Copa de Futebol Cooperativo: quando o confronto dá lugar ao encontro

Publicado dia 17/06/2014

Você consegue imaginar uma Copa de Futebol organizada a partir da cooperação e não da competitividade? É com esse propósito que surge a Coopa de Futebol Cooperativo 2014,  que tem entre seus principais lemas a ideia de que “todo mundo ganha junto”.

“A inspiração para tal formato parte da visão de que o futebol é um patrimônio da humanidade, capaz de mobilizar e encantar multidões, e reunir um grande número de pessoas para a convivência. No contexto da escola e da sociedade civil, a prática esportiva necessita de uma abordagem pedagógica que contemple valores e princípios sócio educacionais como participação, cooperação, cidadania, autonomia e bem comum”.

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Participantes jogam a modalidade do futpar. Foto: reprodução

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Essa é a proposta do grupo idealizador da iniciativa, o Projeto Cooperação, que há 22 anos atua com o objetivo de promover a cooperação no mundo. Com sede em Florianópolis e atividades em Santos, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, a organização tem o intuito de formar pessoas de diversas áreas ligadas à promoção dos direitos humanos para gestores, professores e colaboradores de empresas para que eles sejam multiplicadores da cultura da cooperação.

Na contramão da Copa

cooperacao_1A inspiração para o desenho da Coopa de Futebol Cooperativo partiu do fato que o Brasil receberia o mundial. A ideia era promover um legado socioeducativo que envolvesse crianças, jovens e adultos na prática cooperativa do futebol, investindo no desenvolvimento de valores humanos.

A metodologia de trabalho é baseada na Pedagogia da Cooperação, uma abordagem para criar ambientes participativos e em que um depende do outro em diferentes cenários. Na prática, isso se traduz na promoção de princípios, processos, procedimentos e práticas para que cada pessoa possa ser o que é, em conjunto com as demais, pela manutenção de um bem comum.

A iniciativa tomou forma em fevereiro de 2013 e está estrutura em cinco eixos principais de atuação:

a) Coopa Flash – os territórios que recebem a Coopa participam de uma ação de sensibilização. Em um espaço público é realizada uma atividade tipo flash mob com o intuito de surpreender e mobilizar não só os participantes, mas toda a comunidade local para o início do projeto.

b) Oficina de Co-criação: nesse momento, educadores, gestores ou demais interessados em assimilar a metodologia da  Coopa passam por uma formação de dois dias, ministrada pela equipe do Projeto Cooperação. Após as oficinas, essas pessoas saem com propostas formatadas para a sua comunidade, sua instituição ou empresa, sempre na perspectiva da comunidade e das suas necessidades.

c) Evento Coopa: nesta fase é realizada a Coopa de Futebol Cooperativo, que visa fortalecer a cultura da cooperação e o trabalho em equipe  em organizações diversas: escolas, comunidades, espaços corporativos ou governamentais. Os jogos têm uma estrutura diferente da tradicional, e todos saem vencedores (leia mais abaixo).

d) Caravana Coopa: nesse momento, as ações da Coopa são avaliadas dentro do contexto do território, procurando fortalecer as relações comunitárias e o surgimento de soluções colaborativas locais que permaneçam para além das vivências de forma sustentável.

e) Fórum das Boas Práticas: em seguida, todos os participantes são convidados para um momento de troca de boas práticas de abrangência a ser definida pelos próprios envolvidos – a atividade pode ser institucional, regional, nacional ou até internacional. A ideia é fortalecer a necessidade da sistematização das aprendizagens ao longo do processo e do compartilhamento com os demais envolvidos, ampliando as possibilidades educativas, novamente com a tônica de permanência  e sustentabilidade das propostas.

f) Diário da Coopa: para finalizar as etapas metodológicas, é prevista uma publicação que apresenta o legado sócio educacional da Coopa, reforçando as práticas que corroboraram com os valores de inclusão, cidadania, desenvolvimento humano, cooperação social e cultura de paz.

O jogo na prática

Algumas características diferem o jogo cooperativo do competitivo. Na perspectiva da cooperação, o confronto dá lugar ao encontro, o que significa reconhecer cada pessoa em sua singularidade e cada time reconhecido como parte de um só conjunto.

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A partir dessa lógica, a Coopa de Futebol Cooperativo prevê sete momentos com os participantes. Na convocação, os envolvidos – crianças, jovens ou adultos – são envolvidos em uma integração colaborativa, para fortalecer a ideia de que todos fazem parte da mesma ação. A formação dos times também conta com diversos procedimentos que asseguram a participação de todos e a construção coletiva da partida. Por exemplo, as equipes acolhem pessoas com diferentes graus de habilidade e características físicas e culturais, e a organização é acompanhada pelo facilitador do processo.

A cerimônia de abertura prevê atividades de integração entre as equipes, como jogos e condução de danças circulares. Os jogos contemplam outras estratégias de cooperação, como o futpar, em que duas pessoas vestem a mesma camisa e são orientadas a pensar as táticas conjuntamente; se a dupla chega ao gol, ela é convidada a mudar de time (e escolher outra para atuar em seu lugar) para que todos criem o pensamento de parceria e afastem a ideia de que são adversários por estarem em times diferentes.

O vestiário é o momento em que todos avaliam a partida a partir da metodologia cooperativa, com o intuito de reconhecer os saberes ali presentes. Depois,  há um momento de compartilhar a experiência entre os participantes, como em um mapa de aprendizagem – estratégia que, em um jogo normal, seria utilizado como arma tática pelos times. Por fim, há a celebração para comemorar todas as conquistas dos indivíduos e coletivos.

Onde ela acontece?

Atualmente, a Coopa de Futebol Cooperativo está sendo realizada em Santa Catarina, com a parceria do Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Sescoop/SC). O lançamento da iniciativa foi feito em novembro de 2013 em um encontro estadual de professores do Projeto Cooperjovem. Em março e abril deste ano foram realizadas oficinas de cocriação nas cidades de Brusque (SC), Itá (SC) e Torres (RS) que envolveram cerca de 100 educadores da rede pública do estado e os jogos acontecem de junho a setembro.

Esses professores são os mediadores para desenvolver a metodologia da Coopa de Futebol Cooperativo em suas escolas. São 45 unidades envolvidas com a iniciativa e, cada uma delas deve impactar em torno de 12 mil crianças e jovens, e seus familiares, a partir da perspectiva da multiplicação do conhecimento.

Principais resultados

Embora o projeto seja recente, para a equipe gestora do Projeto Cooperação, responsável pela Coopa de Futebol Cooperativo, é fácil perceber nas escolas uma restauração do sentido de comunidade escolar. Primeiro porque para que a iniciativa aconteça é necessário que haja o engajamento de professores e gestores, o que apóia o fortalecimento do grupo pedagógico, de maneira transdisciplinar, já que a iniciativa não se prende a um conteúdo específico.

Outra questão é o fortalecimento dos laços comunitários, seja no ambiente da escola, na estrutura corporativa, governamental ou de um território. Para os proponentes da iniciativa, quando as pessoas se tornam capazes de transformar um esporte essencialmente competitivo e excludente em algo inclusivo e cooperativo, criam-se condições de promover a mudança diante de outros problemas da comunidade.

Paralelamente, ao vivenciarem as atividades, os participantes passam a reconhecer a importância do coletivo e do seu papel nesse contexto, para o qual também é necessário protagonismo e criticidade. Uma maneira, segundo a equipe do projeto, de empoderar os indivíduos e fazê-los perceber a importância da participação na sociedade.

Contatos:
Telefone: (48) 3025-2559
Facebook: https://www.facebook.com/coopadefutebolcooperativo?fref=ts
Site: http://www.projetocooperacao.com.br

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