Publicado dia 02/04/2026
Como Mortugaba (BA) criou sua política de Educação Integral em tempo integral
Autoria: Ingrid Matuoka
Publicado dia 02/04/2026
Autoria: Ingrid Matuoka
🗒 Resumo: Escuta da comunidade, formação continuada e construção de currículo integrado são passos tomados pela rede de ensino de Mortugaba (BA) para consolidar a Educação Integral em tempo integral no município.
Em Mortugaba (BA), a política de Educação Integral em tempo integral foi construída coletivamente. O processo deu os primeiros passos em 2021, quando a equipe pedagógica acessou discussões sobre a concepção de Educação Integral durante uma formação.
Na implementação do tempo integral, superaram resistências das famílias e a lógica do turno e do contraturno nas escolas, consolidando a política de Educação Integral em lei municipal.
Atualmente, duas creches e duas escolas atendem bebês, crianças e adolescentes em tempo integral, com currículo integrado e destaque para o território. São 726 crianças atendidas por 112 profissionais da Educação Infantil aos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. A previsão é de ampliar a jornada em outras três unidades ainda em 2026, incluindo duas que atendem aos Anos Finais.
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O trabalho do município baiano foi reconhecido pelo edital Experiências Inspiradoras de Gestão e de Projetos Pedagógicos de Educação Integral em Tempo Integral, realizado em 2025 pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), representada pelo grupo TEIA – Territórios, Educação Integral e Cidadania.

A capoeira na escola, muito presente no território, passou a integrar o currículo da rede por pedido das famílias.
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Mortugaba/BA
“Esta experiência é inspiradora por afirmar uma Educação Integral que compreende o território como conteúdo curricular, espaço educativo e agente formador, reconhecendo o acesso a práticas culturais, artísticas, esportivas e de lazer como direito fundamental para o desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens”, diz a descrição do município no Mapa de Experiências do edital.
A seguir, saiba como o município implementou o Tempo Integral na perspectiva da Educação Integral nas escolas.
🔎 Acesse também materiais orientadores e o projeto de lei que consolidou a política de Educação Integral:
Referencial curricular de Mortugaba (BA)
Os anos de 2021 e 2022 foram dedicados ao estudo e à construção coletiva da proposta de Educação Integral. Além da concepção pedagógica, os educadores se aprofundaram em exemplos de outros municípios e nos desafios encontrados na própria rede e no território de 11 mil habitantes.
O fio condutor das discussões com as famílias, estudantes e professores foi a pergunta: que escolas queremos em Mortugaba?
O município também contou com assessoria técnica da educadora Claudia Santos, do Comitê Territorial Baiano de Educação Integral e do Observatório Nacional de Educação Integral.
O fio condutor das discussões com as famílias, estudantes e professores foi a pergunta: que escolas queremos em Mortugaba?
“Desde o início, não trouxemos uma proposta pronta. Queríamos construir uma Educação Integral que realmente atendesse às necessidades dos nossos alunos”, explica Erivelton Alves, secretário municipal de Educação.
Para dialogar com as famílias dos estudantes sobre o tempo integral, a gestão lançou mão de formulários online de diagnóstico. Na sondagem, as famílias responderam o que gostariam de ver nas escolas, opinando sobre áreas do conhecimento, atividades esportivas e culturais. Além da identidade do território, as respostas refletiram também os interesses das crianças: capoeira, karatê, futebol, balé, natação, teatro e música.
A pesquisa também revelou medos e resistências das famílias com a jornada expandida nas escolas. Entre outros pontos, muitos responsáveis expressaram insegurança sobre a alimentação que seria oferecida na escola, já que algumas crianças apresentavam seletividade alimentar.
Para acolher a situação, uma solução flexível foi adotada pelas escolas: os estudantes podiam voltar para casa para comer ou trazer a própria comida. Com o tempo, essa resistência ficou para trás. “Agora temos vários relatos de alunos que conseguiram superar a seletividade alimentar”, conta Erivelton.

Em Mortugaba, o território também é escola.
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Mortugaba/BA
Deixar os filhos por mais tempo na escola também era um ponto de preocupação das famílias. A construção coletiva da proposta pedagógica das escolas ajudou a superar o receio.
As famílias também compreenderam que a proposta não iria confinar seus filhos por 35 horas semanais em salas de aula e a política previa uma série de atividades no território, como em uma piscina municipal, quadras esportivas, praças com playground, pista de skate e anfiteatro.
“A nossa Secretaria Municipal agrega as áreas de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, o que facilita a articulação intersetorial”, diz Erivelton.
A especialização em Educação Integral também se tornou prioridade, com a formação continuada dos educadores como um dos pilares da política. Especialistas em Educação Integral acompanham periodicamente a rede e o município oferece bolsas de graduação e pós-graduação para os docentes.
A implementação efetiva teve início em 2023, de forma gradual, em duas escolas situadas em territórios de maior vulnerabilidade social, que haviam sido reformadas nos anos anteriores para atender o tempo integral, com mais salas, quadra e auditório. Desde 2020, outras duas creches já funcionavam em tempo integral.
Nas primeiras semanas, os educadores sociais, responsáveis pela parte diversificada do currículo, conviveram com os estudantes no tempo regular, apresentando as diferentes propostas. Só depois da adaptação é que o tempo foi ampliado.
A jornada passou a ser de 35 horas semanais: cinco dias com 9 horas e dois dias com 4 horas. Para sustentar a nova estrutura, foi necessário ampliar o quadro de funcionários, reequipar as cozinhas e reorganizar toda a logística de alimentação.

A alimentação de qualidade é essencial para o desenvolvimento dos estudantes.
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Mortugaba/BA
Hoje, as escolas oferecem três refeições diárias: lanche da manhã, almoço e lanche da tarde, além de café da manhã para os estudantes que chegam de transporte escolar, vindos de localidades mais distantes.
Ao final do primeiro ano de vigência do tempo integral, a Secretaria aplicou formulários de avaliação para famílias, funcionários, professores, estudantes e gestão, a fim de colher subsídios e planejar os ajustes necessários.
“Adotamos essa prática avaliativa até hoje. Ela já nos ajudou a promover ajustes como a organização e o formato do planejamento dos professores, para integrar o currículo”, conta Erivelton.
“Eles conseguiram entender que o aluno é um só. Integrar a base comum com a parte diversificada gerou mais fluidez”, avalia Erivelton Alves.
De 2023 para 2024, ocorreram mudanças significativas. A principal delas foi a adoção de uma matriz curricular integrada, que superou a lógica do “turno e contraturno” e unificou o trabalho de professores e educadores sociais. “Vimos a escola virar uma só”, resume Erivelton.
Para tornar isso possível, professores e educadores sociais passaram a realizar o planejamento semanal juntos. O resultado foi uma maior cumplicidade entre os profissionais e uma visão compartilhada de que o estudante é um sujeito único, cujo processo de aprendizagem não se divide entre manhã e tarde.
“Eles conseguiram entender que o aluno é um só. Integrar a base comum com a parte diversificada gerou mais fluidez”, avalia Erivelton.

Integrar o currículo é um dos principais desafios das escolas, sejam elas de tempo integral ou parcial.
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Mortugaba/BA
A formadora Cláudia explica que a fragmentação do currículo não surge no tempo integral. Escolas de jornada parcial também tendem a separar, por exemplo, o estudo da Matemática de projetos de artes, ou a Língua Portuguesa de atividades esportivas.
“A lógica do “turno e contraturno” é uma questão histórica, enraizada nas práticas educacionais, e sua superação é um processo gradual, porém necessário e urgente. A escola precisa se reconhecer como de turno único, orientada por um currículo integrado”, explica.
O planejamento conjunto entre professores e educadores sociais também contribuiu para aproximar da escola os saberes da comunidade e do território. “Isso porque os educadores sociais atuam na perspectiva da educação popular”, descreve a especialista.
Em 2026, Mortugaba se prepara para ampliar a política para mais três escolas: duas de Anos Finais do Ensino Fundamental e uma de Anos Iniciais. No total, serão mais de 1.400 estudantes atendidos em sete unidades, entre os 2.300 de toda a rede, em 14 escolas.
O processo de construção da proposta já está em curso, com momentos de formação e diálogo com famílias, estudantes, professores e equipes de gestão. O foco atual é a construção da matriz curricular de tempo integral para os Anos Finais do Ensino Fundamental, que ainda não existe na rede, além da reforma das escolas.
“Eles já viram a política funcionando, então está mais fácil e com menos resistência”, observa Erivelton. A perspectiva é que, a partir de maio, essas escolas já ampliem o tempo de permanência em atividades educativas.
“Nosso maior objetivo é que cada escola compreenda a política como sua”, afirma Cleonice Gonçalves.
A política de Educação Integral em Tempo Integral de Mortugaba começou por decreto e, no ano passado, foi aprovada como lei municipal, um passo importante para garantir sua continuidade e institucionalização.
Com a aprovação da lei, a Secretaria também revisou e atualizou o referencial curricular do município, alinhando-o às Diretrizes Operacionais Nacionais para a Educação Integral em Tempo Integral na Educação Básica.

Piscina municipal recebe estudantes das escolas de tempo integral para atividades.
Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Mortugaba/BA
“Muito do que a gente já tinha e praticava estava adequado. Foram ajustes pequenos”, conta Cleonice Gonçalves, coordenadora municipal da Educação Integral em Tempo Integral.
O processo de revisão seguiu a lógica participativa: primeiro com a equipe de gestão pedagógica e a assessora Cláudia Santos, depois com os gestores escolares, em seguida com coordenadores, professores e educadores sociais e, por fim, com as famílias.
“Nosso maior objetivo é que cada escola compreenda a política como sua. Isso faz muita diferença na execução, para que tudo possa acontecer de verdade, com compromisso de todas as pessoas”, afirma Cleonice.
Entre os maiores desafios enfrentados por Mortugaba estão a aceitação da comunidade escolar no início do processo, a adequação da infraestrutura, formação e contratação.
“A decisão política de trazer a Educação Integral como estruturante para a rede […] cria condições concretas de permanência do aluno”, explica Cláudia Cristina Santos.
A alimentação também pesa no orçamento, já que o município não tem receita própria e depende exclusivamente de repasses de recursos, como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), o Programa Nacional de Alimentação Escolar e o Programa Nacional de Transporte Escolar.
Apesar das limitações financeiras, o Programa Escola em Tempo Integral federal ajudou a estruturar as escolas e o município executou todo o repasse do primeiro ciclo da política.
Para Erivelton, a chave do sucesso está na construção coletiva. “Conseguimos avançar por causa da participação de todo mundo. As pessoas se viram parte dessa proposta, isso gera pertencimento. E ver o resultado de algo que ajudou a construir aumenta a responsabilização e a colaboração”, afirma.
Cláudia destaca outro pilar fundamental que tornou possível todo o trabalho: “A decisão política de trazer a Educação Integral como estruturante para a rede, assegurando investimentos, alimentação de qualidade, contratação e formação, cria condições concretas de permanência do aluno”.
Programa Escola em Tempo Integral: datas, informações e documentos para o planejamento do ano