Como cuidar do emocional dos estudantes agora e na volta presencial à escola

Publicado dia 04/12/2020

Selo Reviravolta da EscolaPara muitas escolas, a pandemia, enquanto um contexto coletivo de temor e luto, evidenciou quão indivisíveis são os estudantes: para poder raciocinar e aprender, eles precisam de um mínimo de bem-estar emocional. Assim, o cuidado com essa dimensão deve ser parte essencial do trabalho pedagógico remoto, bem como na retomada das atividades presenciais.

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Na escola estadual Doutor Pompílio Guimarães, em Leopoldina (MG), esse tem sido um dos principais focos. Por meio de uma série de atividades, envolvendo desde os estudantes até os funcionários, a instituição tem criado oportunidades para que as pessoas expressem seus sentimentos. “É papel da escola estar presente, manter um vínculo e mostrar que eles não estão sozinhos nesse momento”, afirma Ana Cristina Fajardo, professora de Língua Portuguesa na escola.

Com esse intuito, distribuíram mudas e sementes para os estudantes plantarem em casa e, depois, levarem algumas dessas plantas de volta para a escola e lá formar o Jardim da Quarentena. Em outra atividade, pintaram pedaços de pano com desenhos e textos que expressam como têm vivido esse momento. Depois, esses retalhos serão expostos pelos muros da escola e do entorno. Por meio dessas atividades, forma-se uma trilha para a transição entre o momento da quarentena e o de volta às aulas, de forma coletiva e dialogada.

“Muitas coisas estão acontecendo na vida de cada um, então não podemos apagar isso da escola. Temos que conversar sobre o que aconteceu com cada um e buscar saber o que realmente sentiram desse momento”, diz a professora de Ciências e Biologia Lívia Magalhães Vieira.

Todo esse trabalho com a dimensão emocional é também uma maneira de evidenciar outras aprendizagens que ocorreram durante o isolamento social, muito além dos conteúdos pedagógicos. “Percebo eles desenvolvendo maior empatia e cuidado com o outro, autonomia, organização, compromisso com as atividades e prazos. Também vejo as famílias dando o melhor que elas têm. E isso é importante porque a escola não educa sozinha”, aponta Maria Aparecida Furtado, professora de Artes.

Para a coordenadora pedagógica da escola, Rosane Tavares, promover esse tipo de atividade que permite a expressão de sentimentos é uma forma inclusive de estimular que os estudantes voltem para a escola. “Quero que eles saibam que tem alguém pensando neles nesse momento de dificuldade, que vamos passar por isso juntos e logo eles estarão de volta na escola. E que também juntos não vamos apagar tudo e passar por cima, vamos conversar sobre esse período para minimizar as perdas que eles tiveram”, diz.

Conheça algumas das atividades desenvolvidas pela escola:

Diário da quarentena

A partir de trechos do Diário de Anne Frank e do Diário de Slata, em que as adolescentes autoras registraram suas rotinas e angústias diante de guerras e violências, a professora Ana Cristina convidou a comunidade escolar a produzir seus próprios relatos e a “colocar para fora” tudo o que sentirem necessidade.

“Alguns devolveram os relatos e tem muita coisa interessante, inclusive por estimular que eles escrevam. Para os que preferiram não devolver os diários, conversamos sobre como eles estão sentindo ao escrever seus sentimentos, e os retornos são muito positivos”, conta a educadora.

Cápsula do tempo: olhando o hoje, tecendo o amanhã

Em um pequeno pedaço de papel, a comunidade escolar foi convidada a registrar como se sentem agora, do que sentem saudades, o que desejam para o futuro e para quando abrirem a cápsula. Também puderam contar quais livros, séries, filmes, músicas e acontecimentos marcaram esse período, e encerraram respondendo à seguinte reflexão: “Se eu soubesse que a pandemia fosse acontecer, eu antes teria…”.

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Um dos estudantes da escola escrevendo a sua cápsula do tempo

Crédito: E.E. Doutor Pompílio Guimarães

Os registros foram guardados em um recipiente bem isolado e será enterrado na escola. Daqui a cinco anos, em um evento, vão convocar toda a comunidade escolar que participou desse projeto para reabri-la. “Este é um ano que vai ficar marcado, então será importante revisitar isso no futuro, juntos, poder ler aquilo que estavam sentindo e pensando nesse período”, diz Ana Cristina. 

Jardim da quarentena

Junto com as entregas de materiais impressos para os estudantes, a equipe também levou sementes e mudas de plantas de espécies diferentes, com instruções sobre como fazer o plantio e os cuidados com a rega e luz solar. Os demais professores e funcionários também receberam as mudas e sementes.

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Estudantes mostrando as suas mudas plantadas

Crédito: E.E. Doutor Pompílio Guimarães

Durante as aulas, a professora Lívia abordou o tema da preservação ambiental, e para o retorno planeja a culminância do projeto, com a participação de um especialista para falar sobre as queimadas e de um biólogo que vai abordar o desmatamento na região onde vivem. “E depois, juntos, vamos plantar essas mudas na escola e no entorno. É uma maneira de levar um pouco da quarentena para a escola”, explica a educadora.

Retalhos da quarentena

Os estudantes, professores e funcionários receberam um pedaço de tecido em casa, com a orientação de usar aquele espaço para expressar o que quisessem em relação à quarentena e à escola. Alguns estudantes escreveram textos, outros fizeram colagens, desenhos e pinturas. 

Conforme eu ia recebendo esses retalhos de volta, eu abria e via aquele pedacinho de retalho tão pequeno, mas com tanta coisa grande por trás das palavras, de cada traço, das cores. Eles realmente colocaram para fora o que estavam sentido”, relata a professora Maria Aparecida. 

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Um dos painéis montados a partir dos retalhos criados pela comunidade escolar

Crédito: E.E. Doutor Pompílio Guimarães

Para a volta presencial, ela planeja montar painéis e quadros na escola e em uma praça próxima, para que a comunidade também acesse essa produção. “Quero que todos vejam o que passou, que ficou marcado na escola e na vida deles”, afirma.

Pote da felicidade

Estudantes, educadores e funcionários receberam um pequeno pote e algumas fichas em branco. A proposta é que todos os dias eles respondam à pergunta: o que te fez feliz hoje?

“Assim eles vão colocando lá esses registros de pequenos momentos felizes do dia. Isso é importante para perceberem que nós não vivemos o tempo todo felizes, mas também não vivemos o tempo todo tristes”, explica Ana Cristina.

O que é a #Reviravolta da Escola?

Realizado pelo Centro de Referências em Educação Integral, em parceria com diversas instituições, a campanha #Reviravolta da Escola articula ações que buscam discutir as aprendizagens vividas em 2020, assim como os caminhos possíveis para se recriar a escola necessária para o mundo pós-pandemia.

Leia os demais conteúdos no site especial da #Reviravolta da Escola.

O que significa promover o acolhimento na reabertura das escolas