publicado dia 11/01/2019

Grupo Luderê valoriza cultura negra por meio de abordagens lúdicas

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Eram com os retalhos de tecido arrancados de suas saias que tantas mães acalmavam e alegravam seus filhos trancafiados nos navios negreiros que os levavam como escravos de países da África para o Brasil. Um nó aqui, outro ali, e sem nenhuma costura uma pequena boneca ganhava vida: a Abayomi, “encontro precioso” na língua iorubá.

A confecção dessas bonecas artesanais tão bem ilustra o trabalho do grupo Luderê – Espaço Afro Lúdico: encantar por meio do lúdico ao mesmo tempo em que ensina sobre a ancestralidade negra e a importância dos seus símbolos de resistência e cultura.

Formado pelas pedagogas Clélia Rosa e Sheila Perina e pela psicóloga Thais Fernanda, o projeto se dedica à formação de professores e à arte-educação por meio de uma abordagem afro-lúdica, isto é, que privilegia um repertório de literatura e brincadeiras africanas e afro-brasileiras.

“A ludicidade é uma linguagem universal que alcança pessoas de todas as idades, posição social, raça, etc. Acreditamos também que é um caminho importante para se chegar ao conhecimento. Assim, nosso objetivo é construir e ampliar o conhecimento que as crianças e adultos têm do continente africano e da influência das Áfricas na cultura brasileira”, conta Clélia Rosa.

Brincar é aprender

O projeto começou a partir da experiência das integrantes coordenando encontros de formação continuada com professores da rede municipal de São Paulo a fim de trabalhar metodologias para a implementação da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino das culturas africanas e afro-brasileiras nos espaços escolares.

luderê espaço afro lúdico

O grupo se dedica à formação de professores e à arte-educação por meio de uma abordagem afro-lúdica.

Crédito: Divulgação

Este olhar sobre a educação para as relações étnico-raciais, ao lado da imersão nas culturas africanas e afro-brasileira por meio das artes, brincadeiras e literatura, possibilitou a criação do Luderê.

Atualmente, o coletivo trabalha com atividades como mediação de leitura, oficinas de Abayomi, oficina de artes, de turbantes, jogos e brincadeiras próprios dessas culturas, além de rodas de conversa com famílias e escolas para a educação étnico-racial.

“Nossa ação possibilita que adultos e crianças brinquem juntos, logo, que aprendam e ampliem em conjunto seu conhecimentos. Acreditamos que não existe universo infantil que esteja desconectado do universo adulto e, por isso, em nossas intervenções a presença dos familiares ou adulto responsável é fundamental.”

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Oficina de Abayomi, que significa “encontro precioso”, em Iorubá

Crédito: Divulgação

Representatividade importa

Mais do que apresentar práticas lúdicas, o grupo visa mostrar a contribuição das mãos negras na construção material e imaterial do País. “O Brasil é um país onde 54% da população é negra. Essa mesma população ainda não é representada de forma potente, seja pelos meios de comunicação, brinquedos, novelas, e também na educação formal.”

Clélia reflete ainda sobre os danos causados por esta falta de representatividade: “A construção da identidade positiva de um povo se dá a partir da valorização de suas raízes, características físicas, heranças culturais e históricas”, explica.

Nesta perspectiva, a valorização da cultura e pessoa negra, além do combate ao racismo, precisa se dar no cotidiano, nas relações entre criança-criança, adulto-adulto e adulto-criança. “A boneca negra precisa estar no colo da criança negra para que essa criança se veja representada. Do mesmo modo, essa mesma boneca negra precisa estar no colo da criança não-negra para que essa possa brincar de cuidar, dar afeto, carinho e atenção para uma boneca que não se pareça com ela. Isso é combater o racismo: aprender desde pequeno que todas as pessoas, nas suas diferenças, precisam de igual respeito e atenção.”

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