinados pela base comum.

Em 2008, um pouco mais consolidada, a prática se aproxima da concepção de educação integral – integrando as quatro aprendizagens fundamentais das quais trata o o francês Jacques Delors: aprender aconhecer, aprender a fazer, aprender a conviver, aprender a ser – e chega ao Colégio Estadual José Leite Lopes.

Educação integral em tempo integral

As primeiras experiências foram fundamentais para consolidar o programa de educação integral em tempo integral do estado e formatá-lo a partir de duas dimensões principais: o Programa Dupla Escola e a Solução Educacional para o Ensino Médio.

O Programa Dupla Escola reforça a abertura de múltiplas possibilidades educativas em diálogo com os interesses dos jovens, entendidos a partir de diversos diagnósticos realizados pela rede. Por isso, também se subdivide em modelos que atendam a esses anseios. Um deles, o Vocacional Intercultural, iniciado em 2013, dialoga com estudantes que têm interesse na proficiência de uma língua estrangeira, o que levou a rede a estabelecer parcerias com governos internacionais. Atualmente, são quatro unidades escolares, cada uma direcionada aos intercâmbios português espanhol, português francês, português inglês e português mandarim.

Esse percurso formativo é orientado por um currículo flexível e interdisciplinar, uma vez que permite interações entre as disciplinas da base e os conhecimentos específicos de cada idioma. Essas escolas alternam as chamadas dinâmicas curriculares “90-10” entre a aprendizagem dos conhecimentos gerais e específicos. Por exemplo, quando lida com os conteúdos da base faz com que eles sejam ministrados 90% em língua portuguesa e 10% na língua específica; quando no campo do conhecimento específico, essa grade é lecionada 90% no idioma específico e 10% em língua inglesa. A dinâmica estimula os alunos a contextualizarem a língua e também a desenvolverem projetos com esse intercâmbio cultural.

Outro modelo é o Ensino Médio Integrado à Educação Profissional que oferece uma formação técnica nível médio e integra educação e formação profissional também a partir de um currículo que contempla o trânsito entre esses conhecimentos. A rede conta com nove unidades escolares que atendem nesse modelo.

A Solução Educacional é uma outra dimensão da educação integral. Nela, a rede possui o que chama de Médio de Referência e Médio Nova Geração. O Médio de Referência corresponde à prática do Colégio Estadual Chico Anysio, que atende cerca de 3 mil alunos. Nessa proposta, a principal tônica é a incorporação das competências socioemocionais em meio ao trabalho pedagógico, o que faz com que o currículo ancore atividades e ações orientadas em prol do projeto de vida do estudante.

Colégio Estadual Chico Anysio. Créditos: Marcia Costa / Seeduc-RJ

Colégio Estadual Chico Anysio. Créditos: Marcia Costa / Seeduc-RJ

O Médio Nova Geração, embora bastante parecido metodologicamente com o médio de referência, tem menos enfoque nas competências socioemocionais e figura, como explica Patrícia Tinoco, como uma semente do que se tem no Chico Anysio. Atualmente, 13 unidades da rede compõem esse modelo.

Em 2009, também chega ao estado o Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI), via Ministério da Educação, que abarca atualmente 39 unidades escolares.

Outras ações estratégicas

As múltiplas possibilidades educativas na rede estadual demandam um preparo por parte dos profissionais de educação. Para tanto, é pensado um modelo de formação específica para toda a equipe pedagógica que acontece ao longo do ano. Os professores da rede cumprem uma carga horária diferenciada – 30 horas mensais – justamente para possibilitar a participação nesses momentos formativos que acontecem durante a semana e também aos sábados, eventualmente. A formação é feita por adesão e os professores recebem gratificação.

Todas as escolas da rede organizam um planejamento integrado, em que participam todos os profissionais. Além disso, os técnicos da rede – responsáveis pela formação – também ofertam oficinas que buscam inseri-los em dinâmicas próprias do modelo de educação integral, de currículo integrado e da prática de projetos.

Em relação às escolas, a rede está continuamente avaliando os percursos e desempenho das unidades para entender se elas estão se desenvolvendo no modelo em que estão; essa avaliação permite que elas sejam integradas a outros modelos na busca pela qualidade do atendimento. Sobre a adesão das escolas, Patrícia explica que é fundamental que o interesse parta do corpo escolar.

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Alunos em atividade no Colégio Estadual Erich Walter Heine.

Especificamente com as escolas que atuam no modelo do ensino médio integrado à educação profissional, a subsecretária conta que há uma parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. A ideia é realizar um mapeamento dos territórios em que essas escolas estarão inseridas justamente para entender se elas são capazes de alavancar a economia e provocar empregabilidade com as formações profissionais oferecidas.

Principais resultados

A educação integral em tempo integral ainda não é uma realidade de toda a rede estadual do Rio de Janeiro. Atualmente, 53 escolas figuram no modelo que, a cada ano, tem metas de expansão; outras 760 ofertam o ensino médio regular em turno parcial e, segundo Patrícia Tinoco, vêm sendo preparadas a partir do Programa Jovens Leitores em Ação para a educação integral.

Ela também conta que a rede irá lançar, ainda em 2015, um projeto piloto com 17 unidades do ensino fundamental, anos finais – que soma 30% do atendimento do estado – com uma metodologia diferenciada de educação integral.

A somatória dessas ações, segundo a subsecretária, acaba por dar novo significado à educação básica no estado, embora a proposta não esteja totalmente consolidada. Um dos pontos que ela cita é a melhoria no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) – o estado passou da posição 26ª em 2009 para a 4ª na última aferição – o que diz de ações integradas às frentes curriculares e de formação.

Como acompanhar e apoiar as escolas na implementação de programas ou políticas de educação integral?