publicado dia 03/06/2026
Como avaliar na Educação Integral?
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 03/06/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒️ Resumo: O guia “Avaliação na Educação Integral: Guia para redes e escolas de Educação Básica” oferece orientações, ferramentas e exemplos para que escolas e Secretarias de Educação avaliem aprendizagens multidimensionais, como empatia, colaboração, criatividade, protagonismo e autoconhecimento. O documento foi realizado pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com Ashoka Brasil e Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
Na Escola dos Sonhos, em Bananeiras (PB), cidade de 22 mil habitantes, não há sala de aula, provas tradicionais, boletim ou um professor à frente do quadro. O que existe é uma escola que organiza o ano letivo em trilhas pedagógicas de três semanas, sempre a partir da curiosidade dos estudantes e articulada às áreas do conhecimento, à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e à cultura africana, afrobrasileira e indígena.
“Não temos sala de aula. Todo e qualquer ambiente é de aprendizagem”, conta Leila Rocha, diretora da escola comunitária que atende 217 estudantes de 23 comunidades rurais e três urbanas.
Leia mais
“Sem a curiosidade, não ensino e nem aprendo, como dizia Paulo Freire”, lembra a diretora. A frase organiza a metodologia da escola. Cada trilha pedagógica parte de uma pergunta dos próprios estudantes, que se desdobra em projeto de pesquisa, conectado ao currículo e a ações na comunidade, e sempre acompanhada de gestão democrática, como comitês guardiões, assembleias e grupos de responsabilidade.
“Cada escola vai precisar descobrir seu jeito de fazer, porque depende da identidade local, dos sujeitos que ela atende, e do território em que está”, afirma Leila Rocha.
Quando um estudante encontra dificuldade para realizar sua trilha, pede ajuda primeiro a um colega que já estudou aquele conteúdo, e só recorre ao educador em última instância.
Nesse desenho, a avaliação assume outra dimensão. “Não é classificatória, não é quantitativa. É diagnóstica, processual, participativa, emancipatória”, define Leila. Diagnóstica porque envolve educador e educando em um retrato do percurso. Processual porque acontece o tempo todo. Participativa porque se faz em diálogo permanente. Emancipatória porque sustenta a autonomia e o protagonismo dos estudantes.
Para fazer tudo isso, a escola opera com um conjunto articulado de instrumentos. Toda tarde, os estudantes se reúnem em coletivos com seu tutor para uma roda de partilha dos saberes e apresentam suas descobertas do dia.
Ao fim de cada trilha, o tutor senta individualmente com cada educando e revisa o percurso: o que foi alcançado, o que ficou pelo caminho, o que precisa ser retomado.
Há, ainda, uma autoavaliação ao fim de cada trilha, avaliação das famílias sobre o desenvolvimento do estudante em casa, avaliação entre pares com fichas-guia, culminâncias em formato escolhido pelo estudante, como apresentação, maquete ou vídeo e, ao fim do semestre, os educadores fazem um relatório descritivo de cada aluno.

Conversas em roda abordam desde a própria aprendizagem até o funcionamento da escola.
Crédito: Escola dos Sonhos/Divulgação
No fim do ano letivo, a última trilha é dedicada inteiramente à avaliação institucional: estudantes, educadores e famílias avaliam instrumentos, relações, comitês, assembleias, formação docente, articulação com a comunidade.
O resultado alimenta a construção do Projeto Político Pedagógico (PPP) do ano seguinte, também feito de forma coletiva ao longo da primeira trilha do ano, com pactos sobre convivência, combinados, estratégias e escolhas.
Segundo ela, o desafio inicial está nas famílias que chegam acostumadas à lógica do boletim, e nos estudantes que vêm de outras escolas e levam tempo para se adaptar. Mas, segundo a diretora, depois que se adaptam, “eles não querem voltar para o outro formato”.
“Cada escola vai precisar descobrir seu jeito de fazer, porque depende da identidade local, dos sujeitos que ela atende, e do território em que está. Mas o resultado vai ser o de ressignificar o que é Educação para o educador e para o educando. E eu vejo os meninos aqui com muito mais protagonismo e consciência crítica do ser e do estar”, afirma Leila.
Experiências como a da Escola dos Sonhos estão na base de um documento que o Ministério da Educação (MEC) acaba de lançar. Publicado em 2026, o guia “Avaliação na Educação Integral: Guia para redes e escolas de Educação Básica” oferece orientações, ferramentas e exemplos para que escolas e secretarias avaliem cinco aprendizagens consideradas centrais ao desenvolvimento integral dos estudantes: empatia, colaboração, criatividade, protagonismo e autoconhecimento.
“A Educação Integral tem um objetivo muito mais amplo do que a transmissão de conteúdos acadêmicos. Por isso, avaliar uma escola exige acompanhar o desenvolvimento dos estudantes em todas as suas dimensões”, afirma Helena Singer.
O material é resultado de cinco anos de pesquisa-ação do programa Escolas2030, parceria entre a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e a Ashoka Brasil, que reúne 100 organizações educativas no Brasil e mil em dez países.
O guia integra o Eixo Acompanhar do Programa Escola em Tempo Integral, instituído pela Lei 14.640/23.
“A Educação Integral tem um objetivo muito mais amplo do que a transmissão de conteúdos acadêmicos. Por isso, avaliar uma escola exige acompanhar o desenvolvimento dos estudantes em todas as suas dimensões, cognitiva, física, social, emocional, cultural e política, e reconhecer que essa formação não ocorre apenas no espaço da escola”, explica Helena Singer, coordenadora-geral do Escolas2030 no Brasil.
A ampliação do programa Escola em Tempo Integral pelo Brasil, que estabelece que deve haver “coerência sistêmica entre currículo, práticas pedagógicas e avaliação da aprendizagem e do desenvolvimento pleno”, é uma oportunidade para transformar as práticas avaliativas das escolas.
“A proposta é organizar a avaliação como um processo de pesquisa-ação dentro da escola. O primeiro passo é a construção coletiva de um Marco Zero — diagnóstico que reúne dados formais, históricos, territoriais e quantitativos da escola, além de reflexão sobre indicadores externos, espaço, tempo, saberes, gestão e desafios. Em seguida, a equipe define uma prática educacional a ser observada, escolhe quais das cinco aprendizagens vai avaliar, formula uma pergunta de pesquisa e levanta hipóteses”, orienta Helena, que também é Líder da Estratégia de Juventude América Latina na Ashoka.
A especialista também explica que é a avaliação é um processo construído pelos professores em equipe, a partir de uma metodologia de pesquisa-ação. São eles que pesquisam sobre as próprias práticas, identificam quais aprendizagens esperam que os estudantes desenvolvam e definem onde essas aprendizagens podem ser observadas, como em um projeto, roda de conversa, assembleia ou grêmio.
O guia propõe ainda um caminho de dez passos para a elaboração de indicadores. Em uma escola municipal participante do Escolas2030, o grupo de pesquisa elegeu protagonismo e empatia como aprendizagens a serem avaliadas, ancoradas em práticas de acolhida na quadra e tutoria entre pares. Os indicadores foram do tipo “conduz a acolhida”, “faz propostas”, “pede para ser monitora/or”, “auxilia colega com deficiência a se locomover”.
Desde os anos 1990, a avaliação da Educação Básica brasileira se consolidou em torno do Saeb e, depois, do Ideb, que combina proficiência em provas de larga escala com taxa de aprovação. O Guia reconhece o lugar desses instrumentos, mas alerta para os riscos de tratá-los como medida única de qualidade: a redução do currículo, o esvaziamento da experiência escolar e o estímulo à competição entre escolas em prejuízo da cooperação.

Território vira sala de aula na Escola dos Sonhos.
Crédito: Escola dos Sonhos/Divulgação
Helena destaca que o guia foi pensado para as Secretarias de Educação ganharem mais confiança em processos avaliativos internos e ampliar a diversidade de indicadores sobre qualidade, que hoje, segundo ela, muito restritos às avaliações externas.
O primeiro passo recomendado às redes é divulgar o material e organizar um grupo de trabalho com as escolas interessadas em construir seus próprios processos.
“As aprendizagens na Educação Integral são contextualizadas. O que quer dizer empatia para um povo originário? Para uma adolescente do Ensino Médio? Para uma criança da Educação Infantil? A resposta precisa ser construída em cada escola, em cada território”, diz Helena.