publicado dia 28/09/2026

Educação Integral em Debate explora experiências de escolas públicas e redes de ensino com a concepção educacional 

Reportagem: | Edição: Tory Helena

🗒️ Resumo: Gestores e educadoras de Soledade (RS), São Gabriel da Cachoeira (AM) e Irecê (BA) compartilharam experiências de gestão democrática, Educação Escolar Indígena e currículo integrado na última mesa do Seminário Educação Integral em Debate 2026, realizado em 24 de setembro pelo Centro de Referências em Educação Integral. 

“A escola não foi inventada a partir da nossa cultura. A escola foi adotada para a nossa cultura a partir da invenção de cultura de outros povos”.

A frase do educador e pesquisador Dzoodzo Baniwa, liderança indígena Baniwa e assessor da Educação Escolar Indígena em São Gabriel da Cachoeira (AM), resume o desafio que orientou a última mesa do Seminário Educação Integral em Debate 2026: como construir, a partir do território, uma escola que aprende antes de ensinar?

O encontro aconteceu em 24 de setembro e foi transmitido ao vivo pelo Centro de Referências em Educação Integral no YouTube. 

Com mediação de Carlos Eduardo Fernandes Junior, coordenador pedagógico da EMEF Espaço de Bitita, em São Paulo (SP), educadores compartilharam sua experiência com a Educação Integral na prática.

“Coordeno uma escola na cidade de São Paulo há dez anos, a partir dos princípios e do tempo da Educação Integral. É um lugar que traz consigo algumas peculiaridades: trabalhamos muito com estudantes migrantes, vindos de 22 lugares desse mundo, e temos muitas línguas correndo no espaço da escola. Desde 2023 somos a EMEF Espaço de Bitita, nome que homenageia Carolina Maria de Jesus e Bitita porque esse era o apelido dela na infância. Trabalhamos também com crianças, adolescentes e adultos acolhidos em centros de acolhimento da assistência social da cidade, entre eles centros exclusivos para mulheres trans”, relatou Carlos Eduardo.

O educador também afirmou observar que todos os projetos de Educação que priorizam a qualidade e equidade dependem da escuta e do reconhecimento das identidades e dos sujeitos que estão no território e na escola.

A mesa “Experiências que mostram qualidade e equidade na prática” contou com a participação de Dzoodzo Baniwa (São Gabriel da Cachoeira/AM), Andreia Santos (Irecê/BA) e Eliara Levinski (Soledade/RS).

Leia Mais

Reencantar a escola, transformar o Brasil: Que escola queremos para o nosso país? 

Cadu Fernandes: “A escola é o grande equipamento público”

Seminário Educação Integral em Debate 2026 abre com reflexão sobre o papel da escola no mundo de hoje

Avaliação, democracia e qualidade educacional mobilizam Educação Integral em Debate 2026

Assista ao evento na íntegra: 

Gestão democrática e escuta das comunidades em Soledade (RS)

Eliara Levinski é educadora e membro do Conselho Consultivo do Centro de Referências em Educação Integral. Professora já aposentada da rede pública estadual e também da Universidade de Passo Fundo, ela acompanhou a experiência de Soledade, no Rio Grande do Sul.

Segundo ela, o município começou em 2013 a organizar uma política pública de bem-viver para a rede municipal de ensino e para a cidade toda, em parceria com instituições de Ensino Superior, e foi reconhecido em 2019 como Cidade Educadora.

“A Educação Integral está associada a uma decisão política de um projeto de mundo, de um projeto de sociedade. E para isso precisava de uma outra perspectiva de gestão, não somente nas escolas, mas também no território, no município todo”, afirmou Eliara.

Para ela, a formação dos profissionais da Educação da rede e da comunidade escolar tem papel central nesse processo. “Entendemos que ela é o motor, tanto para indagações, quanto para esclarecimentos, e que o professor e os sujeitos da formação seriam os investigadores da própria prática”, disse.

Eliara também destacou a escuta das comunidades como parte da gestão democrática do município. “Quais são as indagações que nós temos na escola, no bairro, na comunidade? Por onde passam as nossas preocupações? O que as comunidades têm a dizer do que faz bem e do que não faz bem para viver lá? Nós fomos costurando esse processo de gestão democrática também com as comunidades e constituímos programas que se tornaram políticas públicas”, disse.

Sobre a intersetorialidade, resumiu: “Uma gestão intersetorial que não era só uma prática da Secretaria Municipal, mas foi da cidade. Isso foi caracterizando um jeito de fazer a cidade com a cidade”, contou Eliara. 

Uma escola que aprende antes de ensinar em São Gabriel da Cachoeira (AM) 

Dzoodzo Baniwa é educador-pesquisador, liderança indígena Baniwa e assessor da Educação Escolar Indígena na Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Ele contou que o território possui uma área de 2,5 milhões de quilômetros quadrados, 85 aldeias, 7 mil pessoas, 51 escolas de Anos Iniciais do Ensino Fundamental e 25 escolas de Anos Finais do Ensino Fundamental. 

Para o Ensino Médio há apenas duas escolas, com salas descentralizadas ao longo do território. A rede conta com 1.630 alunos. “Hoje a gente tem a maioria das escolas na nossa língua indígena”, afirmou.

“Primeiro, para nós foi importante trazer essa reflexão: o que é escola dentro do nosso território? Definimos que precisamos de uma escola que aprende antes de ensinar alguma coisa para nós. Ou seja, a escola precisa aprender, entender a nossa cultura, a nossa comunidade e o nosso território. Porque a escola não foi inventada a partir da nossa cultura”, explicou Dzoodzo.

Em sua cultura, contou o educador, a escola não é vista como o único espaço de aprendizagem. “Estende-se para o espaço da aldeia e também para o espaço de todo o território. A Educação Escolar Indígena transformadora nasce quando a casa, a escola, a aldeia e o território se unem como ambientes vivos de aprendizagem e de mudança”, afirmou. 

E o papel dessa escola também foi definido como o lugar onde é possível construir uma aprendizagem significativa e coletiva, que traz o saber e o agir para atuar em cima de problemas e oportunidades responsavelmente. 

“Cada indivíduo, nessa perspectiva, se torna sujeito de sua própria transformação e da evolução no seu território, um protagonista de uma história que se escreve coletivamente”, disse Dzoodzo.

Por isso, todos os adultos da aldeia participam das atividades da escola, como em projetos comunitários, em pesquisas interculturais e intercientíficas para a produção de aprendizagem. 

“O território não é apenas o cenário da Educação: ele é o próprio conteúdo, o método e a aprendizagem para toda a vida”, definiu Dzoodzo.

Um currículo organizado pelas etapas da vida em Irecê (BA) 

Andreia Santos é Secretária de Educação da rede municipal de Irecê, na Bahia. “Nós estamos situados no sertão da Bahia, no interior, a quase 500 quilômetros da nossa capital, Salvador”, contextualizou. O município tem 79 mil habitantes.

Segundo Andreia, a rede tem 32 escolas e 10.040 estudantes matriculados, atendendo desde a Educação Infantil à de Jovens e Adultos.

Em 2017, teve início a implementação de uma nova proposta curricular. “Ela nasce a partir da formação de professores, de uma especialização em currículo escolar em que nós, professores dessa rede municipal, um quadro de 75 professores efetivos, construímos uma proposta curricular para a nossa rede, a partir do reconhecimento de qual é o nosso território”, disse a gestora.

A transformação começou por três escolas. Quase dez anos depois, 69% das escolas são de Educação Integral em tempo integral.

“Nos inspira a Educação como espaço de vida, de conhecimento e valores. Espaço no qual a vida transita em sua complexidade e inteireza, em que cada aluno e aluna, com razão e emoção, possa operar com a Música, com as Ciências, as Artes, as Matemáticas e a Literatura. Onde cada um e todos em relação possam humanizar-se e singularizar-se, entendendo o mundo e entendendo-se no mundo”, descreveu Andreia.

Ela explicou que o currículo é organizado a partir das fases da vida: a infância um e dois, a pré-adolescência, a adolescência, a juventude e maturidade, com tempos e espaços de aprendizagem diversificados.

“Prezamos pelos diversos universos culturais da produção e do conhecimento, em perspectiva intercultural, com a pedagogia por projetos, porque entendemos que, para pensar nessa diversidade, não dá para ter um projeto igual para todo mundo e nem para todas as escolas. Cada um e cada escola são únicos”, afirmou.

As plataformas da Cidade Escola Aprendiz utilizam cookies e tecnologias semelhantes, como explicado em nossa Política de Privacidade, para recomendar conteúdo e publicidade.
Ao navegar por nosso conteúdo, o usuário aceita tais condições.