publicado dia 26/06/2014

Em palestra, jovem explica sua aprendizagem baseada no Hackschooling

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É com a pergunta (um tanto irritante, como ele classifica) e comumente direcionada ao universo infantil que Logan La Plante, um menino de 13 anos, começa sua palestra no TEDx em Nevada, EUA: “O que você quer ser quando crescer?”. Longe de ter a resposta esperada pela maioria dos adultos, que geralmente aponta para um caminho profissional, Logan diz que quer ser feliz, exatamente como é hoje.

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Para o garoto, poucos se importam com os desejos das crianças que, na maioria das vezes, estão diretamente ligados às boas experiências que vivenciaram. Em determinado momento de sua palestra, Logan questiona os motivos pelos quais a educação não considera estudos e práticas sobre as pessoas serem felizes e saudáveis, sendo estes assuntos, quando abordados, tratados de maneira isolada nas instituições escolares.

Adaptado a partir de imagem de Rob Hyrons

Adaptado a partir de imagem de Rob Hyrons

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A opinião também é compartilhada por Ken Robinson, autor, palestrante e consultor internacional em educação. Para ele, a educação atual está mais preocupada em preparar os jovens para entrarem na faculdade e saírem bem em entrevistas de trabalho, do que realmente prepará-los para construir uma vida com realização e felicidade.

Esses foram os motivos que levaram os familiares de Logan La Plante a afastá-lo da escola aos nove anos de idade. Desde então, sua aprendizagem vem se delineando pelo que ele chama de Hackschooling, que significa considerar as experiências, descobertas e habilidades de cada indivíduo em meio ao processo.

Logan fala de um de seus principais ídolos para explicar o conceito. “Shane McConkey é o meu herói. Eu o amo porque é o maior esquiador do mundo. Mas só outro dia eu percebi o que eu realmente amo em Shane. Ele é um hacker. Não um hacker de computador, ele é um hacker esquiador. Sua criatividade e invenções fizeram do ski o que ele é hoje. E por isso eu amo esquiar”.

O jovem vê os hackers como pessoas inovadoras, que desafiam e alteram os sistemas para fazê-los diferentes, torná-los melhores. E ainda diz que tudo pode ser hackeado, até mesmo  a educação que, por sinal, carece de mentes de pessoas dispostas a modificar o que está dado.

Education Hackaton

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Sobre a sua própria aprendizagem, Logan diz não seguir nenhum currículo específico e nem se dedica a uma abordagem única. Ele diz ‘hackear’ sua educação. Como explica: “Eu aproveito as oportunidades em minha comunidade por meio do networking com meus amigos e família. E aproveito as oportunidades de experimentar o que estou aprendendo. E não tenho medo de procurar atalhos para ter um resultado melhor e mais rápido”. Para o jovem, nessa perspectiva, o aprendizado torna-se flexível, oportuno, e mantenedor da ce felicidade, saúde e criatividade.

Comunidade

Logan explica que acessa as variadas oportunidades de aprendizagem em sua comunidade, oferecidas por museus, centros culturais e organizações locais. De estudos sobre segurança no esqui a práticas de arvorismo ou teatro com base em personagens históricos, o jovem acessa – de forma autônoma – tudo o que está a seu alcance.

O garoto afirma que o método Hackschooling poderia ser utilizado em qualquer escola, já que não se trata de um modelo imposto, mas da mudança de mentalidade por parte dessas instituições. E, mais uma vez, defende que a condução do processo de ensino e aprendizagem deve considerar as experiências e interesses do educando. Ao experimentar o que aprendeu, e ter a oportunidade de errar e acertar, Logan se diz muito mais interessado.

Para ele, o Hackschooling diz sobre ser criativo, sobre fazer coisas diferentes; é também sobre comunidade, com uns ajudando aos outros; é sobre ser feliz e saudável, junto de seus melhores amigos.

Confira a palestra na íntegra:

O modelo norte-americano

Nos Estados Unidos, a iniciativa da família de Logan de permitir que ele estudasse em casa é permitida legalmente. No país, segundo dados do censo educacional de 2009, cerca de dois milhões de estudantes participam do ensino domiciliar. Como o sistema é federativo, cada estado dos EUA apresenta uma legislação diferente, condicionando a prática à padrões curriculares e metodológicos, testes anuais,  ou acompanhamento de órgãos públicos.

Foto: Wikimedia

John Holt. Foto: Wikimedia.

Um dos grandes entusiastas do ensino domiciliar, o educador John Holt (1923-1985), justificou ainda a ideia do “unschooling“, ou desescolarização, preconizando que os pais ou tutores, ao assumirem a educação das crianças e adolescentes, poderiam repetir o sistema escolar em casa, reafirmando o que ele considerava uma estrutura falida. Para o pensador, era preciso dar autonomia aos estudantes e estimulá-los a tecer uma vida “desescolarizada” com o apoio da comunidade, acessando as várias possibilidades de aprendizagem na vida em sociedade.

O ensino domiciliar foi autorizado após inúmeros debates e estudos da Suprema Corte (equivalente ao Supremo Tribunal Federal no Brasil), mas ainda é questionada por alguns especialistas, que afirmam que o estudante teria menos contato social, e poderia ser condicionado a compreender o mundo sob um ponto de vista unilateral, apresentado pelo seu tutor.

Nessa perspectiva, em vários países em que a prática é autorizada, criaram-se comunidades de ensino domiciliar, que incentivam, inclusive, o intercâmbio entre estudantes e educadores (pais e tutores). Entre os que legitimam a forma de ensino estão Portugal, Bélgica, Nova Zelândia, Canadá, França, Australia, Reino Unido, entre outros.

Estudo domiciliar no Brasil

Segundo Ministério da Educação, a prática é ilegal, pois fere Estatuto da Criança e do Adolescente, a LBD (Lei de Diretrizes Básicas) e a Constituição Federal. Ambos ECA e LDB afirmam que é dever dos pais matricular seus filhos na educação básica.  O código penal brasileiro, no artigo 246, pode entender a prática como abandono e intelectual, para aqueles que deixam de prover instrução.

Do outro lado, os que advogam pelo direito ao ensino domiciliar discutem que a Constituição prega que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, alegando que os responsáveis teriam soberania para forma de definir como ensinar. Os envolvidos com a questão também justificam que os exames Encceja (Ensino Fundamental) e Enem (Ensino Médio), que já certificam alunos que completam determinada pontuação, poderiam ser meios de avaliar o ensino domiciliar.

Elaborado de forma colaborativa com contribuições de mais de duas mil pessoas durante cinco anos de discussões virtuais e presenciais, o III Manifesto pela Educação – Mudar a Escola, Melhorar a Educação: Transformar um País, advoga pela possibilidade de educação domiciliar, indicando que esta “e outros modos de desenvolver aprendizagem sejam permitidos às famílias que assim o desejarem, desde que garantida a coerência e a qualidade dos percursos de aprendizagem do educando à luz de um projeto educativo.” Entregue em outubro de 2014 ao então ministro Aloísio Mercadante, o texto segue como um marco referencial importante para pensar a questão no país.

O grupo, que também organizou a Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação (CONANE), e que aconteceu em novembro do mesmo ano, contou com a participação de Sabrina Bittencourt que explicou como educa de forma domiciliar seu filho.

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Texto inspirado em reportagem do Porvir.

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