publicado dia 26/03/2021

Este professor está ensinando a combater fake news sobre vacinas na aula de Português

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Selo Reviravolta da EscolaNo começo do ano, conversando com sua turma de 8º ano, o professor de Língua Portuguesa, Glaucio Ramos, da Escola Municipal Cônego Costa Carvalho, em Paulista (PE), percebeu que muitas pessoas da comunidade diziam não querer  se vacinar contra o coronavírus. Ao investigar a causa da recusa, compreendeu que os motivos, não tinham evidências científicas. Os moradores estavam tomando decisões com base em fake news. Foi a partir dessa percepção inicial que o educador mobilizou os estudantes para investigar e propor soluções para essa questão, criando o projeto Fuja da Fake e Foque no Fato.

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As atividades tiveram início em fevereiro, de forma remota, e o primeiro passo foi realizar um diagnóstico por meio de um formulário online. Os estudantes ouviram 87 pessoas da comunidade e os resultados revelaram que 84% das pessoas conheciam alguém que não queria se vacinar e outras 85,5% já tinham visto alguma fake news sobre a vacina contra a Covid-19. Dos respondentes, quase 30% não sabiam identificar uma notícia falsa e 74% já compartilharam uma notícia ou informação e depois descobriram que era falsa. 

A turma se reuniu virtualmente com o professor para analisar esses dados e ficou claro: era preciso fazer algo. Assim, começaram a estudar o fenômeno das notícias falsas e seus impactos para a sociedade. 

“Propus meios para exercitar as várias estratégias de identificação de fake news, como um trabalho de detetive. Então eles vêm aprendendo os princípios básicos de checagem, como buscar a mesma notícia em vários sites, fazer pesquisa reversa, buscar a fonte e as referências, e usar sites de checagem de fatos”, conta Glaucio. 

Por meio do WhatsApp, os estudantes compartilham com o professor o resultado de suas investigações. Aqui, a aluna Jenifer fez uma pesquisa reversa de uma imagem e encontrou a notícia no site de checagem Lupa.

A turma também está lendo o livro Esquadrão Curioso: Caçadores de Fake News (Panda Books, 2018) e criando memes sobre o tema. Na próxima fase, os estudantes vão entrevistar pessoas da Polícia Federal sobre crimes cibernéticos e receber um jornalista em um debate virtual sobre as notícias falsas.

O projeto ganhou, ainda, a parceria de professores de outras áreas da escola. “É importante que o aspecto interdisciplinar seja contemplado”, avalia o educador. Assim, em História, estudam a negação da vacina em outros momentos do Brasil, em Ciências pesquisam a segurança científica da vacina e em Matemática analisam dados, porcentagens e gráficos de pesquisas.

Educação Midiática na BNCC

“Achei bem legal e muito interessante estudar sobre fake news. Eu não sabia o que era e nem como identificar, e agora eu sei, e não vou sair compartilhando nada que não seja verdadeiro. Pesquisar se a fonte é segura, olhar outros sites, ver se a mensagem é muito apelativa, ajuda a combater as fake news”, conta a estudante Jenifer da Silva, de 13 anos. 

No Brasil, onde cerca de 24,3 milhões de crianças e adolescentes são usuários de internet, segundo a pesquisa TIC Kids Online 2016, publicada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 31% dos usuários(as) com idade entre 11 e 17 anos disseram que não são capazes de verificar se uma informação encontrada ali está correta.

O produto final do projeto, que deve ser concluído em maio, será uma campanha educativa em vídeo sobre as fake news e os prejuízos que elas trazem para o combate ao coronavírus. Durante o processo, os alunos terão a oportunidade de experimentar todas as etapas da produção de informações, como verdadeiros jornalistas.

“Os alunos estão trabalhando com um problema real, então vamos criar um perfil no Instagram para divulgar as produções para a comunidade, porque isso não pode ficar só entre nós”, ressalta Glaucio.

Para que todo esse projeto pudesse ser realizado, o professor primeiro se certificou de que todos os estudantes teriam condições iguais de acesso às mesmas ferramentas. O celular, o Instagram e o WhatsApp, além de aplicativos gratuitos para edição de áudio e vídeo, se mostraram os recursos possíveis para a turma. Além disso, a Secretaria Municipal de Educação forneceu para os professores um chromebook para trabalhar remotamente e distribuiu chips de celular para os alunos.

“Não podemos fazer uso da tecnologia por ela mesma na educação, e nem achar que é suficiente os alunos serem nativos digitais. É preciso pensar em finalidades sociais, significativas, que promovam o letramento digital”, afirma o educador.

Antirracismo na praça

Esse não é o primeiro projeto envolvendo tecnologia e questões sociais que o professor desenvolve. No ano passado, a partir das movimentações antirracistas nos Estados Unidos e no Brasil, o educador convidou sua turma, também de 8º ano, a criar a “Parede Sonora Contra o Racismo”, uma instalação de arte com Código QR que permitiam aos transeuntes acessar pelo celular os áudios dos estudantes falando sobre racismo. A exposição ocorreu em novembro passado, em um parque da cidade autorizado a funcionar de acordo com a fase de quarentena do município.

Instalação do projeto “Parede Sonora Contra o Racismo”

A partir do livro Pequeno Manual Antirracista (Companhia das Letras, 2019), da filósofa Djamila Ribeiro, e outros estudos sobre o tema, os estudantes começaram a pesquisar sobre o Código QR, podcasts e parede sonora. Depois, redigiram os textos e gravaram os áudios. Parte das produções também foi publicada no Instagram da turma, o @todoscontraoracismo8_. 

“Eles não imaginavam que poderiam fazer tanto à distância, em meio a uma pandemia, porque de fato interferimos na dinâmica das pessoas, que paravam para olhar e ouvir a exposição”, relata Glaucio. 

*Foto: TV Nova Nordeste

O que é a #Reviravolta da Escola?

Realizado pelo Centro de Referências em Educação Integral, em parceria com diversas instituições, a campanha #Reviravolta da Escola articula ações que buscam discutir as aprendizagens vividas em 2020, assim como os caminhos possíveis para se recriar a escola necessária para o mundo pós-pandemia.

Leia os demais conteúdos no site especial da #Reviravolta da Escola.

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