publicado dia 15/09/2017

Relatório aponta que crianças usam o brincar como forma de resistir às situações de crise

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“O brincar permite que as crianças possam encontrar magia e beleza para enfrentarem situações de conflito e privação de direitos. Criar as condições para que elas possam brincar é garantir sua sobrevivência”.

A jornalista viajou para a Reunião Internacional da IPA a convite do Project Dirt, por meio do Dia de Aprender Brincando, campanha global coordenada no Brasil pela Associação Cidade Escola Aprendiz.

Essa é conclusão apresentada por Sudeshna Chaterjee, coordenadora da Action for Children’s Environments, organização indiana que tem como foco garantir o direito à infância no país sobre o estudo “O Acesso ao Brincar em Situações de Crise” (Access to Play in Crisis), disponível apenas em inglês, lançado nesta quinta-feira 14, em Calgary, no Canadá.

Segundo a pesquisadora, o levantamento – conduzido em seis países pela Associação Internacional do Brincar (IPA) – aferiu que as crianças, por meio do brincar, aprendem a manejar as tensões cotidianas e a escapar de suas dificuldades diárias.

Realizada entre novembro de 2016 e março de 2017 com a colaboração de organizações locais especializadas em infância na Índia, Japão, Líbano, Nepal, Tailândia e Turquia, a pesquisa combinou diferentes metodologias: observação de crianças, de atividades lúdicas e entrevistas com pais, governos locais e organizações sociais responsáveis pelo atendimento às crianças.

Foram 13 polos de pesquisa organizados em três grupos temáticos: comunidades afetadas por desastres naturais, comunidades em crise humanitária – como os refugiados sírios no Líbano e a minoria étnica Roma em Istambul – e comunidades em crises  diárias, mobilizadas por situações de extrema pobreza e vulnerabilidade. Mais de 300 crianças foram entrevistadas em três grupos etários: até 10 anos, de 11 a 14 e de 15 a 18.

Por meio do brincar, as crianças aprendem a manejar as tensões cotidianas e a escapar de suas dificuldades diárias

Entre os achados, a pesquisa identificou como o brincar mitiga os efeitos de crises locais e garante à criança repertório para lidar com as diversas violações de direitos pelas quais passam.

O estudo buscou sistematizar as formas de brincar das crianças e as diferenças destas entre as faixas etárias e gênero, além do papel das organizações e governos em garantir as condições para o brincar em situações adversas.

“Nós sabemos que o brincar é fundamental para o desenvolvimento das crianças, mas nós precisávamos entender o papel desta prática em apoiar as crianças em situações de crise e o que de fato é feito pela sociedade, organizações sociais e governos nessas situações. Descobrimos que essa força coletiva para a promoção do brincar é fundamental para a efetivação do direito”, explica Theresa Casey, presidente da Associação Internacional do Brincar (IPA).

O estudo identificou que mesmo em situações de risco e com baixíssimas condições, as crianças criam formas para brincar, como uma necessidade intrínseca e como uma manifestação de suas culturas.

“O brincar essencialmente permite que estas crianças encontrem espaços de felicidade. Não é apenas resiliência, mas uma forma de sobreviver às situações adversas”, explica Khemporn Wirunrapan, que coordenou o estudo na Tailândia.

Crianças brincando em Calcutá

Crédito: BBC UK

Como garantir as condições para o brincar?

Como achados comuns entre os territórios, percebeu-se que as crianças menores brincam perto de casa mesmo quando o entorno apresenta situações de maior risco que espaços mais afastados.

“O brincar permite que estas crianças encontrem espaços de felicidade. Não é apenas resiliência, mas uma forma de sobreviver”, explica Khemporn Wirunrapan

“Os pais acreditam que este é o espaço mais seguro pois, de alguma forma, eles estão perto. Percebemos que a ideia de risco é muito diversa e está essencialmente conectada à percepção parental”, explica Sudeshna.

Outro ponto comum é que, quando chegam à idade média de 7 anos, as crianças começam a criar subterfúgios para escapar da supervisão parental e buscam espaços em que possam ter maior liberdade de brincar coletivamente.

Além disso, na maior parte dos países, encontrou-se uma diferença de gênero importante. Meninas adolescentes encontram muito menos espaço para brincar, e quando o fazem normalmente brincam com crianças muito mais novas.

“Meninas têm pouquíssima autorização para brincar, tanto pelo fato de que ingressam no trabalho desde cedo, quanto pelo fato de que culturalmente têm menor liberdade para ir para espaços mais afastados da supervisão dos adultos”, comenta a pesquisadora indiana.

As comunidades mais pobres foram os espaços que encontraram mais crianças em situações livres de brincar, especialmente na Tailândia e na Índia.

A pressão pelo sucesso acadêmico no Japão e Turquia foram apresentados como grandes limitadores para a atividade infantil. “Os conflitos e desastres não são os únicos limitadores – há diferenças culturais e sociais importantes”, identifica Sudeshna.

Em diálogo com a pesquisa, a Associação produziu um kit de ferramentas sobre como promover o brincar em situações de crise. Por ora apenas disponível em inglês, o material tem a expectativa de ser utilizável em diferentes situações de conflito.

Estudos de caso

Fronteira com o Burma, Tailândia

O estudo tailandês se baseou nas comunidades no norte do país, que reúne população migrante de Burma em condições de extrema vulnerabilidade – muitos se encontram em situação de trabalho análogo à escravidão. Existem muitas crianças em situação de trabalho infantil e que são normalmente trancadas para  evitar que brinquem.

No entanto, o levantamento constatou que, mesmo nessas condições, as crianças criam situações para brincar – recolhendo dejetos e lixo para transformá-los em brinquedos, usando construções abandonadas como carros, casinhas e espaços de faz de conta, etc.

“Muitos escapam de  restrições parentais para ir para lugares abandonados ou com grande risco para brincar livremente sem supervisão adulta. Para eles, estes espaços são  tidos como muito especiais, pois permitem que eles possam imaginar e criar seus próprios universos”, explica Khenmporn.

Pais, na medida do possível, tentam apoiar o brincar das crianças e reconhecem a importância deste. “Um exemplo foi de um menininho que reuniu sucatas para criar seus instrumentos musicais. O pai viu o que o garoto fez e construiu uma caixinha de madeira para que o pequeno pudesse guardar os objetos. O garoto ficou numa alegria tremenda, vendo seu pai reconhecer que aqueles materiais eram seus tesouros, seus brinquedos”.

Calcutá, Índia

Um dos polos de pesquisa foi uma comunidade em extrema vulnerabilidade na linha de trem que segue o Rio Ganges e que há mais de 150 anos segue sem acesso à água potável ou saneamento. Lá, crianças brincam em espaços inseguros e precários, com muitos riscos, já que os trilhos, rio e estrada são os principais espaços frequentados.

Para os pais, a linha do trem é ainda o lugar mais seguro, pois ali conseguem observar as crianças. Desde pequenas, as crianças aprendem a ouvir o trem e sentir a movimentação dos trilhos para saber se o veículo está chegando, inclusive ficando descalças nos trilhos para sentir os movimentos com maior precisão – e o ensinamento é passado de uma criança para outra.

Quando com seis, sete anos, as crianças sentem a necessidade de ficar longe da supervisão parental e migram para as margens do rio para brincar. Entre as brincadeiras, há uma enorme quantidade de faz de conta, em que as crianças se imaginam em diferentes situações na beira do rio. Crianças são excelentes nadadoras, e frequentemente constroem barquinhos para navegar o rio. Novamente, elas aprendem a nadar umas com as outras.

As crianças que trabalham na beira da estrada brincam enquanto o fazem: os itens que vendem se tornam brinquedos e é comum vê-las brincando sozinhas e entre si ao mesmo tempo em que trabalham. O trabalho doméstico também é uma realidade presente e que afeta especialmente as meninas. Quando pequenas, elas só podem brincar quando terminam as tarefas domésticas, e quando mais velhas só podem se dedicar a elas.

Grande Leste, Japão

A pesquisa avaliou o brincar após os impactos do terremoto e tsunami que atingiu o país em 2011, matando quase 12 mil pessoas e deixando quase 3 mil desaparecidos. “Aos dez anos, um de nossos entrevistados contou que usava os escombros do terremoto como bolas para chutar. Com essa ação, segundo ele, ele podia “cuspir” sua raiva do acontecido”, explica Isami Kinoshita, coordenador do estudo no país.

Muitos dos espaços que eram anteriormente utilizados pelas crianças viraram acampamentos provisórios, modificando a cultura local do brincar. Por isso, voluntários e governo locais se mobilizaram para criar espaços temporários de brincar.

A organização Save the Children, por exemplo, criou um centro de brincar para as crianças, construído em intenso processo participativo, em que elas ajudavam a construir o desenho e funcionalidades do equipamento.

Contudo, dado o tamanho da destruição, os espaços se mostraram insuficientes e muitas das crianças relataram ausência de espaço para brincar e restrição de sua mobilidade. “Perguntamos às crianças por que achavam brincar importante e uma delas nos falou: é assim que conseguimos imaginar que tudo é diferente, que ainda temos a nossa cidade, e que podemos fingir que estamos em uma floresta ou em um acampamento e que as coisas podem ser  diferentes”, narrou Isami.

Como o brincar com a natureza estimula o desenvolvimento das crianças