publicado dia 10/04/2026
5 dicas para criar ou atualizar a política municipal de Educação Integral e tempo integral
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 10/04/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒 Resumo: Como nasce uma política de Educação Integral que faz sentido para o território e para as pessoas? E como ela se mantém relevante e atualizada? Nesta reportagem, Secretarias de Educação que realizaram esse trabalho dão orientações para criar e revisar a política.
A ordem chega de cima para baixo: a Secretaria de Educação da cidade amplia as matrículas em tempo integral, cadastra os alunos e as escolas precisam expandir a jornada. A mudança é grande e acontece sem muitas explicações ou consultas aos professores, familiares e estudantes.
O resultado, segundo quem acompanha a implementação de políticas de Educação Integral em tempo integral na ponta, é a sobrecarga dos professores, a desconfiança das famílias e o cansaço dos estudantes.
“Tomam decisões que geram transtornos e chegam à conclusão equivocada de que Educação Integral não dá certo”, observa Cláudia Cristina Santos, que integra a coordenação do Comitê Territorial Baiano de Educação Integral e do Observatório Nacional de Educação Integral.
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A chegada do tempo integral às escolas não precisa ser traumática. A construção coletiva da política educacional, com diagnóstico participativo e muito diálogo, pode fazer a diferença. Implementar o novo modelo de forma gradual, avaliando-o continuamente, também ajuda, bem como o foco na concepção de Educação Integral, indo além de apenas garantir mais tempo na escola.
Em Lagedo do Tabocal (BA), por exemplo, após quatro anos do início do trabalho da rede com a Educação Integral em Tempo Integral, houve melhora nos indicadores de avaliação da Educação e da Saúde. É o que relatou Ivonete Sena, Coordenadora Geral na Secretaria Municipal de Educação nesta reportagem sobre a criação da política de Educação Integral no município.
Para Erivelton Alves, secretário municipal de Educação de Mortugaba (BA), buscar apoio técnico para realizar formações e compreender melhor a legislação e os conceitos, foi essencial, bem como a implementação gradual.
“Construir a proposta com tranquilidade e sem pressa, e não começar com a rede inteira de uma vez só, foi o que nos ajudou a ter sucesso em nossa implementação”, afirma Erivelton. O processo da rede foi documentado nesta outra reportagem.
A seguir, confira dicas e orientações para criar ou revisar a política de Educação Integral em Tempo Integral:
O primeiro passo na criação de uma política educacional é o diagnóstico, envolvendo escuta séria e sensível da equipe técnica, diretores escolares, coordenadores pedagógicos, professores, funcionários, famílias e estudantes. Pergunte o que acham da escola ou da rede, como se sentem nela, e o que desejam que fosse diferente.
O Na Prática, plataforma gratuita de formação criada pelo Centro de Referências em Educação Integral, auxilia a criação e implementação da Educação Integral, em jornada estendida ou parcial, nas redes de Educação. A etapa quatro diz respeito ao Pacto Social com a comunidade escolar.
Para Claudia Santos, a consulta precisa ir além da adesão ou não à Educação Integral. “O diagnóstico não está para buscar o acordo do topar ou não topar a Educação Integral e o tempo integral, mas para ver as contradições e o tamanho do desafio que temos”, explica.
Telma Pires do Nascimento, Secretária de Educação de Lagedo do Tabocal (BA), compartilha que, com base nos desejos da comunidade escolar, a rede investiu especialmente no trabalho intersetorial. “Sensibilizamos os representantes da Saúde, Assistência Social, entre outros, e eles participaram da construção da política e ainda atuamos em conjunto”, relata.
É fundamental que educadores, gestores públicos e comunidade escolar estudem o conceito e discutam o que é Educação Integral, refletindo sobre como o tempo integral nas escolas pode fazer sentido para a realidade do município.
“A determinação do tempo da jornada estendida e da concepção de Educação dependem da realidade local e do que a rede deseja.”, diz Cláudia Cristina Santos.
Isso fortalece a corresponsabilização e a formação, deixando todos mais apropriados para participar ativamente da construção da política. Entre outros pontos, é importante ressaltar que a proposta não deve se limitar à ampliação do tempo, mas focar no desenvolvimento integral dos estudantes.
“Se a comunidade quer o tempo integral para que os alunos não fiquem na rua à tarde, vão querer uma escola que é um depósito. Se for para garantir direitos, vão desenhar uma proposta que considere o estudante em sua integralidade. A determinação do tempo da jornada estendida e da concepção de Educação dependem da realidade local e do que a rede deseja, para então desenhar a política”, explica Cláudia.
Além de ampliar a jornada escolar, as Diretrizes Operacionais Nacionais da Educação Integral em tempo integral orientam que o trabalho pedagógico das escolas seja norteado pela Educação Integral.
“Integrar o currículo é urgente e necessário, mas deve ser feito de forma gradual”, orienta Cláudia Cristina Santos.
Isso quer dizer que os conteúdos curriculares devem dialogar com as identidades dos estudantes, que o território vira sala de aula, as metodologias se tornam mais ativas, a avaliação é diagnóstica e não punitiva, e é preciso superar a separação da escola em turno e contraturno.
Esse último ponto, um desafio histórico enfrentado por praticamente todas as escolas brasileiras, inclusive de tempo parcial. “Integrar o currículo é urgente e necessário, mas deve ser feito de forma gradual”, orienta Cláudia.
Quando o tempo integral chega, as escolas costumam realizar aulas expositivas pela manhã e, à tarde, as oficinas de artes, esportes e outros projetos. Para integrar o trabalho, o planejamento conjunto entre todos os professores favorece a construção de projetos e atividades em que as variadas áreas do conhecimento atuem em conjunto.
Cláudia explica que o primeiro passo é investir na construção coletiva de uma matriz curricular que contemple, de forma articulada, a parte diversificada do currículo, incorporando componentes que valorizem o território, a cultura local, as artes, a ciência, a tecnologia, o meio ambiente e as práticas esportivas.
A segunda estratégia é fortalecer a realização sistemática do planejamento pedagógico coletivo, seja de forma semanal ou quinzenal, como espaço de diálogo, articulação e alinhamento das práticas educativas.
Por fim, destaca a importância da formação continuada dos profissionais da Educação, como caminho para fortalecer o diálogo, ampliar a participação e consolidar uma cultura escolar democrática e integrada.
As políticas municipais de Educação Integral e de tempo integral podem iniciar por decreto, mas é interessante elaborar um projeto de lei para consolidá-las. Isso favorece a pactuação em torno da Educação Integral e a continuidade da política mesmo que aconteça trocas de governo.
“Uma lei que nasce só do gabinete não tem a força de uma política que nasce da coletividade.”, diz Ivonete Araújo de Sena.
A própria Secretaria de Educação pode dar o primeiro passo, elaborando o texto do projeto de lei com base na coleta realizada com a comunidade. Com o texto escrito, é importante possibilitar que as comunidades escolares leiam, participem e sugiram alterações. A realização de assembleias nas escolas é um caminho para acolher os ajustes finais.
“Uma lei que nasce só do gabinete não tem a força de uma política que nasce da coletividade, da escuta, da troca. Isso torna a política mais resiliente e contínua”, avalia Ivonete Araújo de Sena, Coordenadora Geral na Secretaria Municipal de Educação de Lagedo do Tabocal.
Com a aprovação das Diretrizes Operacionais Nacionais para a Educação Integral em tempo integral, as redes que já possuem políticas em curso precisam revisá-las até julho de 2026.
Para realizar a tarefa, a orientação de Cláudia é não tentar criar algo do zero, mas formar grupos de estudo da Secretaria com diretores e coordenadores pedagógicos para reler a política municipal em vigor e analisar o que é feito na prática.
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Em seguida, esse grupo lê as Diretrizes Nacionais com olhar crítico e incorpora à política local o que ainda não está contemplado, como a perspectiva de justiça curricular, ou a dimensão de avaliação e monitoramento. “As Diretrizes Nacionais têm o papel de complementar o que a rede já tem”, assegura Cláudia.
Ela também defende que esse trabalho seja realizado ao menos uma vez ao ano. “Isso faz com que a rede ganhe a possibilidade de fazer uma gestão democrática, participativa e reinventar continuamente suas escolas”, afirma.