publicado dia 12/06/2019

Pedagogia de Emergência ajuda educadores a criarem laços com estudantes

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Publicado originalmente na Fundação Telefônica. A autoria é de Patrícia Agusti

Mais do que um lugar onde se ensinam lições de matérias como Português e Matemática, a escola também pode ser um ambiente de acolhimento em uma sociedade exposta à violência constante. A Pedagogia de Emergência abre espaço para evitar sequelas em quem lida direta ou indiretamente com traumas e torna-se um caminho para educadores adotarem práticas que ajudem a dialogar e criar um laço de confiança com estudantes.

Criada pelo professor alemão Bernd Ruf, de 62 anos, a metodologia utiliza princípios da pedagogia Waldorf e defende a utilização de recursos artísticos e de expressão corporal para lidar com situações extremas.

“São atividades pedagógicas com viés terapêutico que visam reativar as forças vitais que existem no próprio corpo e são oferecidas pelos conhecimentos da Pedagogia Waldorf, que tem sua origem na ciência antropológica e antroposófica”, explica Paulo Roberto Vicente, pedagogo, gestor de projetos e cofundador da instituição Associação da Pedagogia de Emergência.

As ações, voltadas a fortalecer a resiliência em crianças e jovens, são desenvolvidas após eventos traumáticos como catástrofes naturais, violência física e emocional ou no auxílio a pessoas em situação de vulnerabilidade social.

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“Um evento considerado traumático em potencialidade pode gerar uma escala de desenvolvimento que encaixamos em quatro fases: aguda; sintomas de estresse pós-traumático; patologias relacionadas e mudança de personalidade. A Pedagogia de Emergência atua na segunda fase, onde os sintomas aparecem”, explica a Vicente. “As demais fases têm a mesma base de conhecimento, entretanto, exigem estruturas e ritmos de atuação diferenciados”, complementa.

Em uma década, já ocorreram mais de 50 intervenções utilizando o método em países como Líbano, Nepal, Filipinas, Equador, Curdistão/Iraque, Faixa de Gaza, Quênia, Bósnia, entre outros.  As ações internacionais têm apoio da instituição Amigos da Arte de Educar, da Alemanha, país de origem da metodologia.

Ações no Brasil

A Pedagogia de Emergência chegou ao Brasil em meados de 2012, quando o preparador físico e terapeuta social Reinaldo Nascimento, cofundador da Associação ao lado de Paulo Roberto Vicente, se uniu a outros profissionais interessados em estruturar atuações.

Ele já declarou que é mais fácil trabalhar a metodologia em lugares como o Iraque, pois no Brasil, devido ao alto índice de violência urbana, costuma-se ter espaço para atuação na quarta fase do trauma, quando as ações de prevenção não são mais eficientes.

O grupo de pedagogos e terapeutas também atua em outros tipos de situações de emergência, a exemplo de deslocamentos forçados devido à crise humanitária na Venezuela. Em março de 2019, a Pedagogia de Emergência foi aplicada com refugiados em Pacaraima, em Roraima.

Ali fica a porta de entrada dos cerca de 100 mil venezuelanos que, estimam órgãos internacionais como a ONU, já tenham cruzado a fronteira para o território brasileiro. Sem tempo para um processo organizado de adaptação, situações como xenofobia, brigas e dificuldade de adaptação são comuns.

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“Trabalhamos os tipos de trauma, suas características e fases e apresentamos formas de, pedagogicamente, acompanhar as crianças e os jovens nos abrigos e espaços de educação. Além da parte teórica, oferecemos oficinas práticas, como aquarela, desenhos de forma, pedagogia da vivência e rodas de ritmo”, aponta o relato de Reinaldo Nascimento.

Infográfico detalha as quatro fases do trauma, segundo a Pedagogia de Emergência. Texto da figura: 1ª fase: Aguda, ou de Choque. Aparecem as reações fisiológicas, como dor de cabeça e taquicardia. Dura de segundos até dois dias; 2ª fase: Estresse pós-traumático. Aparecem reações como medo e tristeza. Pode virar depressão, raiva e agressão a si mesmo e a outros. É comum episódios de flashbacks e dificuldade de concentração. Dura de 4 a 8 semanas;3ª fase: Doenças aparecem. Quando os sintomas descritos anteriormente não são tratados, pode ser desenvolvida uma doença mais séria; 4ª fase: Mudança de personalidade. Ocorre uma ruptura de personalidade. A pessoa se torna antissocial, depressiva ou agressiva. Pode criar vícios para sentir alívio.

 

A prática da Pedagogia de Emergência

O pedagogo Paulo Roberto Vicente afirma que é preciso maior apoio financeiro e de segurança para implementar a metodologia de forma sistêmica no Brasil: “no momento procuramos parceiros para atuações mais amplas. Nos dias atuais, levamos workshops aos lugares onde somos convidados”

No entanto, as escolas podem dar o primeiro passo observando quais elementos podem servir como construtores de resiliência, tanto no aspecto estrutural, quanto no conjunto de atividades oferecidas.

Os educadores e demais adultos podem atuar para o desenvolvimento integral da criança, não apenas no que é relacionado a metas de aprendizagem.

“De uma forma geral, são posturas e atitudes que o adulto desenvolve em si e que age nos sentidos básicos da criança, repercutindo positivamente em suas percepções de segurança, ânimo, alegria, proteção, dentre outras sensações e sentimentos, com grande potencial de cura e proteção”, resume Vicente.

O infográfico abaixo reúne ações para educadores, e até mesmo pais de estudantes, que devem ser praticadas diante de situações extremas, como a ocorrida em uma escola de Suzano (SP) ou até mesmo na tragédia de Brumadinho (MG).

Infográfico descreve práticas da Pedagogia de Emergência. Texto da imagem: Procure perguntar: "Como é que vocês estão hoje? Como estão se sentindo?"; As piadas podem ser um forma de colocar o tema para fora. É preciso acolher, mas solicitar respeito às vítimas e ao sofrimento do outro; Ressalte que o fato aconteceu em um outro contexto, diga que "podemos ficar abalados, com medo, mas juntos estamos seguros; Oriente também as crianças e os jovens a não compartilharem imagens de tragédias em redes sociais; Aconselhe familiares e responsáveis a não mostrar imagens do ocorrido às crianças; Mostre-se disposto a escutar e acolher as angústias e procure seguir para a atividade planejada; Crie espaço para que crianças e jovens possam se expressar durante as atividades do dia. Fonte: Reinaldo Nascimento, educador da Associação da Pedagogia de Emergência

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