publicado dia 05/09/2013

Modelos de avaliação educacional devem fortalecer a formação dos estudantes

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A avaliação ainda é um dos maiores desafios dos processos de aprendizagem em todo o mundo. Essa é a conclusão a que chegaram especialistas em educação reunidos no Seminário Internacional de Avaliação Educacional, que aconteceu de 24 a 27 de agosto na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP).

Com mesas sobre o contexto mundial das avaliações educacionais e como a formação docente se reflete nesses processos avaliativos, o seminário da FE-USP contou com professores do Brasil e também de Portugal na análise dos modelos de avaliação existentes pelo mundo.

Para a professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, de Portugal, Manuela Terrasêca, muitas vezes, os bons índices apresentados por meio de provas externas são resultado de um processo de memorização de conteúdo disciplinar e não exatamente da formação intelectual do sujeito. “Esse tipo de qualidade [das escolas bem avaliadas] apenas transforma as pessoas em robôs, que não pensam, apenas memorizam”, afirma. IMG_2553

As avaliações externas acabam padronizando o processo de aprendizagem, fazendo com que o modelo de qualidade seja empregado  a partir dos interesses de quem formula as provas. É o que explica a professora portuguesa, a quem “os formatos de avaliação acabam determinando também os conteúdos escolares, que ficam presos a um padrão. Os saberes são divididos em disciplinas, tornando a educação um sistema cumulativo”.

Avaliações no Brasil
Segundo a publicação Percursos da Educação Integral no Brasil, o país adota algumas avaliações de aprendizagem, como o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), – todos para a educação básica -, e o Exame Nacional do Estudantes (ENADE), voltado para o ensino superior. Dentre esses, o Ideb é o que reúne informações sobre o fluxo escolar e das médias no desempenho das avaliações. O indicador é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar obtidos no Censo Escolar, e médias de desempenho nas avaliações do Inep, o Saeb – para as unidades da federação e para o país-, e a Prova Brasil –, para os municípios.

A avaliação não deve ser apenas  um controle

As palestrantes destacaram ainda que os processos de avaliação devem ser estruturados desde a base, na relação dos professores com os alunos, fazendo com que esse momento seja também uma forma de construir  aprendizados para ambas as partes. Um caminho proposto é a avaliação negociada, metodologia desenvolvida para que o avaliador não construa um juízo de valor autoritário sobre quem é avaliado.

Desse modo, a  avaliação deve acontecer de forma horizontal entre todos os envolvidos, ajudando-os a transformar o conhecimento em saberes próprios, relacionando-os aos conteúdos e conhecimentos que já vêm acompanhando com os estudantes.  “Nós só realizamos aprendizagem quando isso que aprendemos se articula com algo que já sabemos e por outro lado atribuímos novo sentido àquilo que estamos aprendendo”, afirma Terrasêca.

A avaliação na Educação Integral

Na Educação Integral, a avaliação se torna um desafio ainda maior, já que é tido como essencial que os processos de aprendizagem se deem também por meio de processos não cognitivos, como a sociabilidade, autonomia e expressão de opinião.

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Para Terrasêca, não há um modelo exclusivo de avaliação na Educação Integral, porém, há referências comuns que podem orientar esse processo avaliativo, como a escuta da opinião dos alunos por parte dos professores. “A escola não deve pensar que os estudantes vão levar o conhecimento assim como levam a mochila nas costas. Os saberes são importantes, mas mais importante é a síntese desses saberes. O indivíduo não é exclusivamente constituído por massa cinzenta, é também um sujeito de prazer, de fruição, de beleza, de sentido ético, que são componentes de formação que a escola deixa de lado”, explica a professora.

De acordo com a coordenadora técnica do Centro de Estudos em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC), Maria Mansutti, para o Brasil avançar na discussão sobre avaliação na  Educação Integral é preciso, antes, compor um currículo que dê conta dessa proposta de educação multidimencional. Porém, o país ainda está na etapa de criar ações e metodologias, mas não possui formatos curriculares.

A avaliação educacional faz parte do currículo, composto por quatro elementos, que são a  definição das competências de aprendizagem, os conteúdos utilizados nesse processo , a metodologia empregada e um tipo de avaliação. “Como a discussão do currículo ainda é uma discussão que está iniciando, ainda não temos muitas pistas de como fazer a avaliação, pois ela necessariamente responderia a esses eixos como um todo”, explica.

Programas de Educação Integral com avaliação própria

Centro Popular formula modelo de avaliação diferente

Na tentativa de encontrar um caminho para a avaliação em um processo formativo integral, o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) formulou uma série de indicadores que vão além do processo formativo, envolvendo também, por exemplo, a afetividade dos estudantes. Confira aqui experiência.

O programa de Educação Integral de São Bernardo do Campo, o Tempo de Escola, possui um modelo de avaliação construído de forma colaborativa por todos os atores envolvidos no programa. Para isso, elegeram os principais focos de avaliação e o que contemplava o monitoramento e avaliação de processos. Foram eleitos os focos que seriam avaliados levando-se em conta cada instância de participação existente no programa. A aprendizagem das crianças e adolescentes passaram a ser verificadas também por meio das habilidades como o desenvolvimento social, respeito e solidariedade. Foi construído, ainda,  um indicador sobre a qualidade do programa, levando-se em consideração a opinião dos diversos públicos envolvidos na proposta.

Outra experiência de avaliação satisfatória se deu no município de Santos, no litoral de São Paulo (SP), no Programa Escola Total, onde foi criada uma matriz de monitoramento amparada nos quatro pilares da educação da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco): aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser. Os profissionais envolvidos no programa selecionaram 28 tipos de aprendizagem mais significativas agrupadas em duas frentes, uma para crianças e outra para adolescentes, que deram origem à matriz utilizada no processo.