publicado dia 09/04/2026

Vida Palmarina: podcast reconstrói o cotidiano do Quilombo dos Palmares para imaginar outros futuros

Reportagem: | Edição: Tory Helena

🗒 Resumo: Conheça o podcast Vida Palmarina, disponível gratuitamente em diversas plataformas digitais, que mostra o cotidiano, a cultura, economia e organização social e política do Quilombo dos Palmares e apresenta aos estudantes outros modos de organização da vida.

Na região serrana do atual estado de Alagoas, em uma área de mata tropical densa, repleta de palmeiras e sons de riachos e passarinhos, existiu o maior quilombo de toda a América Latina, o Quilombo dos Palmares. 

Ocupando quase toda a extensão de Alagoas, Angola Janga, como era chamado pelos palmarinos, chegou a abrigar aproximadamente 20 mil pessoas, número superior à maioria (70,6%) das cidades brasileiras hoje.

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De seus 100 anos de resistência, conhecemos mais sobre seu principal objetivo, acolher escravizados que conseguiram fugir e enfrentar os colonizadores, e um de seus líderes expoentes, Zumbi. 

O que é menos conhecido, embora igualmente relevante, é que uma de suas fundadoras é uma mulher, Aqualtune, princesa do Congo escravizada no Brasil, e que o quilombo abrigava todos os oprimidos, como indígenas, escravizados libertos e inclusive brancos pobres, que após tentar atacar o quilombo, descobriam que seu modo de vida oferecia muito mais dignidade do que a colônia.

“Lá, não havia fome, as pessoas eram acolhidas, podiam crer no que fosse e não havia propriedade privada. O que se plantava e colhia era distribuído ou trocado com vizinhos”, conta Tatiana Nascimento, pesquisadora, produtora cultural e idealizadora do podcast Vida Palmarina.

Lançado em 6 de abril pela Janga e a Central 3, a produção vai abordar o modo de vida, cultura, costumes e o cotidiano do Quilombo dos Palmares ao longo de cinco episódios semanais.

“Pouco se fala sobre como o quilombo permaneceu vivo e ativo, sobre como era a vida lá e a importância, por exemplo, das mulheres e das pessoas mais velhas, que tinham cadeira cativa principalmente nas decisões”, conta Jéssica Moreira, jornalista, escritora e roteirista do podcast.

Jéssica visitou o atual Parque Memorial Quilombo dos Palmares, no alto da Serra da Barriga, em Alagoas. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o parque recria o ambiente do quilombo. 

Em um relato nas redes sociais sobre a visita, a jornalista conta como foi estar à sombra da gameleira branca e ao lado da lagoa que assistiram a estes heróis nacionais preparar suas armas e lutar, mas também festejar, amamentar, descansar e viver uma vida radicalmente diferente da desejada pelos colonizadores.

“Eu tive uma emoção diferente em Palmares. Não veio no choro. Veio em um grande acolchoado de calma e tranquilidade. Diferente de lugares resquícios da escravidão. Tocar a Lagoa Encantada dos Negros foi uma espécie de batismo. No Brasil, Irôco é o orixá da gameleira branca e representa o tempo. É esta árvore que alimenta a lagoa de água. E neste espaço caminharam e banharam pessoas que lutaram por liberdade. Uma árvore é a maior guardiã da memória deste local – ela tudo assistiu e testemunhou […] Vamos (e precisamos) fazer Palmares de novo”, afirmou Jéssica no relato.

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Jéssica Moreira, à sombra da gameleira branca, em frente ao Lago dos Negros.

Crédito: Jéssica Moreira/Acervo pessoal

Para os estudantes, esta é uma perspectiva fundamental. Os livros de história tradicionalmente apresentam a história negra no Brasil a partir do ponto de vista dos sofrimentos da escravização, o que permite compreender os prejuízos para a população que perduram até os dias de hoje. Mas conhecer a resistência e o modo de pensar e viver o mundo no quilombo, dá às juventudes a oportunidade de projetar novos futuros.

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O símbolo Adinkra para representar o conceito Sankofa.

“A grande importância de Palmares é colocar no nosso imaginário essa forma de estar no mundo. Não é só uma inspiração, um modelo a partir do qual podemos partir, mas também uma prova de que é possível viver de outros jeitos, e não como tem sido, sem tempo para nada, sem tempo para viver. Como seria nossa vida se o movimento dos quilombos e dos indígenas tivesse vencido sobre o projeto colonial?”, questiona Tatiana. “Precisamos trazer o passado para projetar o futuro, que é o significado do Adinkra Sankofa”, acrescenta.

O que o podcast aborda? 

Em cinco episódios, Vida Palmarina vai contar sobre a história da formação do quilombo, no final da década de 1590, e sua estrutura política e econômica, o papel das mulheres, a relação com a natureza.

Também conta sobre a atuação de pessoas fundamentais para essa sociedade, como Aqualtune, considerada fundadora do quilombo, Ganga Zumba, que consolidou a política do território e, claro, Zumbi, liderança símbolo da resistência contra a escravização.

No primeiro episódio, também relacionam a cultura Bantu, presente na região centro-africana, de onde vieram os primeiros escravizados, com manifestações culturais atuais, ou atuais quilombos, como os blocos afro, rodas de Jongo, associações de capoeiristas, tinhas de MC, entre outras. 

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O mirante da Serra da Barriga, onde ficava o Quilombo dos Palmares.

Crédito: Thalita Chargel

Para recriar essa história, o podcast conta com as contribuições de Danilo Marques, historiador e pesquisador na Universidade Federal de Alagoas e um dos responsáveis pelo parque memorial, e Zezito Araújo, historiador, um dos fundadores da Fundação Palmares e ativista dos movimentos negros. 

Também Joelson Ferreira, um dos fundadores do Movimento Sem-Terra, a pesquisadora Mariléa de Almeida, que estuda os quilombos hoje, Bebel Nepomuceno, jornalista da Casa Sueli Carneiro, e suas colegas de profissão Marina Lourenço e Taiguara Ribeiro, que foram visitar vários quilombos brasileiros.

“Precisamos recuperar nossa história para que ela seja cada vez mais mais presente. Olhar para o Quilombo dos Palmares para além de sua derrota, faz com que a gente sinta muito orgulho da nossa história”, diz Jéssica.

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