publicado dia 04/05/2026
Educação Integral Antirracista: Como abordar as histórias e culturas indígenas na escola o ano todo
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 04/05/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒️ Resumo: Como trabalhar as histórias e culturas indígenas ao longo de todo o ano letivo, superando abordagens folclorizadas ou estereotipadas? Professores e especialistas indígenas defendem formação continuada, revisão do Projeto Político Pedagógico (PPP), valorização da diversidade e dão dicas práticas para professores.
Muitas professoras têm vontade de abordar a história e a cultura indígena com seus estudantes, mas não sabem como dar o primeiro passo. Os educadores também encontram obstáculos para fugir de abordagens pedagógicas que reforçam estereótipos sobre os povos indígenas em vez de superá-los.
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Para educadores indígenas, o caminho para a valorização dos saberes dos povos originários na escola começa por garantir algumas condições fundamentais: apoio da gestão escolar, tempo para desenvolver a temática e formação continuada e coletiva sobre o tema, ancorados na Lei 11.645/08.
A legislação tornou obrigatório o ensino das histórias e das culturas indígenas brasileiras nas escolas de Educação Básica há 18 anos. Apesar disso, poucas redes de ensino cumprem a determinação.
“A lei existe e o que falta é aplicar. Falta também interesse do poder público”, afirma Melvino Fontes Olímpio, liderança indígena, professor e coordenador do Departamento de Educação Escolar Indígena da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), e um dos autores das Diretrizes de Educação Integral Antirracista para o Ensino Fundamental.
Para o especialista, a implementação da 11.645 tem capacidade de fortalecer a história e a cultura dos povos indígenas nas escolas, desde que haja compromisso real e disposição para mostrar uma história contada pelos próprios indígenas.
Uma das maiores armadilhas do trabalho escolar com culturas indígenas é a generalização.
“Nossos professores não-indígenas precisam entender que cada etnia tem um costume e uma forma diferente de viver”, diz Raimundo Kambeba, diretor da Escola Indígena Municipal Kanata T-Ykua, em Manaus (AM).
“Nossos professores não-indígenas precisam entender que cada etnia tem um costume e uma forma diferente de viver”, diz Raimundo Kambeba.
Martinha Mendonça Guajajara, pesquisadora e diretora na Escola Municipal Indígena Guarani Para Poty Nhe’ë Ja, em Maricá (RJ), concorda. A educadora explica que o imaginário escolar parte de uma lógica construída ao longo do processo de colonização, o que o antropólogo Darcy Ribeiro chamou de “indígena genérico”, aquele de tanga e cocar, com arco e flecha e rosto pintado. “Isso aparece num formato folclórico e vazio”, afirma Martinha.
Alguns exemplos de generalização estão em atividades que apresentam a “dança da chuva” e o [instrumento indígena] maracá como se fossem universais, quando na realidade cada povo tem seus próprios rituais, instrumentos e grafismos.

O Brasil possui 391 etnias indígenas, todas diferentes entre si, com suas próprias culturas e histórias.
Crédito: Agência Brasil
Já o aipim (também conhecido como mandioca em algumas regiões do Brasil) é referenciado como a principal comida indígena. No entanto, para o povo Guarani, por exemplo, a base alimentar é o milho. Já o cocar dos Guajajara não é igual ao dos Xukuru.
“A escola nem sabe que aquele formato é um cocar”, observa Martinha, que também integra a coordenação executiva do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI) e é coordenadora do Fórum Sudeste de Educação Escolar Indígena.
Ela cita a escritora Chimamanda Ngozi Adichie e seu conceito de perigo da história única como uma referência que cabe perfeitamente aos povos indígenas.
“Cultura é algo muito mais amplo, é o tekó, o modo de ser e viver de um povo, como os conhecimentos se manifestam, como a espiritualidade, a saúde e a Educação são vividas”, diz Martinha Guajajara.
“Contaram uma história sobre os indígenas e ficou por isso. Esquecem que cultura é algo muito mais amplo, é o tekó, o modo de ser e viver de um povo, como os conhecimentos se manifestam, como a espiritualidade, a saúde e a Educação são vividas”, diz Martinha.
Além da folclorização, há outro problema recorrente: o fenótipo estereotipado. Trabalhos escolares costumam demarcar o corpo indígena pela pele avermelhada, olhos puxados e cabelos lisos, ignorando a diversidade real dos povos originários.
No Sul do Brasil, por exemplo, há Kaingangs que vivem nas cidades e são lidos como pessoas brancas. Já no Sul da Bahia, Pataxós de cabelos crespos e pele mais escura são frequentemente lidos como pessoas negras quando estão fora do território. “Entre os Guajajara, temos uma diversidade gigante de corpos, cabelos e peles. Isso não aparece nas escolas”, destaca Martinha.
A superação desses equívocos sobre os povos indígenas no Brasil passa por uma formação docente que vai além de eventos pontuais ou palestras.
“Não acredito nesse tipo de formação. É preciso fazer vivências, com dinâmicas que consigam formar os professores como pesquisadores para que eles ensinem as crianças a serem pesquisadoras, e precisa ser coletivo, porque aprender junto já é metodologia indígena”, define Martinha.
A especialista também afirma ser essencial que tanto a Lei 11.645/08, quanto a 10.639/03, que trata da história e da cultura africana e afro-brasileira, façam parte do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola. Além disso, é importante que ele seja construído coletivamente.

A formação docente é um pilar central para um trabalho de qualidade com os esudantes.
Crédito: Agência Brasil
“A escola precisa formular um PPP Intercultural, porque as populações que estão nela são pluridiversas. Tem gente da favela, da aldeia, de classes menos ou mais abastadas. A ciência ocidental é que apartou as pessoas, os conhecimentos e as vivências, mas é possível trabalhar tudo junto”, afirma Martinha.
Raimundo destaca que o diálogo entre os vários saberes é central e cita Paulo Freire, que diz que “não há saber mais ou menos, mas saberes diferentes”.
“Acham que somos menos inteligentes, só porque temos línguas e culturas diferentes. O conhecimento científico indígena e o não-indígena precisam andar lado a lado, em um projeto de Educação Intercultural”, defende.
A concentração do tema em Abril, sobretudo no Dia dos Povos Indígenas, é um dos hábitos escolares que especialistas e professores indígenas apontam que deve ser superado.
Há, inclusive, outra data que para os povos indígenas é ainda mais importante. Em 9 de Agosto é comemorado o Dia Internacional dos Povos Indígenas, data que foi criada em diálogo com grande parte dos povos indígenas da América e a Organização das Nações Unidas (ONU), a partir de uma série de reivindicações por seus direitos.
Para além das duas datas, é fundamental que o trabalho permeie todas as áreas do conhecimento o ano todo. Na Literatura, Martinha questiona por que os textos de referência são sempre de Clarice Lispector, Cecília Meireles ou Ruth Rocha. “E Auritha Tabajara, Márcia Kambeba e Eliane Potiguara? E a família dos estudantes, com sua própria história, identidade e memórias vivas?”, pergunta.
“Nossos mais velhos ficavam com medo de falar que eram indígenas por causa dos maus-tratos que sofreram, então se escondiam. Não por vergonha, como falam, mas por medo. Então esse projeto de valorização da nossa cultura é muito importante”, afirma Raimundo Kambeba.
Ela também chama atenção para a dimensão das ciências médicas, que raramente reconhece os saberes indígenas como medicina. “Nossos chás, nossas tinturas, o rapé, a ayahuasca, são formas de cura que ficam no saber popular como se não fossem ciência. Isso não está nos livros didáticos”.
Os especialistas também indicam realizar pesquisas sobre os biomas locais, observando a fauna e a flora, mas principalmente as pessoas que ali habitam.
Também o combate ao racismo recreativo e preconceitos linguísticos, bem como à noção errônea de que alguém deixa de ser indígena só por não viver mais em uma aldeia. Nesse sentido, a aproximação de estudantes não-indígenas dos povos originários é potente.
“Fazemos videochamadas entre nossos estudantes e escolas de não-indígenas. Nossos meninos explicam o que significa uma pintura corporal do povo Kambeba, a dança kuatcha, por que usam colar, pulseira, sua vestimenta e outros elementos”, conta Raimundo.
Do outro lado da tela, o projeto também tem impacto para as crianças indígenas.
“Eles ficam muito felizes de mostrar o que eles são. Nossos mais velhos ficavam com medo de falar que eram indígenas por causa dos maus-tratos que sofreram, então se escondiam. Não por vergonha, como falam, mas por medo. Então esse projeto de valorização da nossa cultura é muito importante”, afirma Raimundo.
Além de ser uma reparação histórica, trabalhar continuamente a cultura indígena na escola ajuda os estudantes a compreenderem os efeitos da formação histórica do país que reverberam até hoje. Esse conhecimento possibilita aos estudantes se tornarem aliados na luta por direitos indígenas.
Além disso, é também uma questão de sobrevivência global.
“O estudante não-indígena precisa entender que a luta dos povos indígenas é por Educação de qualidade, saúde intercultural e preservação de seus territórios. E que se preservarmos nosso território, nossa água, nossa floresta e nosso ar, protegemos toda a sociedade”, aponta Raimundo.

Estudantes não-indígenas precisam compreender as atuais lutas dos povos indígenas.
Crédito: Agência Brasil
Em tempos de agravamento da crise climática, formar aliados às lutas indígenas se faz ainda mais urgente.
“Nossa contribuição é mostrar que é possível ter um mundo mais saudável, com alimentação de qualidade e uma vida melhor para todas as pessoas e seres vivos”, diz Melvino Fontes Olímpio.
“Quando esses estudantes crescerem e virem pautas no Congresso sobre desvio de rios ou criação de rotas comerciais que poluem habitats de espécies que sustentam famílias inteiras, eles terão mais consciência. Quando perceberem o que significa a crise climática, vão entender por que os povos indígenas estão lutando”, diz Martinha.
Melvino destaca que o combate ao desmatamento, à caça predatória e à poluição já faz parte da realidade dos povos indígenas.
“Não é uma ideia. Nós já nascemos vivendo a preservação da natureza. Nossa contribuição é mostrar que é possível ter um mundo mais saudável, com alimentação de qualidade e uma vida melhor para todas as pessoas e seres vivos”, afirma o educador.