publicado dia 20/12/2017

“Os neuromitos nos fazem pensar que em educação mais é sempre melhor”

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A crise atual da educação é uma crise de atenção, pois a ausência desta última impossibilita o aprendizado. A conclusão de Catherine L’Ecuyer, autora do livro Educar na curiosidade: a criança como protagonista de sua educação (Edições Fons Sapientiae), confronta aquilo considerado por muitos uma armadilha do mundo moderno: a busca constante e cada vez mais precoce pelo estímulo infantil.

“A criança curiosa torna-se então passiva, pois está sempre na expectativa de motivação externa, procurando sensações novas e cada vez mais rápidas, caminhando entre o estado de inquietação e tédio”, critica Catherine.

Em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral, a especialista canadense radicada em Barcelona falou sobre como a atenção e a curiosidade se relacionam com o desenvolvimento integral do indivíduo e o território, neuromitos, aparatos digitais, entre outros pontos.

Centro de Referências em Educação Integral: A senhora diz que sem atenção não há aprendizagem e que a verdadeira atenção nasce em contato com a realidade. Um caminho seria deslocar a educação da sala de aula para o território, para a cidade?

Catherine L’Ecuyer: As crianças aprendem em contato com a realidade. Os mais recentes estudos em Neurociência nos mostram que elas não aprendem por meio de longos discursos e explicações conceituais, mas por meio dos cinco sentidos. É por isso que nos queixamos de que nossos filhos não nos ouvem. Madre Teresa de Calcutá nos responde sabiamente: “não se preocupe porque eles não te ouvem, eles olham para você o dia todo”. Portanto, temos que nos perguntar “que experiência estou dando aos meus filhos?”. Aquilo que fazemos e o olhar que temos para o mundo faz muito mais sentido para eles do que o que lhes dizemos que podem ou não fazer. E eles aprendem mil vezes mais vendo, cheirando e tocando uma galinha do que assistindo-a em um tablet ou pintando-a em um papel sem poder “sair das linhas”.

O bombardeio de estímulos e consumismo aborrece os sentidos e tira a sensibilidade, a empatia das crianças

CR: Quais são as principais armadilhas para a atenção e a curiosidade das crianças?

CL: Os neuromitos nos fazem pensar que em educação “mais é sempre melhor” e que temos que bombardear nossos filhos com estímulos contínuos durante todo o dia e em todas as idades. A OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] e vários estudos publicados em revistas de primeiro nível nos dizem claramente que isso não é verdade. Mas este mito ainda é generalizado por três razões.

1) Existe uma indústria que alimenta esse mito: livros e brinquedos falantes, aplicativos supostamente concebidos para melhorar nossa inteligência, métodos comportamentais, como a estimulação precoce que tem sido usada como ferramenta de marketing por um longo tempo em diversas escolas, etc.

2) Estudos científicos denunciam claramente os neuromitos como tal, mas a divulgação é difícil, a grande maioria dos professores e pais acredita neles porque os estudos não chegam à rua.

3) Vaidade humana! Huxley disse que “é mais fácil acreditar em uma falsidade excitante do que em uma verdade sem interesse”. Somos humanos e limitados, é uma verdade sem interesse. Que nossos filhos possam se tornar o próximo Einstein, essa é uma mentira excitante. Tentador, não é?

CR: Por que temos uma geração que parece se entendiar com facilidade, além de ser mais sensível à hiperatividade?

CL: O estímulo sensorial ao qual as crianças estão hoje submetidas substitui sua curiosidade inata. Então, a criança curiosa torna-se passiva, está sempre na expectativa de motivação externa, procurando sensações novas e cada vez mais rápidas e caminhando entre o estado de inquietação e tédio. Passa a procurar ritmos cada vez mais rápidos para satisfazer essa sede de velocidade a que se acostumou ao ver os conteúdos audiovisuais. O bombardeio de estímulos e consumismo aborrece os sentidos e tira a sensibilidade, a empatia.

CR: A senhora diz também que a multitarefa é uma grande inimiga da atenção. No entanto, o mundo moderno parece exigir cada vez mais esse perfil de pessoa. Como superar essa contradição?

CL: O mundo moderno procura pessoas flexíveis e capazes de se adaptarem às mudanças, não desatentas e distraídas. Pessoas multitarefa, que prestam atenção a mais de uma função que requer informações de processamento, são uma utopia. Por que? Quando tentamos, não fazemos as tarefas em paralelo, mas no modo sequencial. Nós oscilamos entre todas elas. E nessa oscilação, perdemos eficácia, há mais erros e mais superficialidade. E perdemos o sentido da relevância da informação, nos tornamos apaixonados pela irrelevância. Não consigo imaginar que uma empresa esteja procurando um perfil de empregado com essas características.

CR: Essa falta de atenção e sentido se estende aos adultos? Por exemplo, podemos aplicar esse diagnóstico também aos professores?

CL: Claro. É uma grande tentação para todos os adultos. Na verdade, acontece a todos nós quando temos os olhos colados no celular. E quando as crianças nos vêem fazendo isso, então elas percebem nosso olhar desatento. As crianças querem que nós as escutemos com os olhos e não apenas com os ouvidos. Eles precisam de toda nossa atenção.

Os gestores de empresas de tecnologia nos EUA enviam seus filhos para escolas que não usam telas, porque não consideram necessário que seus filhos as utilizem na escola

CR: Quais são algumas práticas que favorecem a atenção que os professores podem empregar com seus alunos, considerando que as condições nas escolas públicas nem sempre são ideais e os docentes enfrentam questões como a superlotação das salas?

CL: É importante que os professores não se tornem animadores de espaços de recreação. Isto é, que os alunos não dependam de que os professores estejam continuamente motivando o grupo – falando muito e alto. A classe deve ser um ambiente silencioso, o professor deve falar o necessário e com a voz mais baixa possível. Os alunos devem ter momentos de silêncio, pontos de concentração, durante os quais eles trabalham na resolução de problemas por conta própria.

Nas classes que utilizam o método de Montessori, por exemplo, há um silêncio impressionante que não é alcançado pela imposição de punições e recompensas, mas é o resultado da sede das crianças em conhecer e trabalhar. As crianças devem trabalhar em uma coisa de cada vez, os limites devem ser muito claros e deve haver alguma liberdade dentro desses limites.

CR: A senhora defende que as crianças não deveriam ter contato com telas até 2 anos e um contato reduzido até os 5. Essa ausência não pode interferir negativamente em uma futura adequação ao mundo digital?

CL: A Academia Americana de Pediatria e a Associação Pediátrica Canadense dizem que as crianças não devem ser expostas a qualquer tela antes de 2 anos e que devem ver menos de uma hora de tela de 2 a 5 anos, porque os estudos apontam para efeitos prejudiciais, tais como desatenção, impulsividade, diminuição do vocabulário, etc. É um problema de saúde neurológica, portanto. Por outro lado, não há estudos que demonstrem os benefícios da tecnologia na infância.

Devemos lembrar que os gestores de empresas de tecnologia nos EUA enviam seus filhos para escolas que não usam telas, porque não consideram necessário que seus filhos as utilizem na escola. Para usar esses dispositivos, devemos ter desenvolvido uma série de qualidades, virtudes, como força, temperança, sensação de intimidade, etc. Essas qualidades não se desenvolvem com o dispositivo nas mãos. A melhor preparação para o mundo digital é o mundo real, o mundo offline.

A curiosidade como ponto de partida para a aprendizagem