Caminho Escolar (Espanha) fomenta autonomia das crianças e valoriza espaço público

Publicado dia 26/01/2015

O caminho entre a escolar e a casa do estudante pode ser visto de diferentes maneiras.  É longo? É seguro? Pode ser percorrido a pé ou demanda veículo? Há faixa para pedestres? Quem leva e traz as crianças? Em Barcelona, na Espanha, uma iniciativa está incluindo novos ingredientes no caminho. Para o programa Caminho Escolar,  o trajeto casa-escola também envolve relações com a comunidade, autonomia, aprendizado e qualidade de vida.

Criada em 2010, a iniciativa busca promover a mobilidade autônoma de crianças a partir dos oito anos, de maneira segura e sustentável. O objetivo é que os estudantes possam fazer o trajeto entre a casa e a escola sozinhos, promovendo o uso do espaço público e uma cidade mais amigável às crianças. Pode parecer pouco, mas para que isso efetivamente aconteça, o projeto tem efetuado grandes transformações que abarcam a escola, a comunidade do bairro, as famílias e o poder público.

Inauguração do Caminho Escolar conta com atividades lúdicas que envolvem a comunidade (Foto: Ajuntament de Barcelona)

Inauguração do Caminho Escolar conta com atividades lúdicas que envolvem a comunidade (Foto: Ajuntament de Barcelona)

Construção coletiva

A implementação do Caminho Escolar tem início no próprio território, ou seja, a partir da demanda da escola ou da Associação de Pais e Mestres (APM) frente à prefeitura. O poder municipal, então, realiza um diagnóstico identificando qual caminho e meio de transporte cada criança utiliza para chegar à escola, qual a percepção que elas têm sobre o trajeto e seu grau de autonomia ao percorrê-lo.

Esse levantamento busca identificar também quais os principais problemas e dificuldades que as crianças enfrentam no trajeto e o processo de avaliação inicial conta com formulários e entrevistas respondidos pelos alunos. Em geral, empresas particulares ou organizações são as responsáveis pelo diagnóstico, contando com o apoio da escola e das famílias.

Com a avaliação em mãos, é desenhado um projeto de transformação do território, que pode incluir diferentes modificações e adaptações viárias como a sinalização de que há o trajeto de crianças, criação de estacionamento de bicicletas e a colocação de estruturas de proteção em frente à escola – de acordo com a demanda de cada localidade.

A iniciativa prevê também a mobilização da comunidade que está no trajeto escolar. Assim, associações de moradores, comerciantes e outros atores são convidados a aderir à iniciativa e são vistos como educadores. Os que concordam colocam um adesivo na porta para se tornarem um ponto de referência para as crianças, caso tenham algum problema e necessitem ajuda.

Após a implementação do projeto, ele é avaliado periodicamente em cada localidade. A reflexão é feita também à nível municipal, com o compartilhamento das experiências de toda a cidade.

Em busca de um território educativo

Barcelona foi pioneira na construção de uma cidade educadora na década de 1990. Isso significa que o município se organiza de modo que seus espaços, tempos e envolvidos sejam agentes pedagógicos, que podem, ao assumirem uma intencionalidade educativa, garantir o processo de formação integral dos indivíduos para além e em parceria com a escola.

Principais resultados

A adesão de escolas ao projeto vem crescendo ao longo dos anos. Em 2011, 32 instituições participavam mas, três anos depois – no final de 2014 – o número saltou para 67. O último Caminho inaugurado, em outubro do ano passado, foi no distrito de Sants – Montjuïc, que já contava com 14 escolas participantes e 159 lojas e entidades parceiras.

Para a prefeitura, o projeto tem como impacto o aumento da cidadania; o fomento ao uso de transportes “mais racionais do que os veículos privados”, como ônibus, bicicletas e a caminhada; e o aumento da segurança nas áreas do entorno das escolas. Outras consequências são a recuperação do espaço público para todos e maior coesão social das comunidades.

 

Para especialistas, é preciso compreender as estruturas de “escola” e “cidade” como construções sociais