publicado dia 15/07/2026

Estudo reacende debate sobre o uso de indicadores externos para medir a qualidade da Educação em tempo integral 

Reportagem:

🗒️Resumo: Análise sobre o desempenho de escolas em tempo integral no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) reacendeu o debate sobre o uso de indicadores externos para mensurar a qualidade da Educação. 

A divulgação de uma análise do Insper sobre o desempenho de escolas de tempo integral trouxe à tona discussões sobre o uso de indicadores externos para mensurar a qualidade da Educação ofertada na jornada ampliada. 

A análise “Decifrando a Evolução do Ideb da Educação em Tempo Integral”  apontou redução no desempenho do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) em escolas de Ensino Médio com tempo integral entre 2019 e 2023. 

Leia Mais

De acordo com o estudo, o Ideb de escolas de tempo integral recuou entre o período analisado, um movimento visto pelos pesquisadores como inesperado, segundo reportagem da Folha de S.Paulo

Os limites do Ideb para avaliar a qualidade da Educação 

Criado em 2007, o Ideb é calculado a partir dos dados de aprovação captados pelo Censo Escolar e das médias de desempenho no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), para as unidades da federação e para o País, e a Prova Brasil, para os municípios. De acordo com o Ministério da Educação (MEC), trata-se de uma ferramenta para acompanhamento das metas de qualidade para a Educação Básica. 

No entanto, especialistas apontam limitações para o seu uso na avaliação da qualidade do ensino e do desenvolvimento integral dos estudantes. 

Para especialistas, qualidade da Educação Integral precisa ser avaliada a partir de múltiplos fatores, e não apenas da nota no Ideb

“A qualidade da Educação Integral precisa ser avaliada a partir de múltiplos fatores: trajetórias, condições, acompanhamento. A variável do Ideb é reducionista para o que significa a qualidade de uma escola”, critica Fernando Mendes, gestor do Centro de Referências em Educação Integral. 

Para Ana Paula de Pietri, formadora do Centro de Referências em Educação Integral, avaliar os resultados da Educação Integral exclusivamente a partir de indicadores de desempenho acadêmico de curto prazo pode produzir interpretações limitadas sobre uma política que envolve mudanças estruturais profundas.

A educadora explica que ampliar a jornada escolar na perspectiva da Educação Integral exige transformar o currículo, adequar a infraestrutura e revisar práticas pedagógicas, entre outros processos complexos. 

“Em muitas redes, especialmente nas de pequeno e médio porte, essa transformação tem ocorrido em um contexto de restrições orçamentárias e de desafios históricos relacionados à infraestrutura escolar”, contextualiza Ana. 

“As Diretrizes Operacionais para a Educação Integral em Tempo Integral definem a equidade como um de seus princípios centrais. A ampliação do tempo escolar busca garantir maiores oportunidades educativas para estudantes historicamente excluídos do acesso a bens culturais, científicos, esportivos e artísticos, enfrentando desigualdades sociais e territoriais que marcam a educação brasileira”, complementa a educadora.

A questão da avaliação externa como parâmetro para a qualidade da Educação é uma discussão recorrente no campo educacional. 

Olhar isoladamente para o Ideb acaba focalizando a escola de maneira descontextualizada, sem considerar fatores e desafios complexos

 Entre outros pontos levantados pelos críticos da ferramenta, olhar isoladamente para a nota no Ideb acaba focalizando a escola de maneira descontextualizada, sem considerar fatores socioeconômicos e outros desafios complexos capazes de influenciar no resultado obtido nos testes.

Além disso, a nota final acaba não mostrando outros aspectos da escola, como o trabalho com a inclusão e a diversidade presente na comunidade, além de ser insuficiente para medir o desenvolvimento integral dos estudantes. 

Para analistas, resultados não significam esgotamento do tempo integral 

Na esteira da divulgação do estudo do Insper, outra análise (“Tempo integral e aprendizagem: Ampliando o debate sobre a redução da vantagem das escolas integrais”) se debruçou sobre a redução da vantagem encontrada pelos analistas do Insper a partir de dados do Inep. 

De acordo com os autores, Gregório Grisa e Rodrigo Luppi, “os resultados não sustentam a conclusão de que a redução da vantagem observada represente um esgotamento ou fracasso do modelo de tempo integral”. Além de docente no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Grisa é Secretário de Articulação Intersetorial e com os Sistemas de Ensino do MEC. O co-autor, Rodrigo Luppi, é diretor de programa na Secretaria de Articulação Intersetorial e com os Sistemas de Ensino (Sase) da pasta.  

Para os analistas, a redução da vantagem no Ideb de escolas de Ensino Médio em tempo integral é explicada por movimentos distintos: “avanço do fluxo nas escolas sem oferta integral, maior dificuldade de crescimento entre escolas que já estavam no topo e forte sensibilidade dos resultados ao patamar anterior”. 

O período observado (2019-2023) pelos pesquisadores também abarca a pandemia de Covid-19, que impactou significativamente as aulas presenciais e o desempenho dos estudantes.

“A leitura por decis sugere maior recuo relativo da aprendizagem entre escolas que já estavam no topo em 2017. É possível que o mesmo fenômeno observado no PISA pós-pandemia, em que os países com desempenho mais alto foram os que mais perderam, esteja ocorrendo nesse conjunto de escolas”, afirma o texto.  

Além disso, a análise crítica aponta que a queda da vantagem não foi identificada no Ensino Fundamental. 

“Nos Anos Iniciais, a vantagem das escolas 100% integrais estáveis em relação às escolas sem oferta integral passou de 0,46 para 0,55 ponto de Ideb. Nos Anos Finais, passou de 0,63 para 0,65 ponto”, diz o texto, que circulou entre especialistas e organizações que defendem a Educação Integral. 

“Uma diferença menor, isoladamente, não permite saber se houve perda de efetividade da política, piora das condições de implementação ou melhora relativa das unidades de comparação. O conjunto das evidências continua indicando o potencial da Educação em tempo integral. O que os resultados colocam em discussão não é a pertinência do modelo, mas as condições necessárias para que sua expansão preserve a qualidade e os efeitos encontrados nas experiências mais consistentes” conclui a análise. 

O que diz o estudo do Insper sobre Ideb no tempo integral

Realizado pelos economistas Ricardo Paes de Barros e Laura Müller Machado, o estudo “Decifrando a Evolução do Ideb da Educação em Tempo Integral” foi conduzido no âmbito do Centro de Evidências da Educação Integral do instituto. 

De acordo com a análise, houve recuo na vantagem no desempenho das escolas com tempo integral ante aquelas sem extensão da jornada. Apesar da queda da vantagem, o Ideb médio das escolas com tempo integral seguiu muito acima das demais: 4,91, ante 4,20.

No total, a análise considerou 16 mil escolas públicas urbanas das redes estaduais que ofertam tempo integral. O estudo não olhou para outras etapas da Educação Básica além do Ensino Médio, como as que atendem crianças da Educação Infantil ou estudantes do Ensino Fundamental. 

O que o Ideb não mostra: Diversidade, inclusão e vulnerabilidade das escolas

As plataformas da Cidade Escola Aprendiz utilizam cookies e tecnologias semelhantes, como explicado em nossa Política de Privacidade, para recomendar conteúdo e publicidade.
Ao navegar por nosso conteúdo, o usuário aceita tais condições.