publicado dia 29/09/2026

O que pensam os presidenciáveis sobre Educação Integral e tempo integral nas escolas

Reportagem: | Edição: Tory Helena

🗒️ Resumo: Conheça as propostas para a Educação Integral, tempo integral, infâncias e juventudes e equidade de quatro presidenciáveis: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD).

A escola de tempo integral chegou à eleição de 2026 como consenso. Embora a jornada escolar ampliada esteja presente em todos os planos de governo dos presidenciáveis com maior projeção nas pesquisas eleitorais, atualmente Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Lula (PT) e Ronaldo Caiado (PSD), a concepção de Educação, infância e juventude que pauta o papel da escola difere entre eles. A referência à Educação Integral como concepção educacional também está ausente dos planos de governo analisados. 

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“O debate sobre o tempo integral quase sempre aparece sem mudanças na forma de pensar a formação integral dos estudantes. E falta coerência entre a defesa da ampliação da jornada e a definição de como vai garantir e funcionar o tempo integral”, aponta Catarina de Almeida Santos, professora na Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB).

A especialista lembra que a Educação Integral também pode acontecer na jornada parcial, e diz respeito a desenvolver os sujeitos em todas as suas dimensões: cognitiva, emocional, física, social, política e cultural. Ou seja, para a Educação Integral, todo mundo tem direito a se desenvolver por inteiro: aprender conhecimentos, conhecer seu corpo e suas emoções, construir relações, acessar e produzir cultura, além de compreender o mundo e participar dele. 

Tudo isso também requer promover todos os seus direitos sociais e integrar diferentes equipamentos públicos, como Saúde, Assistência Social e os de Arte, Cultura e Esporte. 

“[A escola com Educação Integral] está conectada aos temas que atravessam a sociedade brasileira, como a emergência climática e o racismo. E que considera os diferentes grupos, territórios, comunidades, olhando a vida para além do espaço escolar, como as condições da vida familiar e comunitária”, acrescenta Catarina Santos. 

Claudia Bandeira, representante da Ação Educativa na coordenação executiva da Plataforma Dhesca Brasil, observa que há nos planos de governo dos presidenciáveis a presença de perspectivas educacionais voltadas para o empreendedorismo e a Educação Financeira, com brechas privatizantes, como vouchers e parcerias entre Estado e empresas privadas. 

“São perspectivas muito limitadas do tempo escolar e pouco preocupadas com as agendas da Educação Integral, como o território, intersetorialidade, interseccionalidade”, define Claudia, da Ação Educativa. 

No caso do plano de governo proposto por Lula (PT), embora também não haja menção à concepção de Educação Integral, Beatriz Benedito, analista de políticas públicas no Instituto Alana e representante da Agenda 227, identifica um conjunto de ações e estratégias que podem dar sustentação à escola de Educação Integral em tempo integral, como o cumprimento do Plano Nacional de Educação (PNE) e o compromisso com a intersetorialidade.

“Até aqui, tivemos a ampliação de acesso ao tempo integral. Agora, precisamos aprimorar a qualidade das trajetórias escolares”, defende Beatriz.

Outro ponto é que temas como gênero, raça e interseccionalidade aparecem de forma marginal nos programas, segundo Cláudia. Ela observa que, entre os 12 planos apresentados até agora, apenas dois tratam de gênero, e que a agenda racial aparece em sete deles, sendo que em dois pela via da redução de direitos, com propostas de exploração econômica de terras indígenas e de substituição das cotas por bolsas por mérito. O combate ao racismo aparece em cinco programas, e a população LGBTQIAPN+, em três.

Beatriz Benedito cobra que essa pluralidade apareça de forma explícita no planejamento para os próximos quatro anos.

“Estamos em um país avançado na discussão das questões étnico-raciais e na inclusão de crianças com deficiência nas escolas regulares. Como garantir que essas crianças continuem sendo prioridade absoluta na transformação do nosso país?”, questiona. 

Para Catarina Santos, isso depende da democratização da escola, a integração curricular, o enfrentamento das violências raciais e de gênero, a desmilitarização e a proteção de dados de estudantes e profissionais da Educação em uma escola cada vez mais plataformizada, desde o controle de frequência ao reconhecimento facial e os circuitos de câmeras.

“A escola não tem capacidade técnica, jurídica, tempo e formação para lidar com rastreabilidade dessas big techs, que quase ninguém controla. Como a escola vai fazer isso? O ECA Digital foi aprovado, mas os planos não dizem como desenhar as políticas que podem efetivá-lo”, aponta a professora.

O que ficou de fora dos planos de governo dos candidatos

Em outubro de 2025, o Brasil aprovou seu Sistema Nacional de Educação (SNE). Em março, o PNE para a próxima década. Agora, municípios e estados se dedicam a construir seus próprios planos de Educação, ao mesmo tempo em que criam ou revisam as políticas locais de Educação Integral em tempo integral, de acordo com a Resolução 7 do Conselho Nacional de Educação (CNE).

“O momento é estratégico para consolidar as conquistas dos últimos anos e reposicionar a Educação diante dos desafios da próxima década”, diz Beatriz.

Diante do cenário, Claudia afirma que há uma lacuna determinante nos planos de governo.

Eleições 2026: como acessar a íntegra dos planos de governo
Todos os planos de governo dos candidatos à presidência estão disponíveis no site Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais – Eleição Geral Federal 2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os documentos registrados são públicos. Para localizá-los, acesse divulgacandcontas.tse.jus.br
Clique na seção “Brasil”. Em “Candidaturas”, selecione a opção “Cargo” nas opções de busca e, a seguir, “Presidente”. Clique em “Pesquisar”.
Será aberta uma aba com os nomes de todos os postulantes ao cargo de presidente em 2026. Clique no nome do candidato para abrir o perfil com todas as informações divulgadas ao TSE. Desça a tela e encontre a aba “Propostas” para baixar e acessar o plano de governo informado pelo candidato.  

“O PNE passado não foi cumprido por causa da limitação de recursos impostos pela EC 95, que congelou gastos públicos em áreas sociais. Então, as propostas econômicas dos candidatos são fundamentais para viabilizar a Educação. A defesa de políticas de austeridade aparece nos planos de Caiado e Bolsonaro, com propostas que visam o enxugamento do Estado e corte e congelamento nas áreas sociais”.

Catarina acrescenta a ausência de estratégias para melhorar a infraestrutura das escolas e, sobretudo, para valorizar quem faz a escola funcionar. “Cada vez mais se reduz o número de professores no Brasil, a carreira está cada vez mais desprestigiada”, afirma.

A concepção de Educação nos planos de governo

As propostas dos candidatos para o tempo integral, as infâncias e juventudes, formam uma composição que denota a concepção de Educação que cada plano de governo tem, tanto em relação à formação dos estudantes, quanto no papel da escola diante da sociedade.

No caso de Flávio Bolsonaro, Claudia destaca a adoção do método fônico para alfabetizar na idade certa, metas vinculadas a rankings de avaliações externas de larga escala, e uma perspectiva meritocrática da Educação, reforçada pelo Programa Acolher, que prevê remunerar alunos com bom desempenho para dar reforço aos colegas, e pela proposta de voucher educacional. 

“No conjunto, percebemos uma agenda mais privatizante e uma perspectiva meritocrática da Educação”, descreve Claudia.

Sobre Augusto Cury, que propõe transformar a escola em um “clube de desenvolvimento humano”, Claudia resume: “ele traz um foco na gestão de emoções na escola na perspectiva do empreendedorismo”.

Catarina vê no plano de Cury uma organização em torno da saúde mental das crianças e adolescentes, com prevenção da ansiedade, da automutilação e do suicídio, mas avalia que o horizonte pautado na lógica do individualismo. 

“Para Cury, inclusão tem a ver com neurodivergência. Tem a ver com individualismo, com preparar para o mercado e o empreendedorismo. Escola, para Cury e Bolsonaro, não é espaço para transformação, emancipação e formação política, que não é partidária”, afirma.

Nos casos de Bolsonaro, que propõe a ampliação das escolas cívico-militares, e de Ronaldo Caiado, que defende a redução da maioridade penal para 16 anos, Catarina critica: “Falam o tempo todo de Segurança Pública junto com Educação, como se uma dependesse da outra. Não tem o humano, não veem estudantes como sujeitos e escola como espaço de formação desses sujeitos”. 

Para as especialistas, o plano de governo de Lula é o que mais se aproxima dos objetivos e metas estabelecidos pelo PNE, construído ao longo de anos com ampla participação da sociedade. Este, aprovado em março de 2026,  inclusive, foi o PNE que mais recebeu contribuições em toda sua história. 

“Lula está mais próximo do PNE, de uma perspectiva de escola como parte da rede de garantias de direitos, não é um plano de Educação privatizante, embora pudesse ter avançado mais na agenda de gênero e da desmilitarização das escolas”, avalia Claudia.

Para Catarina, o plano de governo de Lula prima por abordar os diferentes grupos étnicos, como indígenas e quilombolas, endereçar questões étnico-raciais, e pela forma como relaciona escola e avaliações. “Não é uma escola desenhada para índices. É uma escola que trabalha a formação integral, o que por consequência vai ter uma melhora nos resultados das avaliações. Não visa avaliar só o resultado e o estudante, mas todo o processo”, diz a especialista.

Confira, a seguir, uma síntese dos planos de governo dos presidenciáveis, em ordem alfabética, em relação à Educação e às propostas para as infâncias e juventudes. A reportagem manteve, sempre que possível, termos e formulações utilizados nos documentos. 

Tempo integral nas escolas

Defende a ampliação da jornada escolar.

Educação Integral 

O termo não aparece no plano de governo, que prevê transformar a escola em um “clube de desenvolvimento humano”, com espaços de oratória e debate, teatro, música, esporte, eventos culturais, práticas de elogio mútuo e convivência. Além das disciplinas tradicionais, o currículo incluiria três pilares: Gestão da Emoção, Educação Financeira e Empreendedorismo.

Equidade educacional

O plano propõe o Projeto Brasil Neuroinclusivo, política para acolher pessoas neurodivergentes, como autistas e pessoas com TDAH, dislexia, transtornos de aprendizagem e altas habilidades. Cada escola teria um Plano de Inclusão e Desenvolvimento, com adaptações pedagógicas conforme as necessidades de cada estudante, tendo a Metodologia Psicoativa, criada pelo presidenciável, como base. O projeto prevê ainda um Programa Nacional de Formação em Neurodiversidade e Gestão da Emoção para profissionais da Educação e uma Rede Neuroinclusiva em cada município, integrando escola, família, saúde e assistência social para facilitar a identificação precoce e o acompanhamento.

Avaliação da Educação

Não determina estratégias para avaliação da Educação, apenas cita que todo programa governamental deverá ser continuamente avaliado.

Propostas para as infâncias

Prevenção da ansiedade, da automutilação e do suicídio com programas de educação emocional, identificação precoce de fatores de risco, capacitação de profissionais da Educação e da saúde e apoio às famílias. Propõe também cobrar responsabilidade das plataformas digitais sobre conteúdos prejudiciais a esse público. Menciona ainda o Projeto de Lei Augusto Cury (PL 5815/2025), voltado à prevenção de predadores sexuais e à proteção da infância, com acompanhamento emocional e psicossocial anual de crianças por pediatras e médicos.

Propostas para as juventudes

O plano coloca a prevenção da ansiedade, da automutilação e do suicídio como prioridade, com educação emocional e cidadania digital nas escolas, identificação precoce de riscos, capacitação de profissionais da Educação e da saúde e apoio às famílias, envolvendo também a sociedade civil no enfrentamento do bullying e do cyberbullying. Prevê campanhas de conscientização sobre redes sociais e mais regulação das plataformas digitais sobre conteúdos nocivos. Propõe estimular o empreendedorismo com crédito, incubadoras de startups, parques tecnológicos e capacitação em inovação digital, inteligência artificial, economia criativa e negócios sustentáveis.

Tempo Integral nas Escolas

Apoia à ampliação da jornada, com atividades de reforço e formativas.

Educação Integral

O termo não aparece. Para a Educação, propõe a ampliação das Escolas Cívico-Militares, a prioridade ao método fônico na alfabetização e a criação do Escola nas Férias.

Equidade educacional

O plano propõe a criação do Programa Acolher, em que alunos com bom desempenho seriam remunerados para dar reforço aos colegas com dificuldade, e a oferta de um voucher educacional para ser usado pelas famílias em instituições privadas onde faltar vaga na rede pública.

Avaliação da Educação

A proposta prevê uma gestão educacional orientada por indicadores de resultado e proficiência, com repasses de recursos vinculados ao cumprimento de metas de aprendizagem, mas sem deixar de apoiar as regiões com mais dificuldades.

Propostas para as infâncias

Castração química de criminosos que abusam de mulheres e crianças e criação da Rede Nacional de Cuidado, com centros-dia e atendimento domiciliar em parceria com estados, municípios e organizações sociais.

Propostas para as juventudes

A proposta prevê ampliar o ensino técnico no Ensino Médio em parceria com empresas, que poderão custear bolsas, adequar o currículo às profissões do futuro e criar a Política Nacional de Formação de Talentos. Inclui ainda um empréstimo estudantil pago só após o ingresso no mercado de trabalho, com parcelas proporcionais ao salário; o Programa Escola de Campeões, voltado ao esporte competitivo nas escolas por meio de parcerias público-privadas, e um contrato de primeiro emprego para jovens de 18 a 24 anos, com menor custo na folha.

LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA – PT 
“O fomento à expansão da educação em tempo integral terá absoluta prioridade no novo mandato.”
– Plano de governo, página 31.

Tempo Integral nas Escolas

Prioriza a expansão da jornada ampliada nas escolas e cita o investimento feito desde 2023 no Programa Escola em Tempo Integral. 

Educação Integral

O termo não aparece no plano de governo e a concepção aparece restrita à expansão do tempo na escola. No atual governo, o MEC adotou o termo “Educação Integral em tempo integral”. 

Equidade educacional

Defesa das cotas raciais nas universidades e da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ). E assegurar que as políticas de educação escolar indígena estejam fundamentadas no respeito à autonomia dos povos indígenas, na interculturalidade, no multilinguismo e nas formas próprias de produção e difusão de conhecimentos. A educação inclusiva e a educação bilíngue de surdos continuarão recebendo apoio federal, e serão planejadas políticas e ações levando em conta as dimensões de gênero, identidade, orientação sexual, étnico-raciais e classe social assim como as demais desigualdades sociais.

Avaliação da Educação

O texto afirma que será pautado pelos objetivos do novo Plano Nacional de Educação (PNE) e firma compromisso com o cumprimento de suas metas.

Propostas para as infâncias

Compromisso com o enfrentamento da pobreza infantil, o acesso a políticas públicas e o direito ao brincar, mantém o combate à pedofilia como prioridade e promete reforçar a proteção digital com o aprimoramento do ECA Digital e a regulamentação de telas, jogos e plataformas.

Propostas para as juventudes

A proposta prevê ampliar para os jovens o acesso à Educação, lazer, cultura, esporte e desenvolvimento profissional, aprimorar o Pé-de-Meia, manter os investimentos nos cursinhos populares (CPop), ampliar a alimentação e a moradia estudantil no Ensino Superior e dar atenção à política de aprendizagem para o trabalho.

RONALDO CAIADO – PSD
“Priorizar escola de tempo integral, bibliotecas vivas, leitura, música, teatro, dança, audiovisual e patrimônio local.”
– Plano de governo, página 28.

Tempo integral nas escolas

O plano fala em ampliar vagas priorizando Educação Infantil, Anos Finais e Ensino Médio. 

Educação Integral 

Não menciona o termo, que se refere a uma concepção de Educação, mas detalha que o tempo adicional incluirá aprendizagem, esporte, cultura, projeto de vida, ciência e apoio aos estudantes. 

Equidade educacional 

O plano prioriza a Educação em tempo integral nos territórios vulneráveis e propõe aperfeiçoar os incentivos financeiros a estudantes de baixa renda com risco de abandono, vinculados à matrícula, à frequência e à conclusão, sem punir as famílias por falhas da oferta escolar e integrados à orientação, saúde mental e formação profissional. Prevê também uma política nacional de prevenção à violência nas escolas, com protocolos para ameaças, mediação de conflitos, equipes de apoio, proteção digital e articulação com as áreas de saúde e segurança, além de resposta precoce ao sofrimento emocional e ao bullying.

Avaliação da Educação

O documento fala em fortalecer Saeb, Ideb e avaliações formativas, bem como produzir indicadores de aprendizagem, equidade, clima escolar e trajetória, evitando rankings. Recursos e apoio serão direcionados às escolas com melhor avaliação.

Propostas para as infâncias

O texto propõe criar a Secretaria Nacional da Segurança da Mulher, da Criança e Minorias, vinculada ao Ministério da Segurança Pública, e tratar crianças e adolescentes como prioridade absoluta na prática, com orçamento identificado, metas, integração de dados e serviços entre segurança, Educação, saúde, assistência social, Justiça e conselhos tutelares, prevenção de violências e acompanhamento da gestação até a entrada no mercado de trabalho. Prevê ainda consolidar em lei regras de responsabilidade, transparência e direito a recurso, preservando os princípios do Marco Civil da Internet.

Propostas para as juventudes

O plano defende a aprovação da PEC que reduz a maioridade penal para 16 anos e, ao mesmo tempo, propõe tratar crianças e adolescentes como prioridade absoluta, com orçamento identificado, metas, integração de dados e serviços, prevenção de violências e acompanhamento da gestação até a entrada no mercado de trabalho. Prevê ainda consolidar em lei regras de responsabilidade, transparência e direito a recurso, preservando os princípios do Marco Civil da Internet.

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