publicado dia 13/08/2026

Em Lages (SC), Educação Integral Antirracista é chave para buscar a equidade

Reportagem: | Edição: Tory Helena

Antes de começar o XX Congresso de Educação do Município de Lages (SC), a professora Gina Vieira, formadora de professores pelo Centro de Referências em Educação Integral, degustava um prato de entrevero, o pinhão refogado com carne, cebola e pimentão que move parte da economia da Serra Catarinense, quando uma pessoa a abordou. 

Longe da figura inacessível trancada no gabinete, o Secretário Municipal de Educação Cristian Roberto Antunes de Oliveira sentou-se ao seu lado para conversar. “Foi marcante, porque ele falou de seu desejo de estruturar a rede, principalmente porque boa parte das crianças e adolescentes atendidos pelo município vive em condições de vulnerabilidade”, conta a professora.

O município de 172 mil habitantes possui 100 escolas e oferta tempo integral para 70 unidades de Educação Infantil e 11 de Ensino Fundamental. Também lida com o desafio de cerca de 31,5% da população possuir um rendimento nominal mensal per capita de até meio salário mínimo, de acordo com o IBGE.

Era esse o território que recebia, nos dias 20 e 21 de julho, o XX Congresso de Educação do Município de Lages, com o tema “Educação Integral: Princípios e práticas na Educação pública contemporânea”. O evento reuniu mais de 3 mil participantes das redes municipal, estadual e privada, além de estudantes de graduação. 

Gina conduziu uma palestra sobre os princípios da Educação Integral, tema da edição, e um seminário sobre Educação Integral Antirracista. As propostas da educadora formam um mapa do que é essencial na formação contínua de educadores de todo o Brasil.

“Não se ensina a fazer Educação Antirracista numa palestra. É um processo permanente de atualização, de interlocução com o território”, diz Gina Vieira.

Para o professor de História Gustavo Cezar Waltrick, presidente da comissão organizadora do Congresso, a escolha do tema tem a ver com o desafio da rede em ampliar a jornada escolar e qualificá-la a partir da Educação Integral Antirracista.  

“A fala da Gina veio colaborar para fortalecer a equidade racial, a valorização das diversidades, garantir letramento racial a estudantes e professores e para promover acesso, permanência e aprendizagem”, explica Gustavo. 

A importância da avaliação diagnóstica

Antes mesmo de chegar à cidade, Gina elaborou um instrumento de avaliação diagnóstica para conhecer o que a rede pensava sobre Educação Antirracista e reuniu-se com Gustavo, representante da Secretaria, para entender o perfil e o projeto político-pedagógico local. Segundo ela, o formulário teve mais de 200 respostas e virou também um registro do ponto de partida da rede.

“Houve uma preparação. Não foi simplesmente chegar em Lages e despejar um conteúdo. É uma maneira da rede se olhar e pensar de que ponto estamos partindo, quais são as concepções que carregamos e as dúvidas que temos”, explica a professora, em coerência com o que propõe a própria Educação Integral, que compreende que os estudantes possuem conhecimentos e ampla bagagem cultural, de onde partem os professores para ensinar e aprender juntos.

“Não se ensina a fazer Educação Antirracista numa palestra. É um processo permanente de atualização, de interlocução com o território”, define a especialista. 

Educação Integral é diferente de tempo integral

No primeiro dia, Gina ancorou a fala sobre Educação integral em bases históricas e epistemológicas, retomando nomes como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Demerval Saviani, Jaqueline Moll, Miguel Arroyo, Moacir Gadotti e Paulo Freire, e vinculou o tema à própria trajetória. E também legislações e políticas como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o Mais Educação e o Programa Escola em Tempo Integral.

Ela contou de uma crise profissional vivida em 2003, quando percebeu que a concepção bancária e instrucionista de ensino não dava conta da complexidade dos estudantes. “Eu precisei, quando já era professora há mais de dez anos, adoecer e me questionar por que os jovens odeiam a escola”, afirma. 

Foi por esse caminho que chegou à concepção de Educação Integral, que olha para o estudante de forma integral: social, histórica, cultural, emocional e cognitiva. “A Educação integral é aquilo que, no fundo, nós, como profissionais de Educação, sabemos ser o necessário. A escola trata [os estudantes] apenas como uma cabeça que pensa e nega a sua história, sua relação com o território, nega esse corpo”, diz. 

“Na Educação Integral, o primeiro a ser visto na sua integralidade é o profissional da Educação”, diz Gina Vieira.

Ela associou a ampliação da jornada a partir da Educação Integral à realidade do país de base escravocrata e profundamente desigual. “Essa concepção funciona como uma metodologia de reparação histórica”, afirma. 

Mas alertou que, para tanto, não se pode reduzir a Educação integral a manter as crianças mais tempo na escola “fazendo mais do mesmo”. “Precisamos dar sentido a esse tempo a mais que as crianças e os adolescentes passam na escola, subvertendo a perspectiva do currículo como uma coleção de conhecimentos compartimentados. Ele precisa dialogar entre si, com o território e com a vida e ser comprometido com as aprendizagens”, explica. 

Por fim, Gina destacou que a base de todo esse trabalho é a valorização docente e as condições adequadas de trabalho, e criticou a plataformização e controle milimétrico do trabalho do professor.

“Na Educação Integral, o primeiro a ser visto na sua integralidade é o profissional da Educação”, defende a especialista, que também reforçou a importância da intersetorialidade, a gestão democrática e o respeito à autonomia das escolas. 

Combate ao racismo é central para a Educação Integral

No segundo dia, Gina apresentou conceitos que considera indispensáveis, como racismo estrutural, branquitude, dispositivo da racialidade, a diferença entre igualdade e equidade, e o mito da democracia racial. 

“Precisamos superar a ideia de que o Brasil é um país igualitário para todo mundo, como se o regime escravocrata não tivesse deixado resquícios”, conta a professora, que se apoiou em dados para evidenciar a disparidade, como uma pesquisa que mostra que crianças e adolescentes brancos tiveram três vezes mais acesso ao ensino remoto do que os estudantes negros.

Entre os autores, referenciou Abdias Nascimento, Boaventura de Sousa Santos, Charles Mills, Frantz Fanon, Grada Kilomba, Lia Vainer, Sueli Carneiro, entre outros. 

“Muitas vezes a escola faz muita festa, mas não promove uma Educação antirracista genuína, porque isso não atravessa a organização do trabalho pedagógico. Aparece como um evento descolado do currículo, do território, das relações na escola e da aprendizagem”, explica a especialista.

Como fio condutor, usou a publicação Diretrizes de Educação Integral Antirracista para o Ensino Fundamental: uma contribuição da sociedade civil, voltada a gestores de secretarias e escolas e a docentes, que evidencia as conexões entre a Educação Integral e as leis nº 10.639/03 e 11.645/08, que abordam a obrigatoriedade do ensino da história e cultura africana, afrobrasileira e indígena nas escolas.

“Expliquei como aconteceu a apropriação e apagamento de saberes africanos nos materiais didáticos e a construção da representação da pessoa negra e do indígena como alguém desprovido de intelectualidade. É o que Boaventura Santos chama de epistemicídio e Abdias Nascimento chama de racismo epistêmico”, explica Gina. 

É para fazer frente a isso, define a professora, que a Educação Antirracista se faz necessária. “E também porque o processo de subjetivação de pessoas negras e brancas nesse contexto produz em crianças negras uma baixa autoestima, fazendo com que haja baixas expectativas em relação a elas, muitas vezes por parte de educadores, e em crianças brancas uma sensação de superioridade”, define. 

Gina também abordou a necessidade de recusar o que ela nomeia, em sua dissertação de mestrado, como “pedagogia de eventos”. “Muitas vezes a escola faz muita festa, mas não promove uma Educação antirracista genuína, porque isso não atravessa a organização do trabalho pedagógico. Aparece como um evento descolado do currículo, do território, das relações na escola e da aprendizagem”, observa. 

As perguntas do público, por exemplo sobre os problemas de utilizar as obras de Monteiro Lobato e o livro “Menina Bonita do Laço de Fita”, de Ana Maria Machado, e sobre como lidar com o racismo religioso, indicaram, para ela, uma rede com professores engajados. “É um trabalho já em curso, em processo de institucionalização”, pontua. 

Crédito: Secretaria Municipal de Educação de Lages/Divulgação

Diretrizes de Educação Integral Antirracista: O que são e como colocar em prática

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